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Resiliência: Como É Desenvolvida Nas Crianças e Como Pode Afetar Positivamente a Vida Adulta

A resiliência é a habilidade de superação e retorno da homeostase em meio a adversidades e pode ser desenvolvida desde quando crianças. Na vida adulta, a resiliência é importante para superar os obstáculos da vida de forma inteligente e gentil consigo mesmo. 

A história Fátima, do Truth and Tales, conta sobre a vida de Fátima, a personagem principal que passa por várias dificuldades, mas sempre se levanta dos obstáculos e segue seu caminho. O conto não aborda a questão da resiliência em si, mas é uma característica predominante de Fátima, mostrando como ela lida com todas as adversidades, tristezas e frustrações ao mesmo tempo que continua perseguindo seus objetivos.

Vamos entender mais sobre resiliência? Baseamos nosso artigo em vários materiais do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard. 

O que é Resiliência

Resiliência pode ser definida como um bom resultado em meio às adversidades. Linda C. Mayes é professora de Psiquiatria Infantil, Pediatria e Psicologia na Escola de Medicina da Universidade de Yale. Linda define resiliência como a habilidade ou conjunto de capacidades definidas para uma adaptação positiva que permite que o equilíbrio seja mantido.

Todos nascemos com a capacidade de resiliência, mas por ser uma habilidade, é necessário que seja desenvolvida. A resiliência é construída com o tempo, assim como a arquitetura do cérebro é formada. É uma habilidade individual, mas que precisa de interações entre pessoas e entre a criança e a comunidade em geral. A resiliência necessita de vários fatores para ser desenvolvida: relações responsivas, comunidade segura, pais, mães ou responsáveis qualificados, alimentação saudável etc. 

:: Leia também: Volta às aulas: como aproveitar o período para criar hábitos mais saudáveis na vida das crianças ::

Como é Desenvolvida

Para entender o desenvolvimento da resiliência de forma mais precisa, vamos imaginar uma gangorra onde sua base, geralmente fixa e no centro, agora é móvel, podendo ir para a esquerda ou para a direita. De um lado da gangorra estão as experiências protetoras e habilidades de enfrentamento (que nos ajudam a superar períodos de estresse); do lado oposto, estão as adversidades. 

A resiliência é evidente quando a saúde e o desenvolvimento da criança tendem a resultados positivos, mesmo quando uma carga de fatores é empilhada no lado dos resultados positivos da gangorra. Com o tempo, os impactos positivos cumulativos das experiências de vida e habilidades de enfrentamento têm a capacidade de mudar a posição da base móvel da gangorra, que começa a se mover para mais perto do extremo das adversidades, tornando mais fácil atingir resultados positivos.

O fator mais comum para crianças desenvolverem resiliência é ter pelo menos uma relação estável e comprometida com o pai, mãe, cuidador ou outro adulto. Essas relações fornecem base, proteção e o necessário para desenvolver a capacidade de resposta de acordo com a necessidade do momento. Isso amortece as crianças da interrupção do desenvolvimento. 

Elas também constroem capacidades chave – como habilidade de planejamento, de monitorar e regular comportamentos – que permitem que crianças respondam adaptativamente às adversidades e, assim, prosperem. Essa combinação de relações de apoio, construção de habilidades adaptativas e experiências positivas são as fundações da resiliência. 

Crianças que se saem bem frente a sérias dificuldades geralmente têm resistência a adversidades e relações fortes com adultos importantes da família e da comunidade em que vivem. Resiliência é o resultado da combinação de fatores de proteção. Sozinhas, nem características individuais ou ambientes sociais garantem resultados positivos para crianças que passam por períodos prolongados de estresse tóxico. É a interação entre a biologia e o ambiente que constrói a habilidade da criança de lidar com as adversidades e superar as ameaças rumo a um desenvolvimento saudável.

Resiliência Apenas na Infância?

As capacidades relacionadas à resiliência podem ser fortalecidas em qualquer idade. O cérebro e outros sistemas biológicos são mais adaptáveis no início da vida. Enquanto seu desenvolvimento estabelece as bases para uma ampla variedade de comportamentos resilientes, nunca é tarde para construir resiliência. 

Atividades que promovem saúde e apropriadas à idade podem melhorar significativamente as chances de recuperação de um indivíduo de experiências indutoras de estresse. 

Por exemplo, atividades físicas regulares, práticas de redução de estresse, e programas que ativamente constroem funções executivas e habilidades de auto-regulação melhoram as habilidades de crianças e adultos para lidar, se adaptar e até prevenir as adversidades que podem acontecer ao longo da vida. 

Adultos que fortalecem essas habilidades em si mesmos podem servir de modelos e mostrar de forma mais efetiva comportamentos saudáveis para seus filhos, melhorando assim a resiliência da próxima geração. 

A Resiliência de Fátima

Diante dos percalços ocorridos na vida de Fátima, que é uma das histórias do aplicativo Truth and Tales, muitas pessoas podem interpretar que a personagem é uma pobre coitada perseguida pelo azar e vítima de tantas situações. Porém, Fátima demonstra muito poder e sabedoria ao encarar e ultrapassar os desafios. A capacidade de Fátima de dar a volta por cima dos desafios, apesar das dores, cansaço e adversidades, é fruto da resiliência. 

Histórias em que há desafios e frustrações é importante para que as crianças tenham contato com adversidades sem vivê-las na própria pele. Isso ajuda a prepará-las para enfrentar situações desafiantes no contexto de suas vidas.

Texto: Luisa Scherer

Referências:

Resilence – Center on the Developing Child – Harvard University

In Brief: What is Resilience? – Center on the Developing CHild – Harvard University

Stress and Resilience: How Toxic Stress Affects Us, and What We Can Do About It – Center on the Developing Child – Harvard University

Volta às aulas: como aproveitar o período para criar hábitos mais saudáveis na vida das crianças

O início do ano letivo está logo aí. Depois do período de férias, chegou o momento de volta às aulas e muitas vezes é necessário readaptar a rotina das crianças.

As férias costumam ser um período onde os horários são mais livres do que quando as crianças estão frequentando a escola. As horas assistindo à televisão ou jogando, além de outras atividades propostas pelos pais, costumam ocupar os horários durante o recesso escolar. 

É por isso que neste artigo nós reunimos algumas dicas que podem ajudar a auxiliar os pais que estão vivenciando essa fase de volta às aulas das crianças, acompanhe! 

Atenção com o sono das crianças na rotina de volta às aulas

Como já mencionamos, o sono é afetado no período das férias, e o ideal é recuperar a rotina de dormir antes da volta às aulas. Como a rotina de horários é mais flexível, muitas crianças dormem horas a mais ou a menos e também em horários diferentes dos quais eram habituadas. 

No entanto, mais do que descansar, o sono cumpre um papel extremamente importante no desenvolvimento das crianças. 

Segundo a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), “o hormônio do crescimento (GH) é produzido e liberado no organismo durante o sono, principalmente, ao longo da noite. Cerca de 30 minutos após o adormecimento, com maior produção, a partir das 22 horas, até às seis da manhã. Por isso, crianças que dormem pouco podem apresentar déficit de crescimento, prejuízos na memória, irritabilidade, menor concentração e dificuldades de aprendizado”. 

Além do hormônio do crescimento, ocorre a liberação de leptina durante o sono, que é responsável por controlar a sensação de saciedade e cortisol, uma substância ligada ao estresse, que é reguladora do nível de glicose no sangue.

A médica Rachel Dawkins, que atua no hospital Johns Hopkins All Children’s Hospital, localizado nos Estados Unidos, afirma:

“O sono é uma parte essencial da rotina de todos e uma parte indispensável de um estilo de vida saudável. Estudos mostraram que crianças que dormem regularmente uma quantidade adequada de sono melhoram a atenção, o comportamento, o aprendizado, a memória e a saúde mental e física geral. Não dormir o suficiente pode levar à pressão alta, obesidade e até depressão”. 

Qual é o período necessário de sono para cada idade? 

A Sleep Foundation é uma entidade que compartilha informações sobre o sono obtidas por meio de fontes de pesquisas e revisadas por especialistas na área. 

No ano passado, a fundação publicou um artigo que explica sobre as horas necessárias de sono das crianças para cada faixa etária. São elas: 

  • Crianças (1-2 anos): entre 11 a 14 horas.
  • Pré-escola (3-5 anos): 10 a 13 horas.
  • Idade escolar (6-13 anos): 9 a 11 horas.

Segundo o mesmo artigo, “estabelecer hábitos de sono saudáveis, incluindo um horário de sono estável e uma rotina antes de dormir, pode reforçar a importância da hora de dormir e reduzir a inconstância do sono à noite. Dar às crianças a oportunidade de usar sua energia durante o dia e relaxar antes de dormir pode facilitar o adormecer e permanecer dormindo durante a noite”. 

Também recomenda-se que as telas sejam desligadas no mínimo uma hora antes da criança ir dormir. Essa recomendação existe pois o brilho presente nas telas dos celulares ou tablets chamada luz azul influencia no bloqueio da melatonina, que é o hormônio regulador do sono secretado pelo nosso corpo. A luz azul tem relação com a dificuldade em dormir e também na qualidade do sono. 

Nós já falamos sobre o uso de telas neste artigo e também já discutimos sobre o uso das redes sociais neste outro texto

Cuidado com a alimentação no período de volta às aulas

Introduzir vegetais ou salada na rotina das crianças é considerado por muitos pais uma tarefa extremamente difícil e, com a rotina fora do comum nas férias, o ato de comer também muda. Alimentos processados e ricos em açúcar muitas vezes são os preferidos dos pequenos.

Lina Berdache é professora da Universidade de Binghamton e pesquisa a nutrição ao nível celular e genético com especial interesse no cérebro. Ela escreveu um artigo onde explica como o excesso de açúcar afeta o cérebro em desenvolvimento ao longo da infância. 

