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A ciência comprova: brincar tem benefícios no aprendizado

Brincar faz bem para o corpo, para a alma e também para o cérebro. Neste artigo, trouxemos alguns pontos apoiados pela ciência que mostram que os benefícios de brincar estão em diferentes áreas, e que brincar tem efeitos positivos no cérebro e na habilidade de aprendizado da criança.

Evidências de que brincar promove soluções criativas de problemas

Psicólogos distinguem dois tipos de problemas: convergente e divergente. Um problema convergente tem uma única solução ou resposta. O problema divergente rende-se a várias soluções. Algumas pesquisas sugerem que a forma como as crianças brincam contribui para a capacidade de resolver problemas divergentes.

Em um experimento, pesquisadores apresentaram dois tipos de materiais lúdicos para crianças de idade pré-escolar (Pepler and Ross 1981). Algumas crianças receberam materiais para brincadeiras convergentes (peças de quebra-cabeças), e outras crianças receberam materiais para brincadeiras divergentes (blocos de montar). As crianças tiveram tempo para brincar e então testaram suas habilidades de resolver problemas.

Crianças que receberam brinquedos de materiais divergentes performaram melhor em problemas divergentes e mostraram mais criatividade nas tentativas para resolver os problemas.

Outro estudo experimental sugere uma conexão entre brincadeiras de faz-de-conta e capacidade divergente de solução de problemas (Wyver and Spence 1999). Crianças que brincavam de faz-de-conta mostraram uma maior capacidade de resolver problemas divergentes. O inverso também foi verdadeiro: crianças treinadas para resolver problemas divergentes mostraram taxas maiores nas brincadeiras de faz-de-conta.

Faz-de-conta, auto-regulação e raciocínio sobre diferentes possibilidades

Solucionar problemas divergentes não é a única habilidade cognitiva ligada com o faz-de-conta. Brincadeiras de faz-de-conta também são relacionadas com dois conjuntos de habilidades cruciais: a capacidade de se auto-regular (impulsos, emoções, atenção) e a de raciocinar de maneiras lógicas e contrafactuais (com noções de possibilidade e relação entre o antecedente e o consequente).

Nos primeiros casos, estudos reportaram que crianças que se engajam e brincam de faz-de-conta com mais frequência têm habilidades de auto-regulação mais fortes. Embora sejam necessárias mais pesquisas para determinar se a ligação é casual (Lillard et al 2013), os dados são consistentes com essa possibilidade.

Você não pode brincar de faz-de-conta com outra pessoa a menos que ambos queiram brincar disso. Portanto, quem brinca de faz-de-conta deve concordar com as regras que se estabelecem no momento da brincadeira, e a prática de concordar com essas regras pode ajudar crianças a desenvolverem um melhor auto-regulação ao longo do tempo.

No segundo caso, muitos pesquisadores notaram semelhanças entre o faz-de-conta e o raciocínio contrafactual, ou seja, a capacidade de pensar hipoteticamente e de imaginar o futuro.

Alison Gopnik e seus colegas argumentaram (Walker and Gopnik 2013; Buchsbaum et al 2012) que o raciocínio contrafactual nos ajuda a planejar e aprender, permitindo-nos pensar em vários “e se”.

O brincar de faz-de-conta toca nas mesmas habilidades. Brincar de faz-de-conta oferece às crianças oportunidades valiosas para melhorar seu raciocínio sobre diferentes possibilidades no mundo.

Para apoiar essa ideia, pesquisadores encontraram evidências de uma ligação entre o raciocínio contrafactual e a brincadeira de faz-de-conta em crianças de idade pré-escolar. A correlação permaneceu significativa mesmo após um teste de capacidade das crianças em suprimir seus impulsos. (Buchsbaum et al 2012).

Crianças prestam mais atenção às tarefas escolares quando têm oportunidades mais frequentes de brincar livremente

Muitos estudos experimentais mostram que crianças em idade escolar dão mais atenção às tarefas acadêmicas após um intervalo em que ficam livres para brincar sem a orientação de adultos (Pellegrini e Holmes 2006).

Também existem evidências circunstanciais: as escolas chinesas e japonesas, famosas pelo foco e disciplina, oferecem pequenos intervalos a cada 50 minutos aos estudantes. (Stevenson and Lee 1990)

Nota: aulas de educação física não são substitutos eficazes do tempo livre para brincar (Bjorkland and Pellegrini 2000). O exercício físico tem importantes benefícios cognitivos por si só, mas aulas de educação física não oferecem os mesmos benefícios que o recreio.

Pesquisadores suspeitam que isso ocorre porque aulas de educação física são muito estruturadas e dependem bastante das regras impostas pelos adultos. Para colher todos os benefícios das brincadeiras, o intervalo para brincar deve ser realmente divertido.

