A infância é um período repleto de aprendizados e, como já explicamos neste texto, o desenvolvimento cognitivo está sendo estimulado a todo tempo quando somos pequenos. Histórias que utilizam o humor também têm um papel importante nesse desenvolvimento.

A cada novo estímulo que as crianças recebem, elas passam a explorar o mundo, os sentidos e, dessa maneira, aprendem e interagem com o ambiente que as cerca. A leitura de histórias é uma forma de estimular esses aprendizados. 

Neste texto, apresentamos informações de que a leitura estimula o crescimento de matéria branca no cérebro, que é um conjunto de fibras nervosas no cérebro que o ajudam a aprender e funcionar. 

Os benefícios das histórias com humor para as crianças

Os pesquisadores Olufolake Orekoya, Edmund SS Chan e Maria PY Chik, ambos da Universidade Batista de Hong Kong, escreveram o artigoHumor e motivação para leitura em crianças: as cócegas funcionam?” onde explicam como a leitura e, principalmente, a literatura com elementos de humor, pode ser benéfica para o aprendizado das crianças. 

Eles apresentam uma investigação de dois anos sobre aprendizagem e ensino de literatura infantil realizadas por cinco universidades com alunos do ensino fundamental, que revelou que a maioria das crianças prefere ler livros que as façam rir

Os resultados mostraram ainda que o que torna os alunos leitores ativos são livros de histórias engraçadas. O estudo relatou as preferências das crianças sobre a leitura, que vão desde histórias engraçadas, histórias de aventura, fantasia e outros. 

As crianças são facilmente adaptáveis ​​ao vínculo entre humor e criatividade, que auxiliam no desenvolvimento cognitivo. Conforme as crianças vão crescendo, ou seja, quando tornam-se mais maduras cognitivamente, elas podem apreciar diferentes formas de humor presentes nas histórias.

Leitura, humor e desenvolvimento cognitivo

O artigo afirma que a apreciação do humor está intimamente relacionada ao desenvolvimento cognitivo. Quando uma criança está envolvida na apreciação do humor, ela pretende terminar um exercício de resolução de problemas para identificar e desdobrar as incongruências ocultas abaixo dos estímulos de humor (Zigler, Levine, & Gould, 1967).

A literatura acadêmica confirma os benefícios e a importância do humor para a aprendizagem social na escola a nível cognitivo, afetivo e comportamental, uma vez que facilita o ambiente de aprendizagem lúdica, diminui a ansiedade de aprendizagem, estimula a motivação de aprendizagem dos alunos e aprofunda relação professor-aluno (Davies & Apter, 1980). 

Quando as crianças lêem textos humorísticos, elas se envolvem em um “jogo cognitivo”, “onde as palavras e conceitos são usados ​​de maneiras que são surpreendentes, incomuns e incongruentes, ativando esquemas com os quais não estão normalmente associados” (Martin, 2007, p. 109; Shultz & Robillard, 1980). 

Segundo Rod A. Martin, a leitura como atividade cognitiva pode ativar a emoção positiva de alegria (ou seja, prazer), levando ao aprimoramento da criatividade, memória e virtudes sociais que incluem senso de responsabilidade, ajuda e generosidade. 

As teorias do humor

John Morreall que é Doutor em Filosofia e Professor Emérito no College of William and Mary em Williamsburg, avaliou três teorias tradicionais do riso e do humor: a Teoria da Superioridade, a Teoria do Relevo e a Teoria da Incongruência. A partir dessas teorias, ele apresentou uma nova na qual afirma que o humor é um jogo cognitivo.

John vai explicar que nem sempre o riso é sobre pessoas e, portanto, não há necessidade de comparação de pessoas, como o que era afirmado na Teoria da Superioridade do humor. Ele conta que podemos ser divertidos por um comediante de palco tendo uma impressão perfeita de alguma estrela de cinema sem nos comparar com aquele comediante ou estrela de cinema. E mesmo que nos comparemos com pessoas de quem estamos rindo, não precisamos nos julgar superiores a elas. Eles podem nos fazer rir ao nos surpreender com habilidades que nos faltam, por exemplo. 

Durante dois mil anos a Teoria da Superioridade era a explicação mais aceita para explicar o humor. As teorias que surgiram posteriormente, já no século 18, foram a Teoria do Relevo e a Teoria da Incongruidade. Já a Teoria do Alívio, que surgiu também neste mesmo período, dizia que o riso funciona como uma válvula de escape em um tubo de vapor, liberando a energia nervosa acumulada.

