A música desperta sensações distintas em cada um de nós. Algumas nos fazem reviver memórias e podem nos levar de volta à infância, enquanto outras nos deixam animados independente da situação. Algumas vezes também sentimos saudades ao ouvir uma música ou uma banda específica e até lembramos de algumas pessoas que não estão mais no nosso convívio. Diante dessas sensações que todos nós conhecemos, você alguma vez já se perguntou como o ato de ouvir uma música é processado pelo nosso cérebro? 

Daniel Levitin, que é psicólogo, neurocientista, músico, produtor musical e autor da obra A música no seu cérebro explicou em entrevista para o Portal G1 da Globo:

“… Cada vez que nós ouvimos um padrão musical que é novo para os nossos ouvidos, nosso cérebro tenta fazer uma associação através de qualquer sinal visual, auditivo ou sensorial. Nós tentamos contextualizar os novos sons e, eventualmente, criamos esses links de memória entre um conjunto particular de notas e um determinado local, hora ou conjunto de eventos”. Isso explica o fato de associarmos músicas a momentos e pessoas. Daniel afirma também que a música tem uma relação direta com o nosso cérebro e estimula a produção das chamadas substâncias da felicidade, como serotonina, endorfina, dopamina, ocitocina e prolactina.

Como o cérebro humano reage ao ouvir uma música

Carolina Octaviano é mestre em cognição e filosofia da música pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em seu artigo ela explica como a música é recebida pelo nosso cérebro.

“Após o som ser transmitido por moléculas através do ar, ele chega ao tímpano, que se agita para dentro ou para fora, conforme a amplitude e volume do som que recebe, e também da altura desse som, isto é, se ele é grave ou agudo. Entretanto, nesse estágio, o cérebro recebe apenas uma informação incompleta, sem distinção do que o barulho realmente representa – se ele é de vozes, do vento, de máquinas etc. O resultado final, decodificado pelo cérebro, representa uma imagem mental do mundo físico, que é gerado a partir de uma longa cadeia de eventos mentais”, escreve.

Carolina explica que o primeiro processo dessa cadeia é a “extração de características”, quando o cérebro apenas percebe as características básicas da música por meio das redes neurais especializadas. “Nessa fase, o som é decomposto em elementos básicos como altura, timbre, localização no espaço, intensidade, entre outros. Isso ocorre nas partes periféricas do cérebro. O segundo passo ocorre nas partes superiores cerebrais, quando é preciso integrar essas informações básicas adquiridas, de forma a obter uma percepção completa”.

Quase todas as regiões do cérebro são envolvidas ao ouvir uma música

Carolina afirma que a atividade musical envolve quase todas as regiões do cérebro e os subsistemas neurais. “Quando uma música emociona, são ativadas estruturas que estão nas regiões instintivas do verme cerebelar (estrutura do cerebelo que modula a produção e liberação pelo tronco cerebral dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina) e da amídala (principal área do processamento emocional no córtex). Já na leitura musical, o córtex visual é a área utilizada. O ato de acompanhar uma música é capaz de ativar o hipocampo (responsável pelas memórias) e o córtex frontal inferior. Para a execução de músicas, são acionados os lobos frontais – o córtex motor e sensorial”.

Benefícios da música para o nosso cérebro 

Em entrevista para o jornal O Globo, o psicólogo Daniel Levitin conta que estudos recentes reforçam a noção de que ouvir música “melhora a saúde física e cerebral, aumenta a função do sistema imunológico, promove o vínculo social mesmo na ausência de outras pessoas próximas e melhora o bem-estar geral”.

“Na verdade, usamos a música para regular nosso humor ao longo do dia, mesmo que não o façamos intencionalmente. Escolhemos músicas diferentes para um treino e para um jantar, ou para relaxar antes de dormir. A neuroquímica desses sentimentos e humores foi atribuída à capacidade da música de modular os níveis de dopamina, endorfinas e opioides no cérebro. O techno, por exemplo, tende a aumentar os hormônios do estresse (cortisol, ACTH, prolactina, hormônio do crescimento e norepinefrina), enquanto a música meditativa os reduz bastante. Já ouvir música de que gostamos pode afetar os hormônios do bem-estar”, explica. 

A relação entre a música e o desenvolvimento neurológico

O médico e pesquisador Mauro Muszkat escreveu um artigo onde mostra que a música pode atuar como um fator de melhora em doenças como depressão ou Alzheimer. Através dessa afirmação, ele instiga arte-educadores, músicos e educadores a um exercício de observação da criança e, junto dela, participar de um “processo de construção de linguagem, de maneira a encontrar respostas para as dificuldades e para a inclusão dessa criança, seja pedagógica ou social”. 

“A música não pode ser entendida sem levarmos em conta a subjetividade, o envolvimento lúdico e a transitividade que caracterizam a arte. A música, em qualquer uma de suas dimensões, enquanto estética, terapia ou ritual, envolve as funções cerebrais perceptivo-motoras e executivas. Sentir e processar música implica a análise de sinais físicos e acústicos das vibrações de moléculas do ar (sons) e decodificação em um sistema subjetivo e cultural complexo. Assim, sinais físicos transformam-se em estados emocionais que refletem expectativas, tensão, repouso e movimento, bem como causam flutuações de nossos ritmos fisiológicos endógenos, como batimento cardíaco, frequência respiratória e ritmos elétricos cerebrais”, explica. 