Quanto tempo um intervalo deve ter? Ninguém sabe ao certo, mas existem algumas evidências de recessos entre 10 e 30 minutos. Em estudos com crianças pequenas de 4 e 5 anos, pesquisadores descobriram que intervalos de 10 a 20 minutos aumentavam a atenção em sala de aula. Intervalos com mais de 30 minutos tinham o efeito contrário(Pelligrini and Holmes 2006).

Brincar e explorar desencadeiam a secreção do BDNF, substância essencial para o crescimento das células cerebrais.

De novo: ninguém descobriu uma maneira ética para testar isso em seres humanos, por isso as evidências vêm de ratos. Depois de brincar, ratos mostraram um aumento nos níveis de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) (Gordon et al 2003).

O BDNF é essencial para o crescimento e manutenção das células do cérebro. Os níveis de BDNF também aumentaram depois que os ratos puderam explorar o ambiente em que estavam(Huber et al 2007).

Linguagem e os benefícios de brincar

Estudos revelam que há uma ligação entre brincadeira de faz-de-conta e o desenvolvimento das habilidades linguísticas (Fisher 1999). O psicólogo Edward Fisher analisou 46 estudos sobre os benefícios cognitivos do brincar.

Ele descobriu que “brincadeiras sociodramáticas”, que são quando crianças brincam de faz-de-conta juntas, “resultam em melhores performances nos domínios cognitivo-linguístico e afetivo social”.

Um estudo com crianças de 1 a 6 anos na Inglaterra mediu a capacidade das crianças com brincadeiras de faz-de-conta. Foi pedido às crianças que realizassem tarefas simbólicas, como substituir um ursinho de pelúcia por um objeto ausente.

Pesquisadores descobriram que crianças obtiveram maior pontuação no teste de brincadeiras simbólicas tinham melhores habilidades de linguagem, tanto na receptiva (o que a criança entende) quanto na linguagem expressiva (as palavras que ela usa). Esses resultados permaneceram significativos mesmo após as crianças crescerem.

Pesquisas recentes também sugerem que brincar com brinquedos de montar contribui para o desenvolvimento da linguagem. Para mais informações, leia este artigo sobre construção de brinquedos e os benefícios de brincar.

Habilidades matemáticas e os benefícios de brincar

Aqui está uma intrigante história sobre brincar e matemática: um estudo mediu a complexidade de crianças de 4 anos que brincam com blocos e acompanhou suas performances escolares até o ensino médio (Wolfgang, Stannard, & Jones, 2001).

Pesquisadores descobriram que a complexidade da brincadeira de montar blocos previa as conquistas em matemática das crianças no ensino médio. Aquelas que usaram os blocos de maneiras mais sofisticadas nas brincadeiras na pré-escola obtiveram melhores notas em matemática e fizeram mais cursos de matemática quando adolescentes.

Esses resultados podem apenas nos dizer que crianças inteligentes na pré-escola continuam inteligentes ao longo da vida escolar, mas não é tão simples.

A associação entre as brincadeiras de blocos e a performance em matemática permaneceu mesmo depois que os pesquisadores mediram e acompanharam o QI de uma criança. Portanto, é plausível que as brincadeiras com blocos influenciam o desenvolvimento cognitivo das crianças.

Experimentos com animais: Brincar melhora a memória e estimula o crescimento do córtex cerebral

Em 1964, Marion Diamond e seus colegas publicaram um artigo interessante sobre crescimento cerebral em ratos. Os neurocientistas conduziram um experimento criando alguns ratos em confinamento solitário e sem estímulos, e outros em colônias divertidas e cheias de brinquedos.

Quando os pesquisadores examinaram o cérebro dos ratos, descobriram que os ratos que viviam em colônias tinham córtices cerebrais mais espessos do que os ratos que viviam em confinamento.(Diamond et al 1964).

Pesquisas subsequentes confirmaram os resultados de que ratos criados em ambientes com estímulos tinham cérebros maiores. E eles também eram mais inteligentes, ou seja, mais capazes de achar a saída em labirintos mais rapidamente (Greenough and Black 1992).

Estes benefícios de brincar se estendem aos humanos? Considerações éticas nos impedem de realizar experiências semelhantes em crianças. Mas parece que o cérebro humano responda ao brincar e à exploração de maneiras semelhantes.

Experiências lúdicas são experiências de aprendizado

Para que ninguém duvide que as crianças aprendem brincando, devemos ter em mente os seguintes pontos:

1) A maioria das brincadeiras envolve exploração, que é, por definição, investigar.