Ela escreve que “a glicose – um açúcar simples que constitui a base da maioria dos alimentos ricos em carboidratos – é a principal fonte de energia para o cérebro. Cérebros saudáveis ​​requerem uma fonte contínua de energia e nutrientes para alimentar o crescimento, aprendizado e desenvolvimento. No entanto, isso não significa que o consumo extra de açúcar seja bom para o cérebro em desenvolvimento. De fato, muito açúcar pode ser prejudicial ao crescimento normal do cérebro”.

A professora explica que os alimentos processados, como bolachas e refrigerantes,  ​​têm um valor nutricional menor do que os alimentos integrais, como frutas, legumes e grãos integrais. Um dos adoçantes mais comuns nos produtos alimentícios dos EUA é o xarope de milho rico em frutose, que contém não apenas glicose, mas outro açúcar simples chamado frutose. Uma grande quantidade de frutose tem sido associada ao aumento da gordura corporal.

Em seu artigo, a professora e pesquisadora cita um estudo que afirma que o alto consumo de açúcar dificulta o aprendizado e a memória:

“… A ingestão diária de bebidas com adição de açúcar durante a adolescência está associada à piora do desempenho no aprendizado e tarefas que exigem memória durante a vida adulta. Os pesquisadores desse estudo sugerem que esse comprometimento pode ser devido a alterações nas bactérias intestinais”.

A dica que recomendamos diante dessas informações é que a alimentação, assim como o sono, precisa fazer parte de uma rotina onde limites e também quantidades sejam respeitadas. E quando falamos em limite, é importante que exista entre pais e filhos um diálogo constante sobre eles. 

Uso de telas e volta às aulas

Vivemos cercados de telas por todos os lados e com as crianças não é diferente. Com a pandemia e o período de isolamento, a utilização de telas aumentou ainda mais. 

É o que mostra a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box – Crianças e smartphones no Brasil realizada no final de 2020, o primeiro ano da pandemia da Covid-19. O  número de crianças na faixa etária de 7 a 9 anos que utilizam o celular por 3 horas ao dia (ou mais) aumentou de 30% para 43% durante o ano. Cerca de 58% das crianças de 10 a 12 anos que participaram da pesquisa usavam o celular durante mais de 3 horas por dia. 

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) recomenda que pais e cuidadores estipulem regras em relação ao tempo de uso de telas. Crianças de até de até 2 anos não recomenda-se o uso. As crianças entre 2 e 6 anos podem utilizar uma hora por dia e aquelas de 6 a 10 anos, duas horas por dia. Os adolescentes, por recomendação da entidade, podem utilizar por volta de três horas por dia.

A importância da leitura como uma alternativa para a volta às aulas

Em entrevista, a médica pediatra e coordenadora do Núcleo de Saúde e Brincar do IFF/Fiocruz Roberta Tanabe destaca o papel dos cuidadores e das escolas na formação de um público leitor entre crianças e adolescentes. 

“Crianças tendem a imitar a atitude dos adultos, sobretudo aqueles que são referências afetivas. Pais leitores que leem para seus filhos, estão oferecendo bons exemplos que poderão se concretizar como um hábito saudável a ser incorporado de forma duradoura.  A experiência de ouvir histórias junto a pessoas queridas, num espaço onde há atenção, interesse e afeto é fundamental, além de uma curadoria qualificada na seleção de temas e obras, que possam despertar o interesse e a curiosidade de acordo com cada faixa etária”. 

Leitura e telas

As telas têm tomado o lugar da leitura nos últimos anos. Antes de falarmos em proibição e tudo que vem junto disso, a nossa dica é o diálogo. Conversar com as crianças sobre como o uso das telas afeta a rotina delas, assim como combinar um período para o uso são boas opções para os pais. 

Atualmente diversos jogos e aplicativos são lançados partindo de uma visão que oferece às crianças mais do que apenas entretenimento. Alguns estimulam o aprendizado e exploram narrativas que contribuem para o desenvolvimento e criatividade dos pequenos.  Esses jogos e aplicativos costumam também incentivar a autonomia das crianças, fazendo com que elas não fiquem apenas consumindo um tipo de conteúdo. O nosso aplicativo Truth and Tales se encaixa neste segmento, com audiobooks e histórias interativas onde as crianças podem brincar com os personagens ao mesmo tempo que fortalecem o hábito da leitura. Saiba mais clicando aqui.  

A leitura na rotina

Ainda segundo a médica, “a própria leitura pode se tornar uma brincadeira entre pais e filhos e funcionar no estreitamento de vínculos de afeto e confiança. Não existe um planejamento único que atenda às demandas e situações específicas de cada família no que se refere ao uso de telas. Orientações e informações qualificadas ajudam no balanceamento de experiências digitais e offline para que a gestão destes dois universos possa ser conduzida de forma a aproveitar o que, de melhor, cada um tem a oferecer no desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes. Cabe aos adultos estar sempre junto nesse processo que requer maturidade, bom senso e afeto”. 

A escuta e o acolhimento são fundamentais nessa retomada da rotina. As crianças podem se sentir desmotivadas ou até mesmo irritadas por mudarem tão bruscamente os seus dias, por isso os pais podem conversar sobre como organizar a rotina de uma maneira leve e divertida. Promover brincadeiras, desafios e criar um ambiente que promova a conversa e a escuta sobre o que está incomodando são essenciais para a boa convivência e hábitos mais saudáveis na rotina das crianças. 

Texto: Débora Nazário

Referências: 

Jogos Inclusivos: como incluir todas as crianças nas brincadeiras

Quando uma criança está brincando ou participando de algum jogo, além de estar se divertindo e praticando a empatia, ela também está aprendendo. Essas atividades auxiliam no desenvolvimento de habilidades, aumentam a percepção sobre o universo ao seu redor e estimulam muito a criatividade. Brincadeiras e jogos podem ser grandes aliados na inclusão de crianças com deficiência na escola e na sociedade em geral. Saiba mais sobre brincadeiras e jogos inclusivos neste artigo.

Raimundo A. Dinello é doutor em Psicologia com especialização em Orientação Educacional e ex-professor de Sociologia da Educação na Universidade Livre de Bruxelas. Ele afirma que “os jogos têm um papel no desenvolvimento psicomotor e no processo de aprendizado de domínio do social da criança. Através dos jogos é possível exercitar os processos mentais e o desenvolvimento da linguagem e hábitos sociais”. 

Todos esses benefícios que podem também estimular a inclusão, tanto na sala de aula quanto em outros ambientes. Crianças com deficiência podem, por meio de jogos, exercitarem a sua autonomia e se divertirem ao mesmo tempo que aprendem. 

As crianças que possuem deficiências de origem motora, cognitiva, visual, auditiva, de fala ou de linguagem, ao brincarem e jogarem algum tipo de jogo, estarão superando desafios extremamente relevantes para o desenvolvimento, que também influenciam na saúde mental das mesmas. 

Jogos inclusivos promovem mais interação entre as crianças 

O Guia do Brincar Inclusivo, desenvolvido pelo Projeto Incluir Brincando da Unicef escrito por Meire Cavalcante, que é mestra e doutoranda em Educação e Inclusão pela Unicamp, aponta que “as pessoas não são iguais – e é isso que torna o mundo tão rico. Iguais, na verdade, devem ser as oportunidades de sobreviver e de se desenvolver, aprender, crescer sem violência e brincar (…). Ao planejar atividades, brincadeiras e materiais pedagógicos, é preciso fazer a si mesmo uma pergunta-chave: o que vou oferecer permite que todos e todas brinquem juntos, independentemente das características de cada um?

Para promover brincadeiras e jogos que sejam inclusivos com todas as crianças, é necessário prestar atenção em alguns detalhes e, caso necessário, promover adaptações que farão toda diferença. 

Meire Cavalcante também escreveu para o site Nova Escola sobre o tema. “Crianças e jovens com deficiência mental geralmente têm dificuldade de se concentrar por muito tempo. Para prender a atenção delas, são recomendadas atividades dinâmicas e que envolvam muitas cores”. 

Exemplos de jogos inclusivos 

O Guia do Brincar Inclusivo apresenta uma série de jogos inclusivos e também explica sobre as adaptações que podem ser feitas para jogos que você já tem em casa. 

“Para tornar acessíveis os jogos, algumas adaptações simples e baratas podem resolver: criar alto relevo com barbante ou tinta plástica; usar materiais como velcro ou ímã; mudar as regras; criar cartelas e dados maiores para facilitar a leitura de quem tem baixa-visão; usar peças grandes e com alças para crianças com deficiência física; usar placas e legendas em braile; ou usar texturas e cores”.

Jogo da memória

O jogo da memória é um clássico da infância. Ele estimula a atenção, a concentração, além de treinar a memória das crianças e o raciocínio lógico. 

Para que um jogo da memória se torne inclusivo, bastam algumas adaptações simples. O contorno das peças do jogo podem ser marcados com tinta plástica, que ao secar ficarão com alto relevo. O alto relevo facilita na percepção e identificação das peças das crianças que têm alguma deficiência visual. Outra outra possibilidade é colar pequenos objetos nas peças como botões, purpurina, lixa, algodão ou lã. Esses objetos, por terem texturas diferentes.

A introdução de adaptações como essas, que acrescentam algum tipo de textura diferente em cima de alguma superfície de peças ou brinquedos, também são benéficas do ponto de vista psicomotor. Ao tocar essas texturas, crianças com deficiência estarão desenvolvendo habilidades motoras, cognitivas e sensoriais ao mesmo tempo. 

Jogo de dominó 

Para adaptar o dominó de uma maneira muito simples, basta colocar cola quente nas casas de cada peça. Isso vai fazer com que as peças fiquem com partes em alto relevo, o que facilita o manuseio e a percepção das peças para as crianças que têm deficiência visual. Nesse caso, as crianças que não têm deficiência visual podem usar vendas nos olhos, para aumentar a interação durante o jogo. 

Uno

O Uno é um jogo que foi criado nos anos 70 e desde então ganhou muitos adeptos no mundo inteiro. Estima-se que até hoje, já tenham sido vendidas 200 milhões de cópias. 

