As fábulas existem em culturas ao redor de todo o mundo e são usadas como instrumento de transmissão de sabedoria. As fábulas gregas são muito famosas, principalmente na cultura ocidental, e estão presentes desde a primeira infância de muitas pessoas. Elas estão em livros infantis, didáticos e paradidáticos, e são transmitidas oralmente em sala de aula e dentro de casa.

Origem das fábulas gregas

Não se sabe exatamente a origem das fábulas gregas, mas a história se refere a Esopo, um contador de histórias nascido supostamente no século VI A.C. ou VII a.C. na Ásia Menor e, posteriormente, levado para a Grécia como escravo. 

Um dos primeiros livros conhecidos impressos na gráfica de Gutenberg, em 1476, foram as fábulas de Esopo. Jean de La Fontaine, um francês que viveu no século XVII, foi um grande divulgador das fábulas de Esopo.

Segundo Teón de Alexandria, um professor de matemática e astronomia e estudioso de obras de autores clássicos que viveu no ano de 335 a 400 d.C, “A Fábula é uma história inventada ilustrativa da verdade”. 

O que são fábulas

As fábulas contam com o uso de personagens animais com características humanas. Segundo a InfoEscola, as fábulas “fazem uma analogia entre a realidade humana e a situação vivida pelos personagens com o objetivo de ensinar algo ou provar alguma verdade estabelecida”, como Teón de Alexandria pontuou. Muitos chamam essa verdade estabelecida de lição de moral. 

A contação de histórias é uma forma universal e antiga de entretenimento, e por isso a fábula tem o propósito de impactar e elucidar valores morais, éticos e sociais de uma forma agradável, gentil, efetiva e não ameaçadora. 

As fábulas gregas são usadas como uma ferramenta didática para mostrar as regras éticas, morais e sociais de uma população, para que as pessoas (geralmente crianças) as aprendam sem a necessidade de vivenciar alguma situação parecida.

Por serem bem antigas e propagadas oralmente ao longo da história, as fábulas gregas sofreram alterações e transformações ao longo do tempo. A “lição de moral” no final das fábulas, por exemplo, não existia e as pessoas ficavam livres para entender e refletir sobre a história. 

A lição de moral nas fábulas gregas

A lição de moral seja, talvez, a parte mais popular das fábulas. A lição de moral é um item que está em todos os artigos publicados sobre fábulas, em sites de pesquisa, em livros de informação, em como construir uma fábula, e por aí vai. Consigo até lembrar de algumas frases que vêm das lições de moral das fábulas: “devagar e sempre”; “todas as ações geram consequências”; “nenhuma gentileza é em vão”.

No livro “A Companion to the Works of Gotthold Ephraim Lessing”, o autor John Pizer traz alguns pontos importantes levantados por Lessing, um poeta, dramaturgo, filósofo e crítico de arte alemão que viveu no século XVIII. Segundo Lessing, os ensinamentos morais das fábulas têm de ser intuitivos. Para ele, descrever uma raposa como astuta, um cão como fiel ou um galo como orgulhoso, é parte de uma semiótica da alegoria, que é quando há uma necessidade de descrição narrativa aberta ao ligar os atributos morais de um animal ao seu caráter. 

Lessing diz que numa fábula simples, onde não há essa semiótica da alegoria, tais associações são diretamente intuídas, ou seja, não há necessidade em rotular o personagem porque o leitor irá perceber suas características. Segundo ele, a semiótica de alegoria bloquearia a cognição intuitiva de uma verdade moral ao não permitir que a imaginação do leitor fizesse seu próprio trabalho. Esse processo de cognição intuitiva está no cerne da famosa definição sumária de fábula de Lessing, que pressupõe a percepção do evento narrado como real, percepção que a descrição detalhada, dada sua qualidade “inanimada”, só pode confundir. 

Diante do posicionamento de Lessing, deixamos aqui o questionamento: será que não é mais rico deixar a criança pensar por ela mesma qual o ensinamento da história? Será que há só uma moral da história numa fábula? E se há mais coisas que não estamos enxergando por achar que a moral da história que nos foi ensinada é a certa?