É fácil perceber como isso se aplica a um cientista iniciante que brinca com ímãs, mas também se aplica a atividades “não intelectuais”, como filhotes brincando de “lutinha”.

Os animais testam laços e aprendem a controlar seus impulsos para que uma luta amigável não se transforme em agressão anti-social. Brincar é aprender.

2) Brincar é motivador e divertido

Tudo o que é aprendido brincando é conhecimento adquirido sem a percepção do trabalho duro, de “sem dor não há ganho”. Isso contrasta com as atividades que desempenhamos como deveres.

Quando a atividade é considerada árdua, nossa habilidade de permanecer focado pode parecer um recurso limitado ao longo do tempo (Inzlicht et al 2014).

É difícil de alcançar um fluxo, a experiência psicológica de estar feliz e completamente imerso no que se está fazendo. Brincar é uma alternativa para conseguir esse fluxo.

3) Há evidências empíricas de que crianças tratam as brincadeiras como um tutorial para lidar com os desafios da vida real

Por todo o mundo crianças se envolvem em brincadeiras de faz-de-conta que simulam atividades que precisam dominar quando adultas (Lancy 2008), sugerindo que essas brincadeiras são uma forma de prática. Quando as crianças são munidas com informações durante o faz-de-conta — seja de amigos ou de adultos — elas as aceitam.

Experiências nos Estados Unidos com crianças em idade pré-escolar sugerem que crianças de até 3 anos de idade fazem distinções entre realidade e a fantasia do faz-de-conta, e usam as informações aprendidas no mundo real (Sutherland and Friedman 2012; 2013).

Fonte: https://www.parentingscience.com/benefits-of-play.html?fbclid=IwAR3XPLfFzrKCmRzI_vfAtz1feleXx6pBW9D7-UXCZpqIFuODF_uZ_5gGWpI

A habilidade que os pais devem ensinar às crianças na era da tecnologia

Traduzimos um artigo escrito por Nir Eyal para o portal make it, da CNBC. Nir Eyal escreve, ensina e dá consultorias sobre a intersecção entre psicologia, tecnologia e negócios. Já deu cursos em Stanford Graduate School of Business e já escreveu para revistas renomadas como Harvard Business Review, Atlantic, TechCrunch e Psychology Today. O artigo fala sobre como os pais lidam com as crianças e os limites de tempo de telas. Confira o artigo traduzido:

Como pais, tudo o que queremos é criar pessoas espertas e focadas, especialmente num mundo onde a distração digital é quase inevitável. Até os titãs da tecnologia como Steve Jobs e Bill Gates usavam estratégias para limitar o tempo de tela de seus filhos.

Por que? Porque, no futuro, terão dois tipos de pessoas: aquelas que deixam que sua atenção e suas vidas sejam controladas e coagidas por outros; e aquelas que se dizem “indistraídos”, “não-distraídos” com orgulho.

Tornar-se um “não-distraído” é a habilidade mais importante do século XXI — e é a habilidade que muitos pais falham em ensinar seus filhos. Depois de muitos anos estudando a intersecção da psicologia, tecnologia, e como nós nos engajamos com isso, um dos maiores erros que eu vejo os pais cometerem é não encorajar seus filhos a terem autonomia e controle do seu próprio tempo.

Permitir que façam isso é um grande presente; ainda que tropecem vez ou outra, falhar e errar faz parte do processo de aprendizado. Pais e mães precisam entender que está tudo bem em colocar as crianças no comando, porque é assim que elas aprendem monitorar dos seus comportamentos e aprender a como manejar seu próprio tempo e atenção.

Ensine as crianças ainda novas

Quando minha filha tinha 5 anos e já insistia no “tempo do iPad” com protestos implacáveis, eu e minha esposa sabíamos como poderíamos lidar com a situação. Depois que nos acalmamos, fizemos o melhor para que respeitássemos suas necessidades. Nós explicamos da forma mais simples que conseguimos que ficar muito tempo nas telas vem às custas de outras coisas.

Como minha filha estava aprendendo a ver as horas no jardim de infância, pudemos explicar que ela estava ficando muito tempo nas telas em relação às outras coisas que gostava de fazer. Gastar muito tempo com apps e vídeos significa menos tempo para brincar com os amigos no parque, nadar na piscina ou estar com a mamãe e o papai.

A dúvida e desconfiança do consumidor é saudável

Também explicamos que a maioria dos apps e vídeos no iPad foram criados por pessoas muito espertas, e que fizeram com a intenção de manter as pessoas envolvidas e com o hábito de assistir e usar seus apps e vídeos cada vez mais.

Entender que a maioria das empresas é motivada a manter as crianças gastando seu tempo nas telas ao invés de brincar é uma parte importante do ensino da alfabetização tecnológica.

