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Os Contos Budistas de Jataka para Crianças

A tradição oral faz parte das culturas ao redor de todo o mundo. Era através de contos, lendas, fábulas e histórias que as informações eram disseminadas antigamente, e isso persiste até hoje. Entre os budistas, isso não é diferente. Hoje vamos falar de Jataka, os contos budistas originais da Índia que narram as vidas passadas de Buda Shakyamuni, que viveu entre 563 a.C a 483 a.C.

Contos Budistas de Jataka

Os contos de Jataka são uma coleção de 547 contos budistas de moralidade em que Buda conta algumas de suas vidas passadas e o caminho até a iluminação. O termo Jataka significa “narrativas de nascimentos” no idioma Pali. Apesar de ser parte do Pali Canon, o livro sagrado Budista, os contos são mais folclóricos que religiosos. Nas Jatakas, as histórias budistas, o Bodisatva (quem tem a determinação de iluminar-se, como um aluno antes de ser buda) normalmente nasce como um animal e supera situações de dificuldades ou resolve problemas de forma criativa e cômica. 

As histórias representam, de uma forma direta ou indireta, o incansável aperfeiçoamento do bodisatva ao longo de inúmeros nascimentos nos quais praticou as Dez Perfeições: generosidade, virtude, renúncia, determinação, energia, paciência, amor ou bondade, sabedoria, verdade e equanimidade. 

Cada Jataka representa um desses nascimentos de Buda em diferentes reinos da existência cíclica chamado Samsara e demonstra como funciona a lei de causa e efeito, também conhecido como carma.

Muito mais do que histórias de “era uma vez”, as Jatakas foram utilizadas por conta de seus ensinamentos morais e espirituais.

Por Dentro da Cultura Budista: Quem é Buda

Buda é um título dado no Budismo para pessoas que despertam plenamente para a verdadeira natureza dos fenômenos e divulgam tal descoberta aos demais. Esse despertar consiste no entendimento de que todos os fenômenos são impermanentes, insatisfeitos e impessoais, e a pessoa que é buda torna-se consciente dessas características da realidade vivendo de maneira plena, livre dos condicionamentos mentais. 

Buda também pode fazer referência a Sidarta Gautama, um príncipe de uma região do Nepal que abdicou do seu título para se dedicar à busca da erradicação das causas do sofrimento humano e de todos os seres. Nessa busca, Sidarta Gautama encontrou o caminho da iluminação e se tornou mestre e professor espiritual, fundando o budismo.

Três contos budistas de Jataka para Crianças:

O Elefante Branco do Rei

Era uma vez uma manada de 80 mil elefantes no coração do Himalaia. Seu líder era um majestoso elefante branco que era extremamente bondoso. Ele amava muito sua mãe, que já era velha e cega, e sempre cuidou muito bem dela.

Todos os dias o elefante branco penetrava fundo na floresta em busca das melhores frutas silvestres para oferecer à mãe. Ele costumava enviar frutas a ela através de seus mensageiros. Os mensageiros eram um bando de elefantes gananciosos, que comiam as frutas e nunca davam nada para a velha mãe do elefante branco. O elefante branco ficou completamente desapontado com seu rebanho.

Então, ele decidiu abandonar o rebanho e ir com sua mãe para o monte Candorana para morar em uma caverna ao lado de um belo lago que tinha lindos lótus rosados.

Aconteceu que um dia, um forasteiro de Banaras se perdeu na floresta e ficou absolutamente aterrorizado ao se encontrar sozinho na mata fechada. Ele estava chorando amargamente e desesperadamente procurando por alguma ajuda. O elefante branco teve pena do homem e prometeu ajudá-lo. Ele conhecia cada centímetro daquela densa floresta e mostrou para o forasteiro o caminho para a cidade de Banaras. O homem agradeceu ao elefante branco e voltou feliz para casa.

Depois de alguns dias, o forasteiro ouviu a notícia de que o elefante pessoal do rei Brahmadutta havia morrido e ele estava procurando por um novo elefante. O homem pensou que, se contasse ao rei sobre o majestoso elefante branco que tinha visto no monte Candorana, certamente receberia uma recompensa. Então, ele contou ao rei sobre o elefante branco, que decidiu ir em busca do animal no dia seguinte.

