Jogos, criar novas brincadeiras ou brincar daquelas que já são conhecidas pelas crianças são atividades que não ficam restritas apenas a momentos de lazer. 

Professores, pesquisadores e pedagogos utilizam jogos em sala de aula cada vez mais, já que essa é uma alternativa que oferece inúmeros benefícios no processo de ensino e aprendizagem. 

As habilidades, necessidades e características específicas de cada criança são trabalhadas de maneira leve e prazerosa através de jogos e brincadeiras. Essa aproximação que os jogos possibilitam deixam o ambiente agradável e cheio de surpresas, tanto para as crianças quanto para os adultos, em casa ou na escola. 

Um artigo científico publicado em 2016 pela Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association) reforça os benefícios que os jogos de tabuleiro podem trazer para o aprendizado das crianças. 

Nele são apresentadas informações que explicam como as crianças podem ser mais inflexíveis quanto às regras convencionais de algum jogo ou brincadeira, mas que conseguem ficar sentadas por horas jogando justamente por essa atividade ser prazerosa e divertida. Quanto às brincadeiras ou jogos com regras que elas mesmas inventaram, as crianças apresentam maior flexibilidade na hora de segui-las.

O resultado disso é um aumento dos níveis de concentração e motivação. O artigo é complexo e reúne uma série de dados que comprovam o aprendizado e habilidades por meio de jogos de tabuleiro.

O que Harvard diz

A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, é uma das mais bem conceituadas instituições de ensino no mundo. Em Harvard há o Centro de Desenvolvimento Infantil onde se realizam estudos com e sobre crianças, com inúmeras parcerias de outras instituições nos Estados Unidos e ao redor de todo o mundo.

Um dos materiais disponibilizados no site do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard explica que a ciência do desenvolvimento infantil aponta três princípios básicos que podem orientar o que a sociedade precisa fazer para ajudar as crianças e suas famílias a prosperar. Esses são apoiar relacionamentos responsivos; fortalecimento de habilidades essenciais para a vida; e redução das fontes de estresse. Brincar na primeira infância é uma forma eficaz de apoiar esses três princípios.

Laura Huerta Migus, Diretora Executiva da Associação de Museus das Crianças, relata que quando brincamos, podemos atingir o máximo da nossa felicidade, mas também podemos suportar grandes dificuldades. Quando brincamos, temos interações complexas com outras pessoas ao mesmo tempo que construímos nossos cérebros. Quando brincamos, as interações sociais se tornam relacionamentos. Precisamos brincar para conectar esses três princípios básicos. 

Lynneth Solis, Pesquisadora no Project Zero no Harvard Graduate School of Education afirma que “…como criança, brincar me prepara melhor a responder frente ao desconhecido e às incertezas no ambiente em que eu vivo.” 

Brincar e jogar fortalece habilidades essenciais para a vida. É possível observar essas habilidades em alguns momentos num jogo ou brincadeira: 

  1. As crianças precisam pensar e decidir como vão interagir no jogo ou na brincadeira. Ou seja, elas precisam pensar no que vão falar, como vão falar ou em como se colocar.
  2. É necessário usar habilidades de planejamento e de resolução de problemas para completar o jogo ou a brincadeira. Aí entram estratégias, jogadas ou até mesmo a forma em como vão construir uma torre de legos. 
  3. É necessário seguir as regras quando se está num jogo, mas também é necessário ter flexibilidade quando o amigo quer mudar essas regras. Ou seja, habilidades de negociação num grupo social diferente – que não é a família – também é desenvolvida nesse momento. 

Lynneth Solis explica que brincar reduz os níveis de estresse e desenvolve as habilidades essenciais da vida que permitem que a criança avalie uma situação e saiba como mudá-la, de modo que não sinta-se atacada ou estressada. Também sabemos que desenvolve habilidades de enfrentamento, além de também reduzir o stress dos pais ou cuidadores. 