É importante que as crianças entendam a motivação das empresas de games e redes sociais: enquanto esses produtos vendem diversão e conexão, eles também lucram com nosso tempo e atenção.

Isso pode parecer muita coisa para uma criança de 5 anos, mas sentimos uma forte necessidade de nutrir nossa filha de informação para que ela mesma tenha a habilidade de tomar decisões sobre como vai usar as telas e aplicar suas próprias regras.

Crianças precisam de uma quantidade suficiente de autonomia

Nós perguntamos quanto tempo de tela ela achava que seria bom para ela. Nos arriscamos dando autonomia para tomar essa decisão por ela mesma, mas valeu a pena.

A resposta que eu estava esperando era “O dia inteiro!”, mas não foi o que aconteceu. Armada com as informações da lógica por trás do porquê limitar o tempo de tela é importante, e com a liberdade de tomar decisões em suas mãos, ela timidamente pediu por “dois programas”. Ou seja: dois episódios de um programa da Netflix de 45 minutos apropriado para o público infantil, eu expliquei.

Eu perguntei a ela de forma sincera: “45 minutos por dia parece ser a quantidade certa de tempo de tela para você?”. Ela acenou que sim com a cabeça e, pelo sorriso tímido, posso dizer que ela achou que conseguiu o melhor acordo. Até onde eu sei, 45 minutos estava ótimo pois sobrou bastante tempo para outras atividades.

“Como você planeja saber que não vai passar mais de 45 minutos por dia assistindo aos programas?”, eu perguntei, não querendo perder a negociação que ela claramente sentia que estava ganhando. Ela propôs usar o timer da cozinha, assim ela mesma poderia ligar.

“Parece bom! Mas se a mamãe ou o papai notarem que você não está conseguindo cumprir com o acordo que fez com a gente, vamos ter que conversar de novo sobre isso”, eu disse e ela concordou.

Previna distrações com “pactos de esforço”

Hoje, aos 10 anos de idade, minha filha continua no comando de como gastar seu tempo de tela. Ela fez alguns ajustes nas diretrizes impostas por ela mesma ao longo que crescia, como negociar o tempo de tela nos dias de aula para uma sessão de cinema nos finais de semana. Ela também trocou o timer da cozinha por outros instrumentos: agora ela pede para a Alexa, da Amazon, avisá-la quando atingir seu limite de tempo.

O importante é que são as regras dela, não nossas, e que ela está no comando para reforçá-las. O melhor de tudo é que, quando termina o tempo, não é o pai dela que tem que ser o cara chato: é o aparelho dela que avisa que o limite, que ela mesma propôs, terminou.

Sem se dar conta, ela estabeleceu um “pacto de esforço”, um tipo de compromisso que envolve aumentar o esforço necessário para executar uma ação indesejável.

Não subestime a habilidade de uma criança de seguir adiante
Esse tipo de compromisso ajuda a tornarmos “não-distraíveis”. Muitos pais perguntam se tem um limite correto de tempo que crianças possam passar em frente às telas, mas não existe um número absoluto.

(Nota do editor: apesar de não existir um número absoluto, há indicações de médicos e especialistas.) Há muitos fatores em jogo, incluindo necessidades específicas da criança, o que a criança está fazendo na internet, e as atividades que o tempo de tela substitui.

Discussões e desentendimentos respeitosos são saudáveis

O mais importante é envolver a criança na conversa e ajudá-la a fazer suas próprias regras. Quando pais impõem limites sem a participação dos filhos, eles abrem brechas para ressentimentos, o que termina numa possibilidade bem grande de burlar o sistema.

Essas estratégias não são garantia de que a harmonia entre pais, filhos e tecnologia vai prevalecer. Devemos esperar discussões sobre o papel da tecnologia nas nossas vidas e na vida dos nossos filhos, assim como é normal ter conversas acaloradas sobre deixar o filhos adolescentes usarem o carro no sábado à noite, por exemplo. Discussões, desacordos e debates são sempre saudáveis, se acontecer de forma respeitosa.

Se há uma lição para tirar de tudo isso, é que distração é um problema como qualquer outro. Seja numa empresa grande ou numa família pequena, quando discutimos nossos problemas abertamente e num ambiente onde nos sentimos seguros e amparados, podemos resolvê-los juntos.

Uma coisa é certa: tecnologia está se tornando mais penetrante e persuasiva. Ao mesmo tempo que precisamos alertar as crianças de como esses produtos são desenvolvidos para serem envolventes e necessitar de engajamento, também precisamos reforçar a confiança no seu próprio poder para superar a distração. É responsabilidade das crianças — e também direito delas — usar o tempo com sabedoria.