Essa teoria, contudo, passou a ser questionada. O ato de falar e, nessa fala, existir elementos de humor, não parece exigir emoções, além de que algumas experiências de diversão também dependem apenas da surpresa. A Teoria da Incongruência foi uma das mais aceitas no século 20, já que afirmava que o humor é uma reação a algo que viola nossos padrões mentais e expectativas

As reflexões acerca das teorias do humor

Diante das teorias do humor apresentadas, o professor John Morreall elencou quatro percepções. Primeiro, o humor é um fenômeno cognitivo – envolve percepções, pensamentos, padrões mentais e expectativas. Em segundo lugar, o humor envolve uma mudança de estado cognitivo. Em terceiro lugar, essa mudança cognitiva é repentina. E em quarto lugar, a diversão é prazerosa

A esses insights ele adicionou outros: 

1) o humor é uma atividade não séria em que suspendemos a preocupação prática e a preocupação com o que é verdade. 

2) o humor é principalmente uma experiência social.

3) o humor é uma forma de jogo em cujo riso serve como um sinal de jogo. Cunhando o termo mudança para uma mudança repentina, podemos dizer que o humor envolve o prazer de mudanças cognitivas.

Juntando todas essas ideias, ele apresentou a seguinte teoria da diversão humorística:

A risada causa nas pessoas uma experiência de mudança cognitiva e que seu desligamento lúdico e seu prazer são expressos em risadas, que sinaliza para os outros que é possível relaxar e aproveitar a mudança cognitiva.

Como o humor afeta o cérebro

Brian David Boyd, professor da Universidade de Auckland da Nova Zelândia, em artigo publicado chamado “Riso e literatura: uma teoria lúdica do humor”, explica que o riso, embora muitas vezes desencadeado por palavras, é em si pré-verbal e não verbal

Segundo trecho do artigo, “risos e soluços são “as duas primeiras vocalizações sociais que as crianças fazem”. Ao contrário da fala, eles são muitas vezes involuntários, socialmente contagiantes e com valência emocional consistente. Eles não requerem uma boa articulação, mas apenas uma alternância da presença e ausência de sons vocais, sobrepostos a posturas bucais relativamente mais estáveis, e seu motor a atividade depende do mesencéfalo e dos circuitos do tronco encefálico, e não do centros superiores da fala”. 

O treinamento para o inesperado

Essa partilha confiante de expectativas que acontece na comunicação verbal é essencial para o jogo social. Isso também ocorre em jogos ou brincadeiras, para que haja espaço possível para o inesperado.

Expectativas compartilhadas em que permitem que surpresas nos peguem desprevenidos, que simulam riscos e estimulam a recuperação, são a chave não só para todos os tipos de jogos, mas também para humor. Nas piadas, muitas vezes somos preparados para a surpresa, mas apesar de buscar antecipar uma resolução inesperada, a piada ainda nos pega desprevenidos, mas de uma forma que permite tropeçar em nossas expectativas para ser seguido por uma rápida recuperação de equilíbrio.

O riso nos une

O artigo também fala que nosso próprio reconhecimento de que compartilhamos tais expectativas nas interações com os outros torna a nossa diversão socialmente vinculativa, da mesma forma que o jogo físico, através de sua dependência do comportamento daqueles que interagem. 

Se uma pretensa piada não nos pega de surpresa, não vamos achar engraçada. Por outro lado, lançar uma piada com preparação insuficiente do seu contexto também pode não causar riso no outro. 

Mas se nossa expectativa diante de uma narrativa de piada foi preparada, se sabemos que uma piada está chegando e nós ainda acharmos que a piada nos pega de surpresa, vai ser ainda mais engraçado: assemelha-se exatamente à relação entre a expectativa geral aguçada de jogo e os animais humanos – que especialmente gostam de brincar. 

Por fim, o professor Brian apresenta em seu artigo um questionamento feito pelo filósofo Daniel C. Dennett: o que homo sapiens ganha com o riso? Por que o riso e o humor teriam evoluído como comportamentos que importam tanto para nós?

E a resposta dele foi a seguinte: “O riso, ao sinalizar nosso prazer no jogo cognitivo, convida e nos encoraja a preparar surpresas divertidas uns para os outros. Jogando socialmente com nossas expectativas, ele reforça nosso senso de solidariedade, nosso reconhecimento do enorme conjunto de expectativas que compartilhamos; nos treina para lidar com e até mesmo buscar o inesperado que nos cerca e pode ampliar ainda mais as nossas expectativas. O riso pode também oferecer uma “advertência lúdica” para aqueles que divergem deles de maneiras que rejeitamos.”

Débora Nazário

NOTA DA EDITORA

Agora que já sabemos que a função do humor nas histórias e da preferência das crianças por contos engraçados, vamos de dicas de leitura!

O Truth and Tales, app que desenvolvemos, tem histórias cheias de humor e reviravoltas! As histórias são Teaching Stories, que você pode saber mais aqui. As Teaching Stories costumam usar bastante o humor para trabalhar o preparo ao inesperado, por exemplo. Além de dar um toque todo especial para a história. 

O conto A Criança e o Dragão do Truth and Tales traz vários personagens engraçados e diálogos cheios de humor, além de reviravoltas que o leitor não espera.

Baixe o app e experimente ler, ouvir e jogar nossas histórias!