Uma das características marcantes do UNO é justamente as cores das cartas, já que as jogadas são feitas a partir da combinação de cores e números de suas cartas. 

No ano de 2017, o jogo ganhou uma versão voltada para daltônicos. Essa versão conta com cartas marcadas com o selo iconográfico do código de cores universal para daltônicos, ou ColorADD.

Os símbolos estão localizados próximo ao número de cada carta. Todas as cores, o vermelho, azul, e amarelo contam com símbolos diferentes, que quando estão juntos, formam uma nova cor. 

Na prática funciona assim: a junção do traço da carta amarela e o triângulo do azul, forma-se um símbolo criado a partir dessa aproximação, que também estão presentes nas cartas verdes. 

Além das cartas serem diferentes pelos símbolos que possuem, elas também podem ser recriadas por meio da junção de duas cartas. O ícone do verde sendo igual a uma junção dos ícones do amarelo e do azul, por exemplo, facilita para uma criança identificar qual cor é cada uma. 

:: Leia também: Empatia: o que é, como se manifesta e como reconhecer nas crianças ::

Todo mundo pode brincar!

O Guia do Brincar Inclusivo também elencou algumas dicas para que todos brinquem: 

  • Estimular as crianças a ajudarem quem tem mobilidade reduzida e outras dificuldades;
  • Usar bolas com guizos e objetos sonoros; Garantir piso plano para a circulação de cadeira de rodas no ambiente; 
  • Respeitar a criança com hipersensibilidade tátil ou visual (realizar as atividades no ritmo dela); 
  • Criar brinquedos que explorem figuras, cores, cheiros, texturas e sons; Perguntar sempre à família e ao profissional de saúde se há restrições no brincar; 
  • Ensinar às famílias as brincadeiras para que brinquem em casa com os filhos; Nos jogos com cartas, usar o segurador de cartas para crianças com deficiência física; Interferir quando alguém estiver excluído da brincadeira; 
  • Não permitir manifestações discriminatórias no grupo; 
  • Oferecer brincadeiras que quebram preconceitos em relação ao gênero; 
  • Privilegiar atividades que valorizem as capacidades (e não as dificuldades) de cada um. 

Jogos online inclusivos: 

O Laboratório de Objetos de Aprendizagem (LOA), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), desde 2012 desenvolve jogos para crianças com deficiência visual. 

Até o momento 5 jogos foram criados:

Dentro das regras e jogabilidade de cada um deles, é possível exercitar conceitos de matemática, português, química, música e noções sobre saúde. 

Filtros para jogos

A Nvidia Corporation, que é uma empresa de tecnologia com sede em Santa Clara –  Califórnia, nos EUA criou uma ferramenta de filtros em 2018 que podem ser incorporados a diversos jogos de computador. 

Para se ter acesso a essa ferramenta, é necessário fazer a instalação da versão mais recente do Game Ready Driver. Depois disso, o NVIDIA Freestyle permitirá que o usuário que estiver jogando a mudar a aparência do jogo escolhido, com ajustes em cores ou a aplicação de filtros de pós-processamento. 

Dentro dessas categorias de filtros está o modo modo daltônico, que faz com que os jogadores daltônicos possam identificar as cores com maior facilidade. 

Texto por Débora Nazário

NOTA DA EDITORA

A tecnologia vem se tornado cada vez mais aliada à inclusão digital. Assistentes de voz, hashtags como #pracegover e outras medidas abraçam mais pessoas. Algumas medidas são mais complexas e pedem programas e tecnologias mais sofisticadas, mas muitas coisas simples podem ser levadas em consideração na criação de conteúdos inclusivos.

Podemos citar alguns facilitadores em jogos e aplicativos para crianças que os tornam mais inclusivos:

  • Conteúdos com acompanhamento de texto escrito;
  • Audiobooks;
  • Voice-over acompanhando as atividades;
  • e uso de formas para auxiliar pessoas com daltonismo

Mas a inclusão vai além do físico. O aplicativo Domlexia reúne jogos que auxiliam na alfabetização de crianças com dislexia. Os jogos lúdicos e interativos somados com os exercícios fonológicos ajudam as crianças com dislexia a desenvolverem o necessário para o aprendizado das letras e fonemas, auxiliando na alfabetização.

Outro aplicativo que tem aspectos inclusivos é o Truth and Tales. Toda a experiência do Truth and Tales é narrada, dessa forma, crianças que ainda não são alfabetizadas também podem utilizar o aplicativo sem perder a experiência. O aplicativo conta com audiobooks, que são histórias somente por áudio, podendo ser utilizadas por pessoas com deficiência visual. Em alguns jogos dentro das histórias interativas são utilizadas cores para diferenciar uma coisa da outra, mas também usamos formas diferentes para que pessoas com daltonismo possam completar os desafios. 

E por último, O Truth and Tales oferece exercícios físicos para o retorno à homeostase, auxiliando pessoas – não só crianças – a ficarem mais calmas e voltarem para o equilíbrio do corpo e da mente. Os exercícios para o retorno à homeostase podem ajudar crianças com déficit de atenção, hiperatividade e ansiedade. Baixe e experimente!

Empatia: o que é, como se manifesta e como reconhecer nas crianças

A palavra empatia popularizou-se muito nos últimos anos e por esse motivo você já deve ter ouvido falar dessa expressão. Mas apesar dessa popularização, você já se perguntou o que ela significa? Já se questionou como é possível desenvolver a empatia e a partir de qual idade ela se manifesta?  

Nós podemos sentir empatia em diversas situações desde muito pequenos. Em momentos em que nos deparamos com realidades totalmente diferentes das nossas, por exemplo, quando vemos alguém sendo insultado por outra pessoa ou passando por uma situação que cause algum tipo de desconforto a alguém, sentimos empatia. Você mesmo pode fazer esse exercício de se recordar em quais situações sentiu empatia. 

O que é empatia 

Segundo a definição do dicionário da Universidade de Cambridge, empatia é “a capacidade de compartilhar os sentimentos ou experiências de outra pessoa imaginando como seria estar na situação dessa pessoa”.

A revista Greater Good, que é do Greater Good Science Center (GGSC) da Universidade da Califórnia, Berkeley, publicou um artigo onde aponta que pesquisadores de emoções geralmente definem empatia como a capacidade de sentir as emoções de outras pessoas, juntamente com a capacidade de imaginar o que outra pessoa pode estar pensando ou sentindo.

A partir de qual idade se manifesta

A empatia é uma experiência emocional e cognitiva. Os componentes emocionais da empatia são os primeiros a emergir no ser humano. Os bebês começam imediatamente a refletir os estados emocionais e as expressões das pessoas ao seu redor. Graças aos neurônios-espelho, bebês de até 18 horas costumam mostrar alguma capacidade de resposta a outros bebês em perigo. Não ensinamos bebês como fazer isso; eles nascem programados para mapear as experiências de outras pessoas em seus cérebros e corpos.

Segundo Lawrence Kutner, psicólogo infantil norte-americano e autor de seis livros, com dois anos de idade uma criança vê sua mãe chorando, por exemplo, e pode fazer um movimento para oferecer a ela o que tem em mãos, um brinquedo ou comida. No entanto, diante dessa ação, não fica evidente se a criança aos dois anos reconhece o sentimento da mãe ao chorar. 

O autor escreve que quando uma criança tem quatro anos de idade, ela começa a associar suas emoções aos sentimentos dos outros. “Enquanto uma criança diz que tem uma dor de estômago, algumas crianças de 4 anos podem vir e consolá-la. Outros, vão passar por cima da criança e dar um soco no estômago”. 

“No entanto, nos dois casos, a criança saudável está demonstrando sua empatia por quem está doente. A criança agressiva não sabe o que fazer com a habilidade que está desenvolvendo. A dor da outra criança faz com que ele se sinta desconfortável. Em vez de fugir ou esfregar seu próprio estômago, como ele poderia ter feito um ano antes, ele se sente frustrado e ataca”, destaca. 

Como observar e reconhecer a empatia nas crianças

A Making Caring Common, uma iniciativa da Universidade de Harvard, elencou algumas dicas para cultivar empatia, que são elas: 

1. Simpatize com seu filho e modele a empatia pelos outros: as crianças aprendem empatia tanto por nos observar quanto por experimentar nossa empatia por elas. Quando temos empatia com nossos filhos, eles desenvolvem laços confiantes e seguros conosco. Esses apegos são fundamentais para que eles queiram adotar nossos valores e modelar nosso comportamento e, portanto, construir sua empatia pelos outros.

2. Oferecer oportunidades para as crianças praticarem empatia: as crianças nascem com a capacidade de empatia, mas ela precisa ser nutrida ao longo de suas vidas. Aprender empatia é, em certos aspectos, como aprender uma língua ou um esporte. Requer prática e orientação. Considerar regularmente as perspectivas e circunstâncias de outras pessoas ajuda a tornar a empatia um reflexo natural e, através da tentativa e erro, ajuda as crianças a melhor sintonizar os sentimentos e perspectivas dos outros.

3. Expanda o círculo de preocupação do seu filho: como pais e cuidadores, não é apenas importante modelarmos a apreciação por muitos tipos de pessoas. É importante que guiemos as crianças na compreensão e cuidado de muitos tipos de pessoas que são diferentes delas e que podem estar enfrentando desafios muito diferentes de seus próprios desafios.

4. Ajude as crianças a desenvolver o autocontrole e gerenciar os sentimentos de forma eficaz: Muitas vezes, quando as crianças não expressam empatia, não é porque não a têm. É porque algum sentimento ou imagem está bloqueando sua empatia. Muitas vezes, a capacidade de cuidar dos outros é sobrecarregada, por exemplo, pela raiva, vergonha, inveja ou outros sentimentos negativos. Ajudar as crianças a gerenciar esses sentimentos negativos, bem como estereótipos e preconceitos sobre os outros é muitas vezes o que “libera” sua empatia. 