O forasteiro então levou o rei e seus homens ao local onde morava o elefante branco. Quando o elefante branco viu o forasteiro, percebeu que era ele quem havia conduzido os homens do rei até ele. Ele estava muito chateado com o egoísmo e a ingratidão do homem. O elefante decidiu não lutar porque isso levaria a um derramamento de sangue desnecessário. Assim, o elefante branco foi junto com o rei e seus homens para a cidade de Banaras.

Naquela noite, quando o elefante branco não voltou para casa, sua mãe ficou muito preocupada. Ela ouviu toda a comoção lá fora e imaginou que os homens do rei deviam ter levado seu filho. Ela apenas se deitou em sua caverna e chorou amargamente.

Enquanto isso, o elefante branco foi levado para a bela cidade de Banaras, onde recebeu uma grande recepção no galpão real dos elefantes. Os guardas prepararam um banquete para ele e decoraram o estábulo com flores perfumadas. Mas o elefante não tocou na comida e nem parecia impressionado com o lindo e confortável galpão. Ele apenas ficou lá com uma expressão triste no rosto.

O assunto foi relatado ao rei, que visitou o elefante branco para descobrir o que o afligia. Ao ser interrogado, o elefante branco contou ao rei sobre sua velha mãe cega. Ele expressou o desejo de voltar para ela, pois em sua ausência ela não seria capaz de se sustentar e morreria.

O rei compassivo foi tocado pela história do elefante e pediu-lhe que voltasse para sua velha mãe cega e cuidasse dela como vinha fazendo o tempo todo. O elefante feliz foi correndo para casa o mais rápido que pôde. Sua mãe reconheceu imediatamente o cheiro de seu filho e ficou muito feliz por tê-lo de volta. Ela abençoou o bondoso rei com paz, prosperidade e alegria até o fim de seus dias.

O elefante branco cuidou bem de sua mãe até o dia em que ela morreu. O rei costumava visitá-lo na floresta. Quando o elefante branco morreu, o rei ergueu uma estátua dele ao lado do lago e realizou um festival anual de elefantes em sua memória. 

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A Cabra Sábia e os Lobos

Era uma vez milhares de cabras que viviam numa caverna montanha acima. Um casal de lobos também viviam por perto, em outra caverna. Tanto a loba quanto o lobo adoravam o gosto de carne de cabra e caçaram as cabras da caverna vizinha uma a uma. Até que sobrou a última das cabras. A última cabra era muito esperta para o casal de lobos e sempre conseguia se livrar deles. 

Certo dia, o lobo disse para a loba: “Vamos pregar uma peça na cabra. Você vai pra caverna dela sozinha e diga que eu morri. Tente ganhá-la através do seu pesar fingindo tristeza e peça ajuda a cabra para enterrar o meu corpo. Tenho certeza de que a cabra irá se compadecer e irá vir aqui com você. Quando ela vier perto de mim, vou morder seu pescoço e matá-la, e nós dois iremos nos deliciar com sua carne.”

O lobo então se deitou e sua esposa foi até a caverna da cabra para encontrá-la e dizer tudo conforme o combinado. A sábia cabra ouviu a história da loba, mas manteve-se sentada dentro de sua caverna. De lá de dentro ela disse à loba: “Minha querida, você e seu falecido marido mataram todos os meus familiares e amigos. Eu não acho que estarei muito segura saindo daqui com você.”

“Não tenha medo, eu estou de luto pela morte do meu marido e, por causa disso, eu decidi não matar nem um animal por uma semana”, disse a loba. “E meu marido está morto agora. Que mal um lobo morto pode te fazer?”

A loba fez de tudo para convencer a cabra a acompanhá-la e conseguiu. A sábia cabra saiu de sua caverna para acompanhar a loba até a outra caverna, mas a cabra ainda não estava segura em relação às intenções da loba e pediu para que a predadora ficasse à sua frente.

