Quando uma criança está brincando ou participando de algum jogo, além de estar se divertindo e praticando a empatia, ela também está aprendendo. Essas atividades auxiliam no desenvolvimento de habilidades, aumentam a percepção sobre o universo ao seu redor e estimulam muito a criatividade. Brincadeiras e jogos podem ser grandes aliados na inclusão de crianças com deficiência na escola e na sociedade em geral. Saiba mais sobre brincadeiras e jogos inclusivos.

Raimundo A. Dinello é doutor em Psicologia com especialização em Orientação Educacional e ex-professor de Sociologia da Educação na Universidade Livre de Bruxelas. Ele afirma que “os jogos têm um papel no desenvolvimento psicomotor e no processo de aprendizado de domínio do social da criança. Através dos jogos é possível exercitar os processos mentais e o desenvolvimento da linguagem e hábitos sociais”. 

Todos esses benefícios que podem também estimular a inclusão, tanto na sala de aula quanto em outros ambientes. Crianças com deficiência podem, por meio de jogos, exercitarem a sua autonomia e se divertirem ao mesmo tempo que aprendem. 

As crianças que possuem deficiências de origem motora, cognitiva, visual, auditiva, de fala ou de linguagem, ao brincarem e jogarem algum tipo de jogo, estarão superando desafios extremamente relevantes para o desenvolvimento, que também influenciam na saúde mental das mesmas. 

Jogos inclusivos promovem mais interação entre as crianças 

O Guia do Brincar Inclusivo, desenvolvido pelo Projeto Incluir Brincando da Unicef escrito por Meire Cavalcante, que é mestra e doutoranda em Educação e Inclusão pela Unicamp, aponta que “as pessoas não são iguais – e é isso que torna o mundo tão rico. Iguais, na verdade, devem ser as oportunidades de sobreviver e de se desenvolver, aprender, crescer sem violência e brincar (…). Ao planejar atividades, brincadeiras e materiais pedagógicos, é preciso fazer a si mesmo uma pergunta-chave: o que vou oferecer permite que todos e todas brinquem juntos, independentemente das características de cada um?

Para promover brincadeiras e jogos que sejam inclusivos com todas as crianças, é necessário prestar atenção em alguns detalhes e, caso necessário, promover adaptações que farão toda diferença. 

Meire Cavalcante também escreveu para o site Nova Escola sobre o tema. “Crianças e jovens com deficiência mental geralmente têm dificuldade de se concentrar por muito tempo. Para prender a atenção delas, são recomendadas atividades dinâmicas e que envolvam muitas cores”. 

Exemplos de jogos inclusivos 

O Guia do Brincar Inclusivo apresenta uma série de jogos inclusivos e também explica sobre as adaptações que podem ser feitas para jogos que você já tem em casa. 

“Para tornar acessíveis os jogos, algumas adaptações simples e baratas podem resolver: criar alto relevo com barbante ou tinta plástica; usar materiais como velcro ou ímã; mudar as regras; criar cartelas e dados maiores para facilitar a leitura de quem tem baixa-visão; usar peças grandes e com alças para crianças com deficiência física; usar placas e legendas em braile; ou usar texturas e cores”.

Jogo da memória

O jogo da memória é um clássico da infância. Ele estimula a atenção, a concentração, além de treinar a memória das crianças e o raciocínio lógico. 

Para que um jogo da memória se torne inclusivo, bastam algumas adaptações simples. O contorno das peças do jogo podem ser marcados com tinta plástica, que ao secar ficarão com alto relevo. O alto relevo facilita na percepção e identificação das peças das crianças que têm alguma deficiência visual. Outra outra possibilidade é colar pequenos objetos nas peças como botões, purpurina, lixa, algodão ou lã. Esses objetos, por terem texturas diferentes.

A introdução de adaptações como essas, que acrescentam algum tipo de textura diferente em cima de alguma superfície de peças ou brinquedos, também são benéficas do ponto de vista psicomotor. Ao tocar essas texturas, crianças com deficiência estarão desenvolvendo habilidades motoras, cognitivas e sensoriais ao mesmo tempo. 

Jogo de dominó 

Para adaptar o dominó de uma maneira muito simples, basta colocar cola quente nas casas de cada peça. Isso vai fazer com que as peças fiquem com partes em alto relevo, o que facilita o manuseio e a percepção das peças para as crianças que têm deficiência visual. Nesse caso, as crianças que não têm deficiência visual podem usar vendas nos olhos, para aumentar a interação durante o jogo. 