Para acessar mais detalhes de cada uma das dicas, acesse o link

Diferentes tipos de empatia

Segundo o psicólogo, pesquisador e autor Daniel Goleman, que escreveu para a Harvard Business Review sobre o assunto, existem três tipos de empatia

  • Empatia Cognitiva: a capacidade de entender a perspectiva de outra pessoa;
  • Empatia Emocional: a capacidade de sentir o que o outro sente;
  • Preocupação empática: a capacidade de sentir que a outra pessoa precisa de você. 

Ele chegou nessas definições baseando-se em pesquisas realizadas na faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. Esses estudos também apresentaram a existência do cérebro social, que pode ser explicado como partes do cérebro que realizam interações e dessa maneira nos relacionamos uns com os outros. 

O psicólogo explica que o cérebro social não é constituído por uma pequena parte do cérebro humano, já que diversas partes do cérebro se relacionam para desempenhar funções que envolvem o convívio social. O termo cérebro social engloba diversas partes ativas, que abrangem todo o cérebro humano. Essas partes ativas são implicadas nas ações que executamos quando interagimos com outras pessoas. 

Segundo o pesquisador e autor, esses três tipos de empatia que são diretamente ligadas ao cérebro social são primordiais para a comunicação em diversos tipos de ambientes, sejam no ambiente corporativo, em casa ou na escola. “Quando duas pessoas estão nesse estado, de total atenção um ao outro, cria-se um sentimento de bem-estar e espaço para que as trocas aconteçam, pois sentem-se protegidas e apoiadas”, conta. 

O autor reforça que a capacidade de nos conectarmos verdadeiramente com as pessoas, independentemente da situação, é extremamente importante para entendermos o que os outros nos dizem e também sentem. Para aprimorar essa conexão é necessário saber escutar o outro e também fazer perguntas. 

Daniel Goleman afirma: eu literalmente sinto sua dor. Meus padrões cerebrais combinam com os seus quando eu ouço você dizer uma história emocionante. 

Como a empatia se desenvolve

Uma pesquisa coordenada por Helen Riess em conjunto com outros médicos do Hospital Geral de Massachusetts de Boston, sugeriu que a empatia emocional pode ser desenvolvida

Para chegar nessa conclusão, a médica criou um programa que ensinou outros médicos a realizarem uma concentração e respiração profunda do diafragma para observar as interações. “Suspendendo seu próprio envolvimento para observar o que está acontecendo dá a você uma ‘consciência consciente’ da interação sem ser completamente reativo”, explicou a médica Riess. 

Ela afirma na pesquisa que se uma médica perceber que está irritada, por exemplo, pode ser um sinal de que o paciente também está incomodado.

:: Leia também: O que é homeostase? ::

Como a empatia influencia a vida das crianças

Michelle Borba, que é pedagoga, especialista em parenting e autora de mais de 20 livros, em entrevista para a Revista Crescer explicou que “as últimas descobertas científicas mostram que a habilidade de ser empático afeta positivamente a saúde, as finanças, traz felicidade, contribui para a satisfação que os relacionamentos proporcionam, além de aumentar a habilidade de superar adversidades no futuro. A empatia também prepara as crianças para viverem em um mundo globalizado e dá um impulso para se sair melhor na profissão”, conta. 

Em seu livro Unselfie, Why Emphatetic Kids Succeed in Our All-About-Me World (Unselfie, Por Que Crianças Empáticas se Dão Bem em um Mundo Egocêntrico, em tradução livre), a autora dedica um capítulo inteiro a importância do contato das crianças com a literatura. 

Segundo ela, “os livros têm o poder de transportar as crianças para outros mundos e transformar seus corações. Livros podem ser portais para entender outros universos e pontos de vista, ajudando nossas crianças a serem mais abertas às diferenças e cultivarem novas perspectivas. Nós sempre sentimos o que os personagens sentem. É como estar na pele deles – emocionalmente, pelo menos – nos identificando com seus desconfortos e sentindo as suas dores. (…) É por isso que precisamos encontrar tempo para as crianças lerem e colocá-las em contato com livros”. 

Ao ler histórias ou ouvir histórias crianças conseguem ampliar as suas percepções sobre as suas próprias vidas e dessa maneira experimentam a empatia. O Truth and Tales, nosso aplicativo, também compartilha dessa visão, pois estimula que crianças e adultos percebam cada vez mais a si mesmos. Ao perceber melhor nós mesmos, também conseguimos olhar mais facilmente para o outro e dessa forma somos mais empáticos.  

Texto: Débora Nazário

NOTA DA EDITORA

Empatia está em alta e vemos sendo citada em diversas palestras dos mais variados gêneros. Dizem ser a “habilidade do futuro”. Apesar de muito se falar em empatia, na prática, muitas pessoas se confundem com simpatia.

Como já foi dito no texto acima, empatia é quando nos colocamos nos sapatos de outra pessoa, quando conseguimos ver a situação a partir da perspectiva do outro. É a habilidade de experenciar os mesmos sentimentos.

Já a simpatia não é uma experiência dividida. A simpatia é nossos próprios sentimentos a partir do que nós julgamos de uma situação. Simpatia é expressar que, apesar de não souber pelo o que a outra pessoa está passando, você sente muito. 

Para que a empatia ocorra, a conexão entre duas pessoas é indispensável, quer se conheçam ou não. Num mundo onde as conexões online estão cada vez mais fáceis, as físicas têm se perdido. Por isso, tenha um tempo de qualidade com seus filhos fora das telas e da internet. 

O Truth and Tales, nosso aplicativo original, trabalha a empatia através das histórias infantis interativas. Isso é feito através da customização dos personagens principais, onde as crianças escolhem o tom de pele, cor e tipo de cabelo, cor dos olhos, roupas e acessórios, e etc. As crianças podem fazer as combinações mais malucas, mas geralmente montam os personagens parecidos com elas mesmas, se aproximando das suas próprias características. E isso faz com que as crianças consigam se colocar mais facilmente no lugar destes personagens, desenvolvendo a empatia.

Música ajuda o desenvolvimento do cérebro em bebês prematuros

A informação de que música clássica é bom para bebês têm circulado na internet e em grupos de pais. Mas será que o benefício é real? Se é especificamente música clássica, não sabemos. Mas um estudo feito nos Hospitais Universitários de Genebra comprovou que bebês prematuros tiveram um melhor desenvolvimento do cérebro ao ouvirem um tipo específico de música.

Os bebês prematuros que foram expostos à música na unidade de tratamento intensivo tiveram um melhor desenvolvimento de redes cerebrais, levando à uma arquitetura cerebral funcional mais parecida às dos recém-nascidos a termo.

O impacto no desenvolvimento do cérebro

Foi detectado que algumas áreas do cérebro dos bebês prematuros expostos à música tiveram um maior desenvolvimento. Isso impactou na percepção sensorial, nos mecanismos de atenção que facilita o aprendizado relacionado ao desenvolvimento cognitivo e perceptivo, no processamento afetivo e emocional, e nas respostas cognitivas e comportamentais.

O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Genebra e publicado em junho de 2019 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).

Ao todo, 45 bebês participaram da pesquisa. 16 recém-nascidos a termo (que não nasceram prematuros) e 29 bebês prematuros recém-nascidos nos ambientes de terapia intensiva dos Hospitais Universitários de Genebra (HUG).

Dos 29 bebês recém-nascidos prematuros, 15 bebês eram do grupo de controle sem intervenção de música e 14 eram do grupo de controle com intervenção de música.

Segundo o artigo “Music in premature infants enhances high-level cognitive brain networks”, feito a partir dos resultados do estudo, os bebês prematuros que foram expostos a um certo tipo de música tiveram um aumento significativo no desenvolvimento das redes cerebrais em relação aos bebês prematuros que não tiveram contato com música.

O cérebro de bebês prematuros ainda são muito imaturos porque não se desenvolveram por completo no período de gestação que tiveram. Por isso, os bebês precisam ficar algum tempo na incubadora de uma unidade de tratamento intensivo para desenvolver mais.

Apesar das incubadoras imitarem o ambiente em que o bebê se encontrava no ventre da mãe, muito se perde no quesito de desenvolvimento. Segundo Petra Huppi, professora que dirigiu o trabalho da Faculdade de Medicina da UNIGE e chefe da Divisão de Desenvolvimento e Crescimento do HUG, “A imaturidade do cérebro, combinada com um ambiente sensorial perturbador, explica por que as redes neurais não se desenvolvem normalmente”.

A música

A música que os bebês prematuros tiveram contato foi composta exclusivamente para eles e para o estudo. Foi utilizado alguns instrumentos específicos como harpa, sinos e pungi, que produziram respostas cerebrais e comportamentais em recém-nascidos prematuros em um estudo anterior.

A música foi dividida em três faixas para se adaptar ao estado de vigília do bebê: uma que ajuda o bebê a acordar; a segunda interage com o bebê acordado; e a última que ajuda o bebê a dormir.

:: Leia também: A quantidade de carinho que bebês recebem pode afetar o DNA ::

Fazer o bem faz bem? Como a bondade genuína afeta o cérebro

Quando oferecemos ajuda para alguém, ou quando olhamos para o próximo com compaixão e, a partir disso, tomamos alguma atitude, estamos praticando a bondade. Esses atos que podem passar despercebidos pela nossa rotina fazem muito bem para o outro e também para nós mesmos. Sabe aquela sensação que você sente depois de praticar a bondade? Ela faz parte dos efeitos que a bondade genuína causa no nosso cérebro

A bondade ativa regiões de recompensa de nosso cérebro

Em 2018, um grupo de pesquisadores britânicos da University of Sussex afirmou que atos de generosidade ativam as regiões de recompensa do cérebro.

O estudo analisou 1.150 participantes cujos cérebros foram escaneados através de exames de ressonância magnética (fMRI) ao longo de um período de dez anos com um diferencial nessa análise: a comparação feita entre o verdadeiro altruísmo e a bondade estratégica, ou seja, aquelas atitudes que são feitas esperando algo em troca ou algum tipo de reconhecimento. 