:: Leia também: A ciência comprova: brincar tem benefícios no aprendizado ::

A possibilidade de encontrar novas alternativas nos jogos e brincadeiras:

O raciocínio utilizado em diversos jogos estimula a busca por alternativas em situações cotidianas. Refletir sobre as possibilidades diante de uma situação e entender o que pode ou não pode, faz com que a criança vivencie de uma maneira significativa os contextos do seu dia-a-dia. 

O momento de um jogo é também uma possibilidade de experimentação, de cenários imaginários repletos de perspectivas diferentes. Para olhar essas perspectivas e todos os ângulos que elas direcionam, é necessário foco e também concentração, que refletem em outros momentos da rotina onde as crianças passam por situações parecidas. 

O xadrez para crianças:

O xadrez é um jogo que reúne diversos dos benefícios que citamos acima. Além de reforçar a importância  da concentração e a atenção, o xadrez também ensina o respeito pelo outro, a confiança em si mesmo e também a criatividade, através dos movimentos e lances possíveis. 

Em dezembro de 1986 a FIDE (Federação Internacional de Xadrez) e a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) criaram a “Comission For Chess In Schools”, que tem como objetivo a difusão e democratização do xadrez como instrumento pedagógico dentro das escolas. 

A criação dessa comissão popularizou ainda mais o xadrez dentro nos ambientes escolares mundo afora. Além disso, a sua criação reforça os benefícios que esse jogo proporciona, já citados anteriormente. 

Aprender com os erros:

Antes de realizar algum movimento no jogo de xadrez, os jogadores devem pensar também em como será a reação do seu adversário. As jogadas são feitas mentalmente e ambos os jogadores poderão prever o que vai acontecer. É claro que existirão jogadas inesperadas e por isso mesmo aqueles que jogam o xadrez vão ​aprender um pouco mais a cada partida​, aprenderão com os seus próprios erros e acertos, além de aprender muito com o parceiro de jogo.

Pensar antes de agir:

Agir de maneira compulsiva e não pensar muito antes de cada jogada pode trazer consequências negativas ao jogador e é por esse motivo que o xadrez estimula de maneira profunda o “pensar antes de agir”.

O xadrez também auxilia na autonomia da criança na sua tomada de decisões, sem a interferência dos adultos. Para as jogadas a criança terá de buscar na sua própria memória os lances possíveis, sem contar com a ajuda de outros. 

:: Pode ser interessante: Meus filhos estão viciados em celular. E agora? ::

Quebra-cabeças: 

Outro jogo que oferece muitos benefícios para as crianças é o clássico quebra-cabeças. A prática que o jogo propõe é muito positiva para a memória de curto prazo, bem como a velocidade do pensamento, que terá de ser ágil e assertivo para encontrar as peças faltantes.

Resolução de problemas: 

Assim como no xadrez, o quebra-cabeças consiste na resolução de um problema e para isso é preciso muita concentração. A tentativa e erro ao colocar as peças nos lugares impulsiona o raciocínio lógico.  A percepção visual e a noção do espaço também estão presentes no jogo. As figuras, números e palavras formadas no quebra-cabeças vão enriquecer o vocabulário e o conhecimento das crianças.  

Melhoria da coordenação motora: 

O ato de montar o quebra-cabeças faz com que as crianças aprendam a controlar os movimentos, que são aqueles necessários para encaixar as peças. A visão também é uma aliada no jogo e junto dela a atenção aos detalhes

Os jogos além de proporcionarem todos esses benefícios também podem aproximar as crianças dos pais, irmãos, professores ou cuidadores. 

Cada erro e acerto são vividos de forma conjunta, o que é extremamente importante para a socialização. Esses jogos clássicos também são uma ótima alternativa para algumas horas longe das telas. 

As crianças se comunicam através de brincadeiras, e nelas se expressam de forma livre enquanto se divertem. O xadrez e o quebra-cabeças podem ser aliados nessa comunicação. Que tal jogar com as crianças hoje?

Texto por Débora Nazário