“Ouvir músicas também afeta o funcionamento do nosso cérebro. As alterações fisiológicas com a exposição à música são múltiplas e vão desde a modulação neurovegetativa dos padrões de variabilidade dos ritmos endógenos da frequência cardíaca, dos ritmos respiratórios, dos ritmos elétricos cerebrais, dos ciclos circadianos de sono-vigília, até a produção de vários neurotransmissores ligados à recompensa e ao prazer e ao sistema de neuromodulação da dor. Ela intensifica também as capacidades linguísticas”, escreve. 

“Já em pessoas com declínio cognitivo, a música pode facilitar a ativação de redes neurais altamente plásticas, e envolvidas com memórias autobiográficas episódicas em indivíduos com disfunções cerebrais. Assim, o benefício da música já é amplamente reconhecido por vários grupos internacionais, dada a capacidade dela de evocar emoções e trazer memórias ocultas”. 

Mauro explica também que não são só as crianças que se beneficiam com a música; os adolescentes também, atuando como fator de auxílio ao jovem na difícil fase de transição, em que ele se depara “com mudanças não apenas hormonais, mas neurobiológicas e mudanças na impulsividade, agilidade motora e períodos de humor oscilante e de tédio”. 

Texto: Débora Nazário

NOTA DA EDITORA

Segundo um artigo sobre neurodesenvolvimento e educação musical, o cérebro humano passa por quatro fases principais de desenvolvimento estrutural. 

A primeira acontece durante  o desenvolvimento fetal, durante a gestação, e ocorre basicamente a formação de bilhões de células para formar a estrutura do cérebro. 

A segunda fase é logo após o nascimento e nos primeiros anos de vida com o surgimento das conexões entre as células, que formam os “mapas mentais” do cérebro, responsáveis pela visão, linguagem, audição etc. 

A terceira fase acontece entre 4 e 10 anos de idade, onde novos aprendizados reorganizam e reforçam as conexões entre as células do cérebro humano. E a última fase acontece após os 10 anos de idade, quando o cérebro ainda é capaz de sofrer mudanças físicas e aprende e memoriza informações do decorrer de toda a vida. 

Ou seja: metade das etapas da formação do cérebro é durante a infância, e é nessa fase que apresenta as melhores “condições” de aprendizado. 

Janelas de oportunidades

Outro conceito comum na neurociência são as “janelas de oportunidades”, que são os períodos em que as crianças parecem ter mais facilidade para desenvolver cada tipo de inteligência, tornando os estímulos e desenvolvimentos mais eficientes. Vale lembrar que essas janelas não são fixas e definitivas, são apenas estimativas. 

Levando em consideração as janelas de oportunidades, podemos citar aqui alguns tipos de inteligência que são desenvolvidos com mais facilidade na infância e como estimular essas inteligências. 

  • Inteligência Linguística ou Verbal: é desenvolvida do nascimento até os 10 anos de idade, onde é desenvolvida conexões que transformam sons em palavras com sentido. Jogos vocais, conversas, estórias, lendas, rimas, parlendas e histórias musicadas podem estimular a inteligência linguística ou verbal. 
  • Inteligência Musical: desenvolvida do nascimento aos 10 anos de idade. A partir dos 3 anos, as áreas do cérebro que dominam a coordenação motora são muito sensíveis e já permitem a execução musical. Pode ser estimulada através do canto, audição, movimento, dança, jogos musicais, identificação de sons, e outras atividades que desenvolvam o ouvido interno.
  • Inteligência Sinestésica Corporal: desenvolvida do nascimento aos 6 anos. O cérebro desenvolve a capacidade de associação entre a visualização e o ato de agarrar um objeto, por exemplo. Desenvolvida através de brincadeiras que estimulam o tato, paladar e o olfato, mímica, interpretação de movimentos, jogos e atividades motoras diversas, com ou sem objetos. 
  • Inteligência Lógico-Matemática: do nascimento aos 10 anos de idade. A cognição é desenvolvida através das ações da criança com os objetos do mundo, e suas expectativas em relação aos mesmos. Pode ser desenvolvida através de desenhos, representações, jogos, atividades musicais, resolução de problemas simples em diversas áreas e que estimulem o raciocínio lógico. 

A música e o Truth and Tales

O Truth and Tales, nosso aplicativo para crianças de 5 a 10 anos, conta com atividades que podem estimular os quatro tipos de inteligência citados acima. 

Os contos interativos estimulam a inteligência Linguística ou Verbal com a contação de histórias rimadas;  a inteligência Musical com a trilha sonora e alguns jogos de identificação de sons com notas musicais; e a inteligência Lógico-Matemática com jogos com resolução de problemas utilizando desenhos e representações. 

Os audiobooks também estimulam a inteligência Linguística ou Verbal pelos mesmos motivos dos contos interativos; e também estimulam a inteligência Musical por conta da trilha sonora. 

Os exercícios de retorno da homeostase no Yoguinha estimulam a inteligência Sinestésica-Corporal através da interpretação de movimentos e de jogos de atividades motoras. 

Destacamos aqui a trilha sonora presente no Truth and Tales, que percorre toda a experiência do app: do menu às atividades. Sabendo do efeito que a música tem no cérebro das crianças, decidimos fazer uma trilha sonora com profissionais qualificados especialmente para o app. A musicalidade do app deixa a experiência completa e ainda mais especial.

Fontes utilizadas no artigo: 

Literartes – Revistas da USP

O Globo

Jornal da USP

Ciências e Cognição  

El Economista