O lobo, que fingia estar morto em frente à sua caverna há algum tempo, começou a ficar impaciente. Ele estava com fome e levantou um pouco sua cabeça para ver se a cabra estava vindo com sua esposa. A sábia cabra viu o lobo levantar a cabeça e correu de volta para sua caverna.

“Por que você levantou a cabeça? Nós quase estávamos com as garras nela”, a loba repreendeu seu marido. Ela disse: “Embora sua tolice tenha estragado nossos planos, vou tentar trazer a cabra para a nossa caverna mais uma vez.”

A loba retornou à caverna da sábia cabra e disse: “Minha amiga, sua presença é divina! No momento em que você chegou perto do meu marido, ele voltou à vida. Ele está se sentindo muito melhor. Sou muito grata por você. Vamos ser amigas e ter bons momentos juntas.”

A sábia cabra sabia que a loba estava tentando aplicar o golpe novamente. Então a cabra disse: “Minha amiga, estou feliz por ouvir a boa notícia. Nós temos que dividi-la com todos os animais que pudermos. Levarei alguns de meus amigos para a sua caverna, e então dividiremos bons momentos todos juntos”. 

A loba não fazia ideia de quem eram os amigos da cabra e perguntou: “Quem são seus amigos? Me diga seus nomes”. A cabra respondeu: “Levarei dois cães, o Old Gray e o Young Tan, e um grande buldogue chamado Four-Eyes. Eu pedirei para que levem seus pares”.

A loba ficou com medo dos cachorros e fugiu para sua caverna. Ela contou para seu marido sobre os amigos ferozes da cabra. Então, o casal de lobos saiu correndo e a sábia cabra nunca mais os viu.

Os Touros que Invejavam o Porco

Certa vez, um fazendeiro tinha em sua fazenda dois touros grandes e fortes chamados Vermelhão e Vermelhinho. Ele também tinha um porquinho que morava com os touros. Enquanto os touros trabalhavam bastante no campo, o porco não fazia nada. 

Um dia, o fazendeiro disse que sua filha iria casar e ordenou que seus homens engordassem o porco para a festa de casamento. A partir daquele dia, os homens que trabalhavam para o fazendeiro começaram a alimentar o porco com uma dieta rica e comidas fartas e gostosas.

Diante da situação, Vermelhinho disse a Vermelhão: “Irmão, veja só a sorte desse porco preguiçoso! Ele está comendo todas essas comidas deliciosas sem fazer nada. E nós, apesar de trabalharmos tanto, comemos apenas alguns capins.”

O Vermelhão respondeu: “Querido irmão, não inveje o porco, ele está comendo o alimento da morte. Ele está sendo engordado para a festa de casamento e logo será abatido pelo fazendeiro. É melhor comer grama seca e palha e viver muito do que ter um banquete rico e ser morto.”

Fontes:

Texto: Luisa Scherer

Como as Teaching Stories podem ser combinadas com a tecnologia?

Depois do nosso último post, imaginamos que você já saiba os benefícios das Teaching Stories. Mas onde podemos identificar os elementos das Teaching Stories nas histórias e contos?

Organizamos um material baseado no Truth and Tales, o nosso aplicativo, explicar melhor como as Teaching Stories se dão na prática.

Além dos benefícios das Teaching Stories, os livros têm outros destaques, como a opção de serem narrados ou sem som para a criança ler sozinha ou acompanhada dos pais. As histórias contarão com uma ferramenta de karaokê, onde as palavras lidas pelo narrador ficam amarelas, facilitando na leitura e auxiliando as crianças em alfabetização. Também serão interativos, dessa maneira, a criança não será uma mera espectadora: ela poderá participar da história e ter uma experiência mais imersiva.

Nesta cena da história que lançamos no aplicativo há alguns elementos das Teaching Stories:

Infográfico de teaching stories. Foto de menina com um buquê de flores ao lado de um dragão desenhado. Os itens Negociação e Empatia saem do dragão, e os itens Padrões de comportamento e Negociação saem da criança.
Benefícios das Teaching Stories

O que acontece na cena da Teaching Stories é o seguinte: a criança precisa de um elixir para resolver seus problemas. O elixir se encontra dentro na caverna do dragão. Antes de encontrar o dragão, a criança passou por uma vila onde os aldeões estavam bravos e com raiva do dragão porque ele soltava fogo e queimava tudo. A criança e o dragão conseguem resolver a questão de uma forma diferente do que costumamos encontrar em histórias infantis.