“Este grande estudo levanta questões sobre as pessoas que têm motivações diferentes para dar aos outros: interesse próprio claro versus o sentimento caloroso do altruísmo”, afirmou o líder da pesquisa, Dr. Daniel Campbell-Meiklejohn em um comunicado publicado logo após a divulgação do estudo. 

“A decisão de compartilhar recursos é a pedra angular de qualquer sociedade cooperativa. Sabemos que as pessoas podem escolher ser gentis porque gostam de se sentir uma ‘pessoa boa’, mas também que as pessoas podem escolher ser gentis quando pensam que pode haver algo nisso em benefício delas, como um favor retribuído ou reputação melhorada” afirmou. 

A recompensa é maior quando agimos com uma bondade que não é estratégica

Os pesquisadores descobriram que as decisões estratégicas de bondade mostraram maior atividade nas regiões do corpo estriado do cérebro do que as escolhas altruístas, que são aquelas que não se espera nada em troca. O corpo estriado atua na memória não declarativa ou implícita, que são as memórias subconscientes e algumas habilidades como andar de bicicleta ou patinar no gelo. Ou seja, atividade que fazemos “no automático”.

A bondade genuína, mais do que a bondade estratégica, ativa uma parte do cérebro chamada córtex cingulado anterior subgenual (sgACC). Estudos mostraram que o volume médio de matéria cinzenta do sgACC é anormalmente reduzido em indivíduos com transtorno depressivo maior (TDM) e transtorno bipolar, independentemente do estado de humor. 

O córtex pré-frontal ventromedial (vmPFC) está envolvido nas decisões generosas e é responsável por diferenciar esses dois tipos de bondade. O córtex pré-frontal ventromedial participa do processamento de risco e de medo, já que faz um importante papel na regulação da atividade da amígdala. O vmPFC também desempenha um papel importante na inibição de respostas emocionais e no processo de tomada de decisão e autocontrole, além de estar envolvido no senso de moralidade.

Ou seja, pessoas que praticam mais bondade genuína ativam mais a parte do cérebro que regula a amígdala, mantendo o nível de stress em equilíbrio. Ao praticar a bondade genuína, o cérebro também trabalha regiões que, se não forem muito ativas, são relacionadas com depressão e bipolaridade. Portanto, após essas análises, os pesquisadores concluíram que é muito mais prazeroso quando somos bondosos de forma genuína.

A ciência da bondade 

Ao pesquisar sobre os efeitos da bondade em nosso cérebro, encontramos a Random Acts of Kindness Foundation, uma organização sem fins lucrativos que investe recursos para tornar a gentileza amplamente praticada pelas pessoas, seja em casa, na escola ou no ambiente de trabalho. Essa iniciativa é baseada em estudos científicos que comprovam que podemos viver melhor ao praticar a bondade.

Outras funções comprovadas que envolve praticar a bondade:

A bondade aumenta o hormônio do amor: 

O hormônio do amor chamado ocitocina é liberado quando realizamos atos de bondade. Essa liberação ajuda a reduzir a pressão arterial e a melhorar a saúde geral do coração. – Natalie Angier, The New York Times

Energia: 

Metade dos participantes de um estudo relatou se sentirem mais fortalecidos e com mais energia depois de ajudar os outros. Alguns relataram também se sentirem mais calmos e menos deprimidos. – Christine Carter, UC Berkeley, Greater Good Science Center.

:: Leia também: O que é Desenvolvimento Cognitivo? ::

Praticar a bondade pode diminuir a ansiedade 

Um estudo realizado pela professora Dr. Lynn Alden da University of British Columbia e pela psicóloga Jennifer Trex indica que a ansiedade social pode diminuir ao praticar a bondade.

Para a pesquisa, os autores recrutaram 115 estudantes de graduação que apresentavam altos níveis de ansiedade social. Esses participantes foram divididos de maneira aleatória em três grupos para uma intervenção que durou quatro semanas. 

Um dos grupos foi incentivado a realizar atos de bondade; outro grupo foi exposto a interações sociais; e o terceiro não recebeu instruções, foi pedido apenas que os participantes fizessem registros de suas rotinas. Os resultados mostraram que a maior diminuição no desejo de evitar interações sociais foi observada entre os indivíduos que foram incentivados a realizar atos de gentileza.

O que a Professora Lynn Alden diz

“O objetivo central do tratamento para o transtorno de ansiedade social é aumentar o envolvimento em situações sociais, que os indivíduos socialmente ansiosos costumam evitar. Os exercícios de exposição social podem ser aprimorados encorajando indivíduos ansiosos a se concentrarem em ações amáveis. Portanto, abrir a porta para um vizinho que está empurrando um carrinho de bebê, agradecer aos balconistas da mercearia pela ajuda ou oferecer um café para um colega de trabalho pode ser uma boa maneira de começar a exposição social”, relatou a professora. 

A professora Lynn Alden explicou também que atos de bondade podem ajudar a combater o medo da pessoa socialmente ansiosa de uma avaliação negativa de terceiros, promovendo percepções e expectativas mais positivas de como as outras pessoas irão reagir.

“Descobrimos que qualquer ato gentil parecia ter o mesmo benefício, mesmo pequenos gestos como abrir a porta para alguém ou dizer “obrigado” ao motorista do ônibus. A gentileza não precisa envolver dinheiro ou esforços demorados, embora alguns de nossos participantes o fizessem. A gentileza nem precisava ser “cara a cara”. Por exemplo, atos de bondade podem incluir doar para uma instituição de caridade ou colocar uma moeda no parquímetro de alguém quando você perceber que ele está piscando. Estudos feitos por outros pesquisadores sugerem que é importante que o ato gentil seja feito por si mesmo, e que não pareça coagido ou seja feito para benefício pessoal. Tirando isso, vale tudo”, explicou. 

Praticar a bondade pode retardar o envelhecimento

A ocitocina, hormônio produzido através do calor emocional, age na redução dos níveis de radicais livres e a inflamação no sistema cardiovascular e, dessa forma, retarda o envelhecimento na origem. Os radicais livres e a inflamação no sistema cardiovascular desempenham um papel relevante e é por isso que podemos dizer que a bondade faz bem também para o coração. 

Algumas revistas científicas já publicaram estudos sobre a forte ligação entre a compaixão e a atividade do nervo vago. O nervo vago, além de regular a frequência cardíaca, também é responsável por controlar os níveis de inflamação no corpo. 

Um estudo analisou a meditação de budistas tibetanos e descobriu que a bondade e a compaixão auxiliam na redução da inflamação no corpo, provavelmente devido aos seus efeitos no nervo vago.

Essas análises estão presentes no livro “The Five Side Effects of Kindness: This Book Will Make You Feel Better, Be Happier & Live Longer” escrito pelo Dr. David R. Hamilton, que é formado em Química Orgânica e trabalhou durante vários anos na indústria farmacêutica desenvolvendo medicamentos para tratar doenças cardiovasculares. 

NOTA DA EDITORA

Todas essas informações falam da bondade genuína. Genuíno significa puro, real, verdadeiro. É importante levar isso em consideração porque ninguém pode cobrar atos de bondade genuína das pessoas. Essas ações vêm de forma espontânea, direto do coração.

Aos papais e mamães: dar o exemplo realmente é uma forma de mostrar para as crianças como fazer o bem faz bem, mas forçar situações não é a solução. Se você não está num dia bom, não force nada que não queira fazer para “ser um bom exemplo aos seus filhos”. Isso não irá fazer bem a você e nem aos pequenos. Também evite cobrar boas ações das crianças. Ninguém vai deixar de ser uma boa pessoa porque não segurou a porta para alguém entrar. 

Deixe que essas qualidades sejam manifestadas por elas mesmas, sem forçar ou incentivar. A beleza e os benefícios da genuinidade é deixar que venha e se manifeste de forma espontânea. Não se preocupe em “ser mais bondoso” ou “ensinar os filhos a ser bons”. A bondade está dentro de todo mundo, basta percebê-la e deixá-la manifestar.

O que é Desenvolvimento Cognitivo?

O termo desenvolvimento cognitivo é bastante citado por terapeutas, médicos e educadores. Nós também já usamos essas duas palavras em diversos conteúdos que publicamos aqui no blog. Mas você sabe o que ele significa? 

Em entrevista realizada em dezembro de 2019 o médico Drauzio Varella explicou um pouco sobre o desenvolvimento cognitivo

“A gente nasce com todo o equipamento neurológico ‘armado’, mas não pronto. O cérebro é uma miniatura do cérebro adulto, morfologicamente falando, a forma está bem estabelecida. Só o que faz o desenvolvimento das atividades cognitivas não é a forma do cérebro, não são os neurônios. São as ligações entre eles, porque é por ali que vai correr a informação, através dessas conexões que são estabelecidas. Se você estimula essas conexões, com brincadeiras, inventando histórias e lendo para a criança, ela vai desenvolvendo uma capacidade cognitiva baseada no estímulo das formações das sinapses, que são os contatos entre os neurônios”, explicou. 

Três conceitos fundamentais sobre o desenvolvimento cognitivo na primeira infância

Para explicar um pouco mais sobre essas conexões que acontecem no nosso cérebro, vamos apresentar três conceitos fundamentais sobre o desenvolvimento na primeira infância desenvolvidos pelo Conselho Científico Nacional da Criança em Desenvolvimento da universidade de Harvard. 

Esses três conceitos mostram como os avanços na neurociência, biologia molecular e genômica dão uma compreensão muito melhor de como as primeiras experiências são construídas em nossos corpos e cérebros, para melhor ou para pior.

1. As experiências moldam a arquitetura do cérebro

As experiências vividas pelas crianças durante os primeiros anos de vida têm impacto duradouro na arquitetura do cérebro e no desenvolvimento. Os genes representam o diagrama a ser executado, mas as experiências moldam o processo que define se o cérebro formará uma base forte ou fraca para aprendizagem, comportamento e saúde ao longo da vida. 