O Guia do Brincar Inclusivo também elencou algumas dicas para que todos brinquem: 

  • Estimular as crianças a ajudarem quem tem mobilidade reduzida e outras dificuldades;
  • Usar bolas com guizos e objetos sonoros; Garantir piso plano para a circulação de cadeira de rodas no ambiente; 
  • Respeitar a criança com hipersensibilidade tátil ou visual (realizar as atividades no ritmo dela); 
  • Criar brinquedos que explorem figuras, cores, cheiros, texturas e sons; Perguntar sempre à família e ao profissional de saúde se há restrições no brincar; 
  • Ensinar às famílias as brincadeiras para que brinquem em casa com os filhos; Nos jogos com cartas, usar o segurador de cartas para crianças com deficiência física; Interferir quando alguém estiver excluído da brincadeira; 
  • Não permitir manifestações discriminatórias no grupo; 
  • Oferecer brincadeiras que quebram preconceitos em relação ao gênero; 
  • Privilegiar atividades que valorizem as capacidades (e não as dificuldades) de cada um. 

Uno

O Uno é um jogo que foi criado nos anos 70 e desde então ganhou muitos adeptos no mundo inteiro. Estima-se que até hoje, já tenham sido vendidas 200 milhões de cópias. 

Uma das características marcantes do UNO é justamente as cores das cartas, já que as jogadas são feitas a partir da combinação de cores e números de suas cartas. 

No ano de 2017, o jogo ganhou uma versão voltada para daltônicos. Essa versão conta com cartas marcadas com o selo iconográfico do código de cores universal para daltônicos, ou ColorADD.

Os símbolos estão localizados próximo ao número de cada carta. Todas as cores, o vermelho, azul, e amarelo contam com símbolos diferentes, que quando estão juntos, formam uma nova cor. 

Na prática funciona assim: a junção do traço da carta amarela e o triângulo do azul, forma-se um símbolo criado a partir dessa aproximação, que também estão presentes nas cartas verdes. 

Além das cartas serem diferentes pelos símbolos que possuem, elas também podem ser recriadas por meio da junção de duas cartas. O ícone do verde sendo igual a uma junção dos ícones do amarelo e do azul, por exemplo, facilita para uma criança identificar qual cor é cada uma. 

:: Leia também: Empatia: o que é, como se manifesta e como reconhecer nas crianças ::

Jogos online inclusivos: 

O Laboratório de Objetos de Aprendizagem (LOA), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), desde 2012 desenvolve jogos para crianças com deficiência visual. 

Até o momento 5 jogos foram criados:

Dentro das regras e jogabilidade de cada um deles, é possível exercitar conceitos de matemática, português, química, música e noções sobre saúde. 

Filtros para jogos

A Nvidia Corporation, que é uma empresa de tecnologia com sede em Santa Clara –  Califórnia, nos EUA criou uma ferramenta de filtros em 2018 que podem ser incorporados a diversos jogos de computador. 

Para se ter acesso a essa ferramenta, é necessário fazer a instalação da versão mais recente do Game Ready Driver. Depois disso, o NVIDIA Freestyle permitirá que o usuário que estiver jogando a mudar a aparência do jogo escolhido, com ajustes em cores ou a aplicação de filtros de pós-processamento. 

Dentro dessas categorias de filtros está o modo modo daltônico, que faz com que os jogadores daltônicos possam identificar as cores com maior facilidade. 

Texto por Débora Nazário

NOTA DA EDITORA

A tecnologia vem se tornado cada vez mais aliada à inclusão digital. Assistentes de voz, hashtags como #pracegover e outras medidas abraçam mais pessoas. Algumas medidas são mais complexas e pedem programas e tecnologias mais sofisticadas, mas muitas coisas simples podem ser levadas em consideração na criação de conteúdos inclusivos.

Podemos citar alguns facilitadores em jogos e aplicativos para crianças que os tornam mais inclusivos:

  • Conteúdos com acompanhamento de texto escrito;
  • Audiobooks;
  • Voice-over acompanhando as atividades;
  • e uso de formas para auxiliar pessoas com daltonismo

Mas a inclusão vai além do físico. O aplicativo Domlexia reúne jogos que auxiliam na alfabetização de crianças com dislexia. Os jogos lúdicos e interativos somados com os exercícios fonológicos ajudam as crianças com dislexia a desenvolverem o necessário para o aprendizado das letras e fonemas, auxiliando na alfabetização.

Outro aplicativo que tem aspectos inclusivos é o Truth and Tales. Toda a experiência do Truth and Tales é narrada, dessa forma, crianças que ainda não são alfabetizadas também podem utilizar o aplicativo sem perder a experiência. O aplicativo conta com audiobooks, que são histórias somente por áudio, podendo ser utilizadas por pessoas com deficiência visual. Em alguns jogos dentro das histórias interativas são utilizadas cores para diferenciar uma coisa da outra, mas também usamos formas diferentes para que pessoas com daltonismo possam completar os desafios. 

E por último, O Truth and Tales oferece exercícios físicos para o retorno à homeostase, auxiliando pessoas – não só crianças – a ficarem mais calmas e voltarem para o equilíbrio do corpo e da mente. Os exercícios para o retorno à homeostase podem ajudar crianças com déficit de atenção, hiperatividade e ansiedade. Baixe e experimente!