Elementos presentes no exemplo acima e nas Teaching Stories:

1) Negociação: Criança e Dragão precisam de coisas que desejam. A Criança chega na caverna do Dragão sabendo que ele tem o que ela precisa. Ele dialoga com ela e, conversando e cada um expondo seus motivos e pontos de vista, conseguem chegar a um acordo em que ambos saem felizes.

2) Padrões de comportamento: as personagens que compõem as Teaching Stories não têm um padrão comportamental, ou seja, não há heróis, mocinhos ou vilões. Neste caso, a criança, que é a personagem principal, quer enfrentar o dragão antes mesmo de conhecê-lo.

Nos contos mais “tradicionais”, personagens principais não demonstram sentimentos considerados negativos de forma explícita, como raiva e tristeza. Antes do Dragão aparecer em cena, ele era tido como o antagonista. Ao desenrolar do conto, a criança se surpreende com o comportamento do Dragão, e percebe que ele não é quem parecia ser.

3) Empatia: Quando a Criança e o Dragão dialogam sobre os motivos pelo qual ele sopra fogo, ela entende e percebe seu problema, e se coloca em seu lugar.

4) Percepção: A Criança chega na caverna do Dragão disposta a derrotá-lo e conseguir o que deseja. Tanto o Dragão quanto a Criança percebem que ambos têm problemas a ser resolvidos e que nenhum deles é bom o mau por conta disso, após se conversarem e conseguirem ver o lado de cada um.

Estes elementos são colocados nas Teaching Stories dentro de uma estrutura particular onde a criança absorve de forma fluida, já que o contexto em que estão inseridos é coerente.

O que são Teaching Stories?

Histórias e contos são elementos presentes na vida de crianças de quase todas as culturas do mundo. É por meio delas que sabedorias, valores e costumes permanecem vivos através das gerações, seja durante a infância ou ao longo da vida. Conheça as Teaching Stories!

Mas será que as histórias infantis tradicionais, que estão presentes em muitas culturas principalmente ocidentais, transmitem a mensagem com o mesmo objetivo de quando foram criadas? Será que elas contém os elementos necessários para que a mensagem e intenção iniciais permaneçam intactas ao longo dos anos?

Existem alguns contos orientais que foram criados com alguns elementos permitindo que a intenção real sobreviva e toque muitas pessoas através das gerações.

As Teaching Stories não trazem moral da história nem repetição de padrões já conhecidos e naturalizados pelas pessoas – característica esta que muitas histórias folclóricas repetem . Este tipo de história utiliza certas palavras e eventos que, organizadas de tal maneira, atuam no cérebro de forma diferente.

Como funciona?

Os modos surpreendentes com que os personagens das Teaching Stories conseguem solucionar um desafio incentivam o cérebro a ampliar e perceber novas possibilidades, atuando diretamente no desenvolvimento cognitivo.

Como as Teaching Stories não fazem parte dos padrões de associações comportamentais, as crianças conseguem desenvolver mais flexibilidade na hora de solucionar problemas e lidar com situações em que não estão acostumadas a viver. Se as crianças tiverem contato com as Teaching Stories, elas poderão se tornar adultos mais preparados para o inesperado e mais perceptíveis em relação à inteligência emocional e a si mesmas.

A eficácia das Teaching Stories no cérebro das pessoas está baseada em estudos. Um dos pesquisadores sobre o assunto foi o psicólogo e autor Robert Ornstein. Muitas destas histórias que Robert Ornstein pesquisou foram publicadas pelo também professor, autor e pesquisador inglês Idries Shah.

Você pode conferir as Teaching Stories publicadas por Idries Shah no site da Fundação Idries Shah. Além das histórias, há uma grande variedade de livros, aulas em áudio e textos sobre crianças, literatura infantil, psicologia infantil e psicologia em geral. Vale a pena conferir!

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