Durante essa fase importante do desenvolvimento, bilhões de células cerebrais chamadas neurônios enviam sinais elétricos para se comunicarem entre si. Essas conexões formam os circuitos que estabelecem a arquitetura básica do cérebro. Circuitos e conexões se multiplicam rapidamente e se fortalecem por meio do uso frequente. 

Nossas experiências e o ambiente em que vivemos determinam quais circuitos e conexões são mais usados. As conexões mais usadas se fortalecem e se tornam permanentes, enquanto as conexões pouco usadas desaparecem através de um processo normal chamado poda. Os circuitos simples se formam primeiro, constituindo a base sobre a qual os mais complexos serão formados depois. 

É através desse processo que os neurônios formam circuitos e conexões para emoções, habilidades motoras, controle do comportamento, lógica, linguagem e memória. Tudo isso acontece durante os períodos iniciais do desenvolvimento. 

Com o uso repetido, os circuitos se tornam mais eficientes e se conectam mais rapidamente às outras áreas do cérebro. Embora se origine em áreas específicas do cérebro, os circuitos são interligados e não se pode ter um tipo de habilidade sem as demais para complementá-la. É como na construção de uma casa, tudo está conectado, e o que vem primeiro forma a base para o que virá depois.  

2. O jogo de ação e reação modela os circuitos do cérebro

Uma arquitetura sólida do cérebro se forma por meio do jogo de ação e reação entre a criança e os adultos. Nesse jogo de desenvolvimento, os neurônios formam novas conexões no cérebro na medida em que a criança instintivamente faz expressões com o rosto, sons e gestos, e o adulto reage de maneira bem significativa e com o foco na ação da criança.

Isso começa bem cedo na vida, quando um bebê tenta se expressar e o adulto interage chamando a atenção do bebê para o seu rosto ou a sua mão. Essa interação forma as bases da arquitetura cerebral a partir da qual todo desenvolvimento futuro será construído. 

O jogo de ação e reação ajuda a criar conexões por meio dos neurônios em todas as áreas do cérebro, estabelecendo as habilidades emocionais e cognitivas que as crianças precisam para viver. Por exemplo: as habilidades de linguagem e de alfabetização se formam quando um bebê vê um objeto e o adulto pronuncia o nome desse objeto. Isso cria conexões dentro do cérebro do bebê entre sons específicos e objetos correspondentes. 

Mais tarde, os adultos mostram às crianças que tais objetos e sons também podem ser representados por marcas em uma página. Com apoio constante dos adultos, as crianças aprendem a decifrar essa escrita e, então, a escrever. Cada etapa se constrói a partir da anterior. 

Assegurar que as crianças tenham cuidadores envolvidos no jogo de ação e reação desde os primeiros meses é promover a construção de uma base sólida no cérebro para toda aprendizagem, o comportamento e a saúde pelo resto da vida. 

3. O estresse tóxico prejudica o desenvolvimento saudável

Aprender a lidar com o estresse é uma parte importante do desenvolvimento saudável. Quando vivenciamos a experiência do estresse, o sistema de resposta a ele é ativado, o corpo e o cérebro ficam em alerta, a adrenalina toma conta e os batimentos cardíacos aumentam, bem como os níveis de hormônios de estresse.

O estresse é aliviado quando a criança recebe apoio acolhedor de um adulto. O corpo da criança reage à resposta do adulto e, em pouco tempo, desacelera e volta ao normal. Em situações severas como abuso e negligência contínuos ou quando não há um adulto acolhedor para amortecer os impactos do estresse, a resposta ao estresse continua ativada. Mesmo quando não há dano físico aparente, a falta prolongada de atendimento por parte dos adultos pode ativar o sistema de resposta ao estresse.

A ativação constante de resposta ao estresse sobrecarrega os sistemas em desenvolvimento. O resultado disso são consequências sérias e duradouras para a criança, e esse processo é conhecido como estresse tóxico. Ao longo do tempo, ele resulta num sistema de resposta ao estresse permanentemente em alerta

A ciência mostra que a ativação prolongada aos hormônios de estresse na primeira infância pode reduzir o número de conexões neuronais nessas regiões importantes do cérebro num período em que as crianças deveriam estar desenvolvendo conexões novas. O estresse tóxico pode ser evitado se assegurarmos que os ambientes nos quais as crianças crescem e se desenvolvem são acolhedores, estáveis e estimulantes. 

Jack Shonkoff, diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, fala sobre o desenvolvimento na primeira infância e a saúde ao longo da vida. Ele explica que uma das mensagens mais importantes que vêm da nova ciência nos obriga a conectar o cérebro ao resto do corpo. “O que acontece no início não é importante apenas para o aprendizado, para o desenvolvimento social e emocional, e para o desempenho escolar, mas é uma influência importante em sua saúde física e mental para o resto de sua vida”.   

Jack também conta que não existem cérebros perfeitos ou sistemas imunológicos perfeitos. “Como crescemos, como aprendemos e como é a nossa saúde está relacionado com a interação entre a nossa programação genética individual ao nascer e sobre o que são as nossas experiências de vida. E a parte mais importante de nossas experiências de vida é o ambiente de relacionamentos em que crescemos. Assim como o ambiente físico também tem a sua importância. Quão seguro ele é? Quão protegidos ou expostos estamos a substâncias tóxicas no meio ambiente? Quanto espaço temos para nos movimentar? Todas essas coisas juntas, interagindo com a ideia de que todos são únicos do ponto de vista genético, resultam em uma ampla gama de desenvolvimento”. 

Como a pedagogia explica o desenvolvimento cognitivo:

Para entendermos como a pedagogia explica o desenvolvimento cognitivo, conversamos com a Carol Mota, que é pedagoga, psicopedagoga clínica e autora da obra “Autismo na Educação Infantil: Um Olhar para Interação Social e Inclusão Escolar“. Ela explicou que o brincar é a melhor forma de estimular esse desenvolvimento. 

“Na medida em que as crianças brincam, elas estão aprendendo o tempo todo. Quando brincam explorando algum brinquedo específico que envolve a questão espacial ou as questões sensoriais, por exemplo, vai estimular o raciocínio lógico e também a memória”, disse. 

“No momento em que brincam entre si, elas também estão aprendendo uma forma de se relacionar com o outro e isso vai expandindo os processos cognitivos. Precisamos pensar que, embora os processos cognitivos existam, eles não se expandem fora de um contexto cultural e de interação social. É interagindo com os outros, com troca interativa entre os pares, entre crianças ou adultos, que a criança se apropria de novas habilidades”, explicou a pedagoga. 

A interação é fundamental: 

Carol destacou que mais do que jogos que estimulam o raciocínio, o mais importante e fundamental é sempre a interação que acontece nesses momentos.

“A interação social, a troca interativa: é nela que vamos trabalhar essas questões de modo mais significativo. Na medida que interagimos, nos comunicamos e dialogamos com outra pessoa, nós precisamos refletir sobre o nosso comportamento, precisamos pensar em que resposta vamos dar a determinada pergunta. Conforme estamos refletindo e formulando questões, os nossos processos cognitivos estão ativos e nesse diálogo entre eu e o outro, é quando esses processos vão se expandindo, quando o desenvolvimento cognitivo vai emergindo”. 

“É com a brincadeira que as crianças vão aprender a utilizar seus corpos, partindo do contato com diferentes linguagens, que podem envolver música, artes plásticas etc. Assim, a criança vai conhecer o outro e o mundo através de diversas perspectivas diferentes, e isso auxilia nas habilidades cognitivas”, contou a psicopedagoga.

Texto: Débora Nazário

Importância da mentira, da fantasia e da imaginação na infância

Quem já ficou surpreendido com uma história contada por alguma criança? Uma narrativa de fantasia e imaginação cheia de detalhes e um enredo repleto de elementos quase inimagináveis

Provavelmente a sua resposta é sim. É muito comum que as crianças contem histórias com muitos detalhes para aqueles que convivem. 

As histórias e suas perspectivas vão mudando de acordo com a idade, pois elas acompanham o desenvolvimento dos pequenos. A capacidade de criar essas narrativas muda e vai ganhando novas formas e camadas. 

A infância é um universo muito propício para a imaginação, pois é a fase da vida onde aprendemos, observamos tudo e percebemos o mundo e os outros à nossa volta. Quando criança, percebemos e sentimos frustração, alegria, tristeza e vários outros sentimentos que nem sabemos nomear. 

As perguntas que ficam são: esses comportamentos, que são muito comuns na rotina das crianças, devem ser estimulados? Qual é a importância deles na infância? Eles podem contribuir com o processo de aprendizagem e autonomia? Vamos falar sobre esses e outros questionamentos abaixo, acompanhe!

O faz de conta como forma de expressão

É legal ver em quais momentos as narrativas cheias de imaginação são construídas pelas crianças e perceber aquilo que as deixam confortáveis. Dessa forma, será mais fácil entender qual é o “recado” que elas querem dar. Algumas vezes também não vai existir um “recado”, mas sim uma expressão do que elas enxergam e como conseguem externalizar as suas percepções

Segundo Deborah Moss, que é neuropsicóloga, especialista em comportamento infantil e mestre em psicologia do desenvolvimento, em entrevista concedida ao Portal Viver Bem da UOL, afirmou que “as crianças podem usar sua imaginação para criar um ou mais companheiros de brincadeiras e conceber cada um deles de uma maneira particular, para externalizar suas relações, o que sentem, ou aprendem no dia a dia. Essas representações têm a ver com entrar em contato consigo mesmo”. 

:: Veja também: Rimas na alfabetização: conheça os benefícios ::

Inventar diálogos: 

As crianças em diversas situações repetem aquilo que ouvem dos adultos. Muitas vezes elas dão voz a objetos e reproduzem os discursos que escutam. Elas usam a imaginação e criam diálogos entre esses objetos, inventam situações e também acabam encontrando soluções para os conflitos que elas próprias criaram. 