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O efeito das fábulas na infância:

De acordo com Theda Detlor no livro “Aesop´s Fables – Reproducible Read-Aloud Tales With Instant Activities that Get Kids Discussing, Writing About & Acting on the Important Lessons in The Wise & Classic Stories”, as fábulas ajudam as crianças numa série de pontos:

  • Desenvolver o entendimento das metáforas: crianças são desafiadas a relacionar uma série de ações concretas a uma  determinada moral, conseguir abstrair de algo específico para algo mais geral, e a entender a linguagem figurativa. Isso promove o pensamento de alto nível à medida que as crianças desenvolvem suas habilidades para interpretar significados e metáforas, fazer interferências e julgamentos, e criar soluções alternativas.
  • Levar questões éticas para a vida real: crianças desenvolvem e aplicam pensamentos críticos sobre os eventos das histórias a uma variedade de questões éticas e as usam numa série de eventos do mundo real.
  • Construir uma comunidade na sala de aula: através de discussão e debate, as crianças aprendem a ouvir umas às outras e expressar suas opiniões sobre comportamentos éticos. Elas aprendem a extrair e expandir o significado de histórias e a discutir questões da vida real usando o raciocínio moral. Tais reflexões dão às crianças uma base ética na sala de aula, à medida que exploram temas e valores que irão criar uma comunidade solidária e ética.
  • Ajudar no processo de alfabetização: a estrutura concisa e a linguagem das fábulas têm um efeito incrível em pequenos leitores e escritores. Crianças aprendem a reconhecer a estrutura das narrativas previsíveis e seus padrões, e aplicar isso em suas próprias criações.
  • Construir o desenvolvimento ético e moral: usando o contexto compartilhado das histórias, as crianças sentem-se confortáveis para explorar o domínio moral, desenvolvendo o pensamento crítico sobre questões éticas e refletindo sobre seus próprios valores.

As Fábulas Gregas mais famosas:

A Cigarra e a Formiga:

Uma cigarra gostava de cantar e curtir a vida sem se preocupar com o futuro. Já a formiga trabalhava bastante para guardar alimento, principalmente durante o verão, para ter o que comer no inverno.

Enquanto a formiga trabalhava, a cigarra cantava, e falava para a formiga parar de trabalhar e cantar com ela. Até que o inverno chegou e a cigarra não tinha o que comer. E a formiga, que trabalhou o verão todo, estava preparada com os alimentos que havia guardado.

A Lebre e a Tartaruga:

A lebre e a tartaruga viviam numa floresta. A lebre sempre provocava a tartaruga por causa da sua lentidão e, certo dia, a tartaruga resolveu desafiar a lebre para uma corrida, que aceitou na certeza de que ganharia.

Dada a largada, as duas começaram a correr. A lebre foi bem mais rápida que a tartaruga, e resolveu parar para descansar antes da linha de chegada. Por causa disso, a tartaruga passou a lebre e ganhou a corrida.  

A Raposa e as Uvas:

Uma raposa estava com muita fome e, andando por um pomar, viu um cacho de uvas. A raposa viu que as uvas estavam maduras e perfeitas para serem comidas. Viu que estava sozinha e que o caminho estava livre, e decidiu colher os frutos. As uvas estavam no alto, mas a raposa não poupou esforços para tentar pegá-las, mesmo com as limitações. Tentou alcançar as uvas de diferentes formas.

Depois de várias tentativas frustradas, a raposa estava exausta e desapontada, além de faminta. Sendo assim, ela deu de ombros e, dando-se por vencida, deu meia volta e foi embora. Frustrada por conta das tentativas mal sucedidas, a raposa tentou consolar-se dizendo: “Na verdade, olhando com mais atenção, as uvas estavam estragadas e não maduras como elas aparentavam quando as vi pela primeira vez”.

O Leão e o Ratinho:

Numa floresta vivia um leão temido por todos os animais. Certo dia, ele dormia na sombra de uma árvore depois de caçar e já de barriga cheia. Foi quando o leão foi acordado um ratinho, que passeava por cima dele.

O leão acordou nervoso e prendeu o ratinho debaixo de sua pata. O ratinho também ficou apavorado e implorava para o leão não comê-lo. O ratinho pediu tanto que o leão o deixou ir embora.

Algum tempo depois, o leão estava andando na floresta quando, sem perceber, ficou preso na rede de caçadores. Ele rugia de raiva pois não conseguia se soltar. O ratinho, que estava ali perto, foi ver o que estava acontecendo e viu que o leão estava preso numa armadilha. Ele não perdeu tempo e roeu as cordas que prendiam o leão.

Nota da Editora

Sabendo que as fábulas são ferramentas para o desenvolvimento de várias funções na infância, também as trouxemos para o Truth and Tales, o nosso aplicativo de contos interativos para crianças. 

Leo, o Leão é um dos contos do Truth and Tales disponíveis nos formatos interativo e audiobook. Leo, o Leão, tem semelhanças com os contos de Rumi e com as fábulas de Esopo, com as indianas e com as afegãs. O conto interativo é uma adaptação para a tecnologia onde a criança pode rugir como um leão, fazer música com as flores e até se ver como um leão através da ferramenta de Realidade Aumentada. Também deixamos o conto sem moral da história porque acreditamos que, desta forma, a criança possa ficar livre para perceber os aprendizados e sabedorias do conto, que podem ser infinitos. 

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