Essas brincadeiras são extremamente positivas pois enriquecem o vocabulário, treinam a fala e estimulam a capacidade de lidar com conflitos, mesmo que sejam todos de brincadeira. 

Amigos imaginários: 

É comum que crianças tenham amigos imaginários que os acompanham nas atividades do dia-a-dia.  

Durante muitos anos, os amigos imaginários foram associados com faltas de habilidades sociais, mas isso é um grande erro segundo a opinião da professora emérita Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon.

De acordo com Marjorie, esses amigos podem variar em relação à personalidade e nível de conexão com a rotina das crianças. Alguns são personagens de filmes, brinquedos reais, a própria imagem no espelho, partes do corpo, desenhos e outros, que trazem para a própria imaginação. O período de existência deles pode ser variável chegando a durar poucos dias ou até anos. 

Segundo a professora, os amigos imaginários podem ajudar a criança a lidar com problemas emocionais ou medos. Ela também disserta sobre como as crianças que têm amigos imaginários não apresentam desvantagens em cognição social, diferente do que muitos acreditavam há alguns anos. 

A tese de mestrado”A criação de amigos imaginários: um estudo com crianças brasileiras“, de Natália Benincasa Velludo, traz evidências de que “a criação de amigos imaginários não se associa a déficits em desenvolvimento, e pode inclusive ser um preditor de habilidades mais sofisticadas, como por exemplo, um vocabulário mais desenvolvido”. 

Ou seja, diferente do que a nossa cultura prega, crianças com amigos imaginários não têm problemas com atenção ou com atraso de desenvolvimento, e que essas crianças podem apresentar vocabulários mais robustos.

Desenvolvimento da autoconfiança 

Por meio de histórias e criatividade, as crianças podem criar personagens imaginários fortes, valentes e conseguem lidar com diversas situações. Quando os pequenos entram em contato com esses personagens, eles podem se “espelhar” nessas histórias e superar os seus medos e angústias com a ajuda desse incentivo. 

A psicóloga Sally Goddard Blythe e autora do livro The Genius of Natural Childhood: Secrets of Thriving Children afirma que “a imaginação é a capacidade de criar imagens visuais no olho da mente, o que nos permite explorar todos os tipos de imagens e ideias sem ser restringidos pelos limites do mundo físico. É assim que as crianças começam a desenvolver habilidades de resolução de problemas, surgindo com novas possibilidades, novas maneiras de ver e ser, que desenvolvem importantes percepções de pensamento crítico que ajudarão a criança por toda a vida.”

As crianças e as mentiras

Crianças mentem, independentemente da criação ou dos exemplos dos pais. Muitos defendem que crianças mentem para se defender, para fugir de uma situação que não querem enfrentar ou para conseguir o que desejam. E sim, isso acontece, mas não somente por isso. Os motivos pelos quais crianças mentem vão muito além e fazem parte do desenvolvimento cognitivo, da linguagem e da noção de realidade das crianças. 

Existem evidências de que o comportamento de contar mentiras na infância tem relação com o funcionamento executivo. Segundo um estudo publicado em 2008, as habilidades do funcionamento executivo surgem no final da primeira infância e vão se desenvolvendo ao longo de toda a infância, uma época em que os pesquisadores notaram aumento na habilidade de contar mentiras. 

Foi sugerido que o controle inibitório (capacidade de suprimir processos de pensamento ou ações interferentes) e a memória de trabalho (sistema para reter e processar temporariamente informações na mente) podem estar diretamente relacionados às mentiras das crianças. Ao mentir, a criança deve suprimir o relato da transgressão que deseja esconder, e representar e proferir a informação falsa que difere da realidade.

Para manter suas mentiras, as crianças devem inibir aqueles pensamentos e afirmações que são contrárias à sua mentira e que revelariam sua transgressão, mantendo na memória o conteúdo da mentira. Assim, para contar mentiras e mentir com sucesso, as crianças devem ser capazes de manter alternativas conflitantes em sua mente (ou seja, o que elas realmente fizeram / pensaram e o que disseram que fizeram / pensaram). 

Muitas mentiras contadas pelas crianças não têm um motivo aparente. Ou seja: não é para conseguir algo, para fugir de uma situação ou para chamar atenção. Elas mentem porque isso faz parte do processo de crescer. Crianças não sabem o conceito de moral e é durante a infância que experienciam algumas coisas relacionadas a isso. E mentir é um dos caminhos que as crianças naturalmente encontram para vivenciar esses conceitos sociais. A mentira têm um aspecto diferente para cada idade das crianças:

Crianças de 2 a 4 anos

Nessa idade, as habilidades de linguagem estão surgindo e as crianças ainda não sabem exatamente onde a verdade começa e termina. Nesse período, elas não conseguem manter as mentiras que contam.

As crianças menores também têm uma compreensão bem instável da diferença entre realidade, devaneio, desejos e vontades, fantasias e medos.

Ou seja, quando a criança é confrontada com algo que ela pegou sem permissão e ela nega, ela pode expressar o desejo de que não gostaria de ter pegado ao dizer que não pegou, muito por uma limitação de linguagem. 

Crianças de 5 a 8 anos

Entre as idades de 5 a 8 anos, as crianças contam mais mentiras para testar o que conseguem fazer, especialmente mentiras relacionadas à escolas – aula, deveres de casa, professores e amigos. Manter as mentiras ainda pode ser difícil, embora elas estejam se tornando cada vez melhores em escondê-las.

Segundo a psiquiatra pediátrica Elizabeth Berger, “os regulamentos e responsabilidades desta idade costumam ser demais para as crianças. Como resultado, as crianças muitas vezes mentem para apaziguar as forças que parecem exigir mais desempenho do que podem reunir”.

Crianças de 9 a 12 anos

A maioria das crianças dessa idade está no caminho certo para estabelecer uma identidade de esforçada, confiável e consciente. Mas elas também estão se tornando mais hábeis em manter mentiras e mais sensíveis às repercussões de suas ações, e podem ter fortes sentimentos de culpa depois de mentir.

Conversas diretas e mais longas sobre honestidade são definitivamente necessárias, pois haverá raros momentos de “mentirinha” em que alguma desonestidade é aceitável para ser educado ou poupar os sentimentos de outra pessoa.

Como lidar com as mentiras dos pequenos?

Enquanto mentir faz parte do desenvolvimento normal de uma criança, pais e educadores podem dar suporte para as crianças em três sentidos, segundo um artigo do Neuroscience:

Primeiro, evite punições. Um estudo comparou uma escola que usava correções punitivas (como bater com um pedaço de pau, estapear e beliscar) e uma escola que usava correções não punitivas, alunos da escola com punições punitivas eram mais prováveis de serem mentirosos eficazes. Ou seja, quanto mais você punir, mais a criança vai mentir para ficar fora dessa situação. Crianças inseridas em famílias que dão grande ênfase ao cumprimento das regras e não ao diálogo também relatam mentir com mais frequência. 

Em segundo lugar, discuta cenários emocionais e morais com as crianças. Este “treinamento emocional” apoia a compreensão das crianças e quando as mentiras são mais prejudiciais, como elas afetam os outros e como elas mesmas podem se sentir quando mentem. 

E por último, certifique-se de que a mentira é realmente uma mentira. Como já mencionamos, as crianças muito pequenas tendem a misturar a vida real e a imaginação, enquanto as crianças mais velhas e os adultos frequentemente se lembram dos argumentos de maneira diferente.

Por Débora Nazário e Luisa Scherer

Rimas na alfabetização: conheça os benefícios

A infância é marcada por grandes descobertas e uma delas é a alfabetização. Por meio da escrita e da leitura, as crianças passam a explorar um mundo até então desconhecido por elas.   

Esse processo pode acontecer com o apoio de métodos lúdicos que envolvem músicas, poemas e as rimas. Para estimular a fase de alfabetização, esses métodos são utilizados por muitos terapeutas e profissionais da educação, e apresentam resultados positivos na aprendizagem e desenvolvimento cognitivo

Este artigo publicado em 2014 pela Frontiers in Psychology afirma que as rimas podem ser especialmente facilitadoras para a aprendizagem do vocabulário por causa da maneira como elas podem apoiar previsões ativas sobre as palavras que se seguem.

Em dois experimentos, foram testadas se as rimas, quando usadas para ajudar as crianças a antecipar novas palavras, tornaria essas palavras mais fáceis de aprender. As crianças as quais foram expostas as rimas mostraram maior aprendizado de novos nomes na condição de rima preditiva nas comparações entre as crianças que não o foram. 

A hipótese dos pesquisadores é que o desenvolvimento dessas palavras novas e sua previsibilidade incentiva um maior envolvimento com elas por parte da criança. Uma criança pode não ser capaz de prever o nome exato de um nova palavra na primeira leitura de uma história, mas quando o novo nome vier no final da estrofe, a criança pode ser mais capaz de antecipar que algo está chegando, que vai soar como as terminações das linhas anteriores da história ou música. Essa antecipação pode encorajar a atenção, estimulando o aprendizado. 

:: Leia também: Por que a leitura é tão importante? ::

Tudo no seu tempo e no seu jeito 

O processo de aprendizagem que envolve a alfabetização é muito subjetivo e cada criança tem o seu próprio ritmo nesse percurso.  

Conversamos com a fonoaudióloga Manuella Barcelos, que atua no Núcleo Desenvolver do Hospital Universitário da UFSC desde 2010 e trabalha com uma equipe interdisciplinar de atendimento a crianças com queixas de dificuldade de aprendizagem sobre estes processos. 

Segundo ela, alfabetizar, ou seja, aprender a ler e a escrever, envolve dois processamentos cerebrais que a criança já tem bem desenvolvido antes mesmo de entrar na escola. Uma delas é a parte da linguagem, em que a criança já traz recursos e bagagem de casa; e o outro é o processamento visual.

A escola faz uma conexão entre essas duas áreas, apresentando esse novo universo das letras. Quando a criança aprende com base nessa questão, é essencial pensar que existe uma forma de ensinar que é a mais adequada para ela, que promove a alfabetização de uma maneira mais fácil e, nesse sentido, as rimas são ótimas aliadas

A consciência fonológica na alfabetização

“Consciência fonológica acontece quando a criança passa a manipular os sons da fala de forma consciente. Ela vai saber que a nossa fala pode ser dividida em unidades menores que são as palavras, em unidades ainda menores que são as sílabas, e unidades bem pequenas, que são os fonemas. Para a alfabetização acontecer, é importante que a criança aprenda esses pré-requisitos, e por meio de um método fônico é possível que ela alcance a alfabetização com mais facilidade”, relata a fonoaudióloga. 

Manuella utiliza as rimas no processo de alfabetização com as crianças que ela trabalha.  “O processo de alfabetização envolve a consciência fonológica. Dentro da consciência fonológica existe a rima, um dos primeiros sinais dessa consciência, que é quando a criança começa a perceber o final igual das palavras de mesma tonicidade. Além da rima existe a aliteração e, por meio dela, a criança percebe que o começo também pode ser igual, por exemplo: cobra e copo”, conta.

A rima é um dos primeiros sinais de consciência fonológica e vemos isso desde a educação infantil. O seu uso é muito importante. Eu utilizo no meu trabalho, principalmente com crianças que possuem dificuldade de aprendizagem e transtornos de aprendizagem como dislexia, ortografia ou crianças que tenham transtorno do processamento auditivo. Ela é fantástica no processo de alfabetização. É preciso estimularmos a consciência fonológica, mas é mais importante ainda estimularmos isso na educação infantil, antes mesmo de começar a alfabetização propriamente dita”, explica.  

As rimas como instrumento do desenvolvimento de habilidades

A pesquisadora canadense Ginger Muller desenvolveu trabalhos durante 20 anos usando rimas e canções em diversos programas de educação infantil em Vancouver, no Canadá. 

No seu trabalho, ela contextualiza rimas específicas dentro de domínios definidos pelo Instrumento de Desenvolvimento Inicial: saúde física e bem-estar, linguagem e desenvolvimento cognitivo, habilidades de comunicação e conhecimentos gerais, competência social e maturidade emocional. Dessa maneira, ela mostra como as rimas podem ser praticadas de forma eficaz com crianças de diferentes idades e os seus benefícios para essas habilidades

Neste artigo ela mostra que as crianças aprendem bem em ambientes ricos em linguagem, alegria e diversão. Ginger apresenta canções que podem auxiliar no desenvolvimento dessas habilidades, “rimas e canções infantis centenárias, testadas e comprovadas, apoiam o desenvolvimento geral das crianças em termos de significado e formas envolventes”, escreve. 

Utilizar as rimas com as crianças, além de auxiliar no processo da alfabetização, também as aproximam da cultura nacional. Há diversas rimas que contam com elementos da cultura dos estados brasileiros, regiões e também histórias sobre o folclore. Esse contato vai ser enriquecedor para as crianças em diversos sentidos!

Por Débora Nazário

Nota da Editora: Truth and Tales e as rimas

Uma dica muito legal para crianças em fase de alfabetização é o Truth and Tales, o nosso aplicativo original!

Truth and Tales é um app para crianças de 5 a 11 anos com histórias interativas e audiobooks. Todos os contos são rimados, tanto na versão interativa quanto só para ouvir as histórias. Sabendo desse benefício, fizemos questão de adotar as rimas nas histórias do app.

Foram feitos testes com crianças mostrando a mesma história rimada e sem rimas. E foi comprovado: além dos benefícios, as crianças se interessaram mais pela versão rimada da história.

Além das rimas, o Truth and Tales também conta com fontes otimizadas para pessoas com dislexia, e com a ferramenta de read along, que funciona como um karaokê, onde as palavras ficam destacadas à medida que o narrador lê. Isso ajuda bastante na alfabetização. Experimente com as crianças!

A eficácia do dever de casa para crianças pequenas

É raro encontrarmos uma criança que goste de fazer o dever de casa. Sabemos que “Já fez a lição?” é uma frase bem comum entre as famílias, e geralmente vem seguida de um cabo de guerra entre pais e filhos.

Hoje em dia, crianças cada vez mais jovens chegam em casa depois da escola com pilhas de lição de casa. Será que os deveres são mais importantes do que brincar e descansar? Até que ponto que a lição de casa é realmente eficaz e necessária?

Traduzimos uma matéria do site Salon que traz uma pesquisa sobre até onde as lições de casa têm benefícios para estudantes do primário do ensino fundamental.

Reavalie e questione

Não há evidências de que qualquer quantidade de dever de casa melhora na performance acadêmica de estudantes do primário.

Esta citação foi feita por Harris Cooper, que pesquisador da Duke University. Será verdade que as horas de brincadeiras perdidas, lutas pelo poder (conhecidas também como “manhas”) e muitas lágrimas roladas são inúteis? Que milhões de famílias passam por um ritual noturno que não ajuda? O dever de casa é uma prática tão aceita que é difícil para a maioria dos adultos questionar seu valor.

Mas ao olhar com mais cuidados aos fatos, é isso que vai encontrar: dever de casa tem benefícios, mas é intimamente dependente e relacionado com a idade da criança.

O que as pesquisas mostram sobre o dever de casa

Para crianças do ensino primário, pesquisas sugerem que estudar durante as aulas promove resultados de aprendizado mais altos, enquanto trabalhos da escola para fazer em casa são apenas… trabalho extra.

Do 6º ao 9º ano a relação entre sucesso acadêmico e dever de casa é, na melhor das hipóteses, mínimo. Quando as crianças atingem o ensino médio, dever de casa oferece benefícios acadêmicos, mas apenas com moderação. Cerca de duas horas por noite é o limite. Depois dessa quantidade, os benefícios diminuem.

Etta Kralovec, professora de Educação na Universidade do Arizona, concorda: “A pesquisa é muito clara. Não há benefícios quando estão no primário do ensino fundamental.”

Antes de continuar, vamos desmistificar que os resultados da pesquisa são devidos a estudos mal construídos. Na verdade, é o oposto. Cooper compilou 120 estudos em 1989 e outros 60 em 2006.

A análise abrangente que ela fez em cima dos estudos compilados não encontrou evidências acadêmicas de benefícios nas séries primárias do ensino fundamental. No entendo, encontrou um impacto negativo na atitude das crianças em relação à escola.

Qual o impacto?

É isso que preocupa. Dever de casa tem impacto nos estudantes mais novos, mas não é positivo. Uma criança que acabou de entrar na escola merece uma chance de desenvolver o amor pelo aprendizado.

Ao invés disso, dever de casa nos primeiros anos escolares faz com que muitas crianças se voltem contra a escola, contra as futuras lições de casa e o aprendizado acadêmico. E é uma longa jornada. Uma criança no jardim de infância tem que lidar com 13 anos de dever de casa a sua frente.

Também tem os danos nas relações pessoais. Em milhares de lares pelo país, a batalha do dever de casa é diário. Pais incomodam e tentam persuadir os filhos a fazer a tarefa. Crianças cansadas protestam e choram. Ao invés de se conectar e dar suporte uns aos outros no fim do dia, muitas famílias se veem presas no cíclico “Você fez o dever de casa”?

Crianças pequenas e o dever de casa

Quando o dever de casa é dado muito cedo, é difícil para as crianças mais novas terem que lidar com as tarefas de forma independente — elas precisam de um adulto para lembrá-las dos deveres e descobrir como fazê-los.

As crianças criam o hábito de contar com os adultos para ajudá-las a fazer a lição de casa, ou, em muitos casos, para fazer as suas tarefas. Os pais assumem com frequência o papel da “patrulha da lição de casa”.

Ser o chefe irritante é uma tarefa chata que ninguém quer ter, mas isso se mantém até o ensino médio. Além do conflito constante, ter uma patrulha dos deveres em casa desvia de um dos principais propósitos da lição de casa: ter responsabilidade.

Os apoiadores dos deveres de casa defendem que as lições ensinam responsabilidade, reforçam as atividades aprendidas na escola e criam um link escola-casa com os pais.

Contudo, pais que se envolvem na vida escolar dos seus filhos podem ver o que volta na mochila da criança e iniciar o hábito de compartilhar os aprendizados do dia — eles não precisam monitorar a tarefa de casa para saber o que seus filhos tiveram naquele dia na escola.

E a responsabilidade?

Responsabilidade é ensinado diariamente de diferentes formas: é para isso que servem os animais estimação e as tarefas de dentro de casa. É preciso de responsabilidade para uma criança de 6 anos lembrar de trazer seu chapéu e sua lancheira de volta para casa.

É preciso responsabilidade para uma criança de 8 anos se vestir, arrumar sua cama e ir para a escola todos os dias. São tarefas que precisam ser reforçadas e relembradas todos os dias, mas não são os únicos fatores de aprendizado.

Prioridades não-acadêmicas (uma boa noite de sono, o relacionamento familiar e hora de brincar) são vitais para o equilíbrio e bem-estar. Elas também impactam diretamente na memória, foco, comportamento e potencial de aprendizado das crianças.

As lições fundamentais são ensinadas e reforçadas todos os dias em sala de aula. O tempo de depois da escola é precioso para o descanso da criança.

O que funciona mesmo

O que funciona melhor que o dever de casa tradicional, para as crianças do primário, é ler simplesmente em casa: pais lendo em voz alta para as crianças, ou as crianças lendo sozinhas. O segredo é fazer da leitura um momento de prazer. Se a criança não quiser praticar as habilidades de leitura depois de um longo dia na escola, leia para ela.

Qualquer projeto de casa deve ser opcional e ocasional. Se a tarefa não promove mais alegria em relação à escola e interesse em aprender, então não há lugar para a atividade nas salas de aula de crianças do primário.

Dever de casa não tem espaço na vida de uma criança pequena. Sem benefícios acadêmicos, há maneiras melhores de utilizar o tempo nos horários depois da escola.