fbpx

O que é Homeostase

Você já deve ter ouvido diversas vezes a frase: “o corpo humano é uma máquina perfeita”. Mas já parou para pensar o que garante todo esse funcionamento diante da complexidade que nos constitui? Quando sentimos a pele arrepiar de frio ou quando suamos depois de praticar exercícios físicos, são respostas fisiológicas que têm como objetivo manter a temperatura interna do corpo em equilíbrio. É justamente nesse ponto que podemos falar de homeostase, que atua na manutenção do funcionamento do nosso corpo. 

O que é homeostase? 

O corpo humano precisa estar em equilíbrio para garantir o seu funcionamento. Em entrevista para o UOL, Nicolle Queiroz, que é cardiologista e professora do curso de medicina da Universidade de Santo Amaro (Unisa), explica que o suor, por exemplo, faz parte de um mecanismo que se chama homeostase, que é onde se regula a temperatura corporal para as funções do corpo aconteçam sem prejuízo. 

O professor Kelvin S. Rodolfo da Universidade de Illinois começa explicando em entrevista para a Scientific American o que é homeostase partindo do significado da palavra. “A homeostase, tem origem das palavras gregas “igual” e “estável”, refere-se a qualquer processo que os seres vivos usam para manter as condições ​​necessárias à sobrevivência estáveis. O termo foi cunhado em 1930 pelo médico Walter Cannon. Seu livro The Wisdom of the Body descreve como o corpo humano mantém níveis estáveis ​​de temperatura e outras condições vitais, como água, sal, açúcar, proteína, gordura, cálcio e o oxigênio no sangue. Processos semelhantes mantêm as condições de estabilidade no meio ambiente da Terra de forma dinâmica”. 

Já a explicação sobre o conceito de homeostase feita pelo professor Doutor Ismar A. de Moraes da Universidade Federal Fluminense resgata a definição criada por Claude Bernard, um famoso fisiólogo francês: “todos os mecanismos vitais, apesar de sua diversidade, têm apenas uma finalidade: a de manter constantes as condições de vida no ambiente interno.” 

Ismar comenta que devemos entender a homeostase como sendo esta tendência à manutenção das condições internas de um organismo sempre dentro de parâmetros normais ou fisiológicos. De acordo com a sua posição na escala evolutiva, os seres vivos podem apresentar maior ou menor capacidade de adaptação ao meio-ambiente. 

“A cada momento em que existir uma tendência a um desequilíbrio, os mecanismos de homeostase se apresentarão para garantir a regulação ou retorno à normalidade. Isso vale, entre tantas outras, para a regulação do pH corporal assim como para a termorregulação e circulação”, escreve.  

:: Leia também: Histórias que utilizam o humor são benéficas para o cérebro e o desenvolvimento cognitivo ::

Qual é a importância da homeostase? 

A homeostase atua principalmente no funcionamento dos sistemas nervoso e endócrino. Quem coordena as ações do organismo é o sistema nervoso, e o sistema endócrino indica “o que deve ser feito” por cada órgão.

Se um sistema ficar sob condições que provoquem alterações e, dessa forma, esse sistema enfrenta instabilidades, a tendência dele é agir para combater essas alterações, e a homeostase tem papel fundamental nesse processo

O professor Kelvin S. Rodolfo também cita a importância dos processos de controle de temperatura  do corpo humano. “Por exemplo, o corpo humano usa uma série de processos para controlar sua temperatura, mantendo-a próxima a um valor médio ou norma de 98,6 graus Fahrenheit (37 graus Celsius). Uma das respostas físicas mais óbvias ao superaquecimento é o suor, que esfria o corpo ao disponibilizar mais umidade na pele para evaporação. Por outro lado, o corpo reduz a perda de calor em ambientes frios suando menos e reduzindo a circulação sanguínea na pele. Assim, qualquer mudança que aumente ou diminua a temperatura normal dispara automaticamente um feedback contrário, oposto ou negativo. Aqui, negativo significa apenas oposto, não é mau; na verdade, ele atua para o nosso bem-estar neste exemplo.”

Ele enfatiza que todas essas reações homeostáticas são inevitáveis ​​e automáticas e vão acontecer naturalmente se o sistema estiver funcionando de maneira adequada. Os sistemas operam juntos nesses processos. 

“O rubor é outra das respostas automáticas do corpo ao aquecimento: a pele fica vermelha porque seus pequenos vasos sanguíneos se expandem automaticamente para trazer mais sangue aquecido para perto da superfície, onde pode esfriar. O tremor é outra resposta ao frio: os movimentos involuntários queimam o tecido corporal para produzir mais calor corporal”, explica. 

Kelvin S. Rodolfo explica ainda que a oscilação é um comportamento comum e necessário de muitos sistemas e que os próprios sistemas promovem essas oscilações acima e abaixo do nível de equilíbrio.

Os sistemas homeostáticos evoluíram ao longo dos anos para auxiliar os organismos a manterem suas funções ideais em diferentes ambientes e situações. Mas muito além disso, de acordo com um artigo publicado em 2013 pela National Library of Medicine (National Center for Biotechnology Information), um grupo de cientistas teorizam que a homeostase fornece principalmente um “fundo silencioso” para células, tecidos e órgãos se comunicarem uns com os outros. A teoria propõe que a homeostase torna mais fácil para os organismos extraírem informações importantes do ambiente e sinais de transporte entre as partes do corpo.

Homeostase para além da fisiologia

Saindo um pouco das explicações sobre a homeostase em nosso organismo, o professor Kelvin S. Rodolfo conta que a homeostase encontrou aplicações úteis também nas ciências sociais. “Refere-se a como uma pessoa sob tensões e motivações conflitantes pode manter uma condição psicológica estável. Uma sociedade mantém sua estabilidade de forma homeostática apesar da competição entre fatores políticos, econômicos e culturais. Um bom exemplo é a lei da oferta e demanda, segundo a qual a interação da oferta e da demanda mantém os preços de mercado razoavelmente estáveis”. 

Fontes: 

Essential Nutrition

Scientific American

Texto: Débora Nazário

NOTA DA EDITORA:

O corpo precisa voltar para a homeostase quando se depara com um fator de estresse. Quando pensamos nesse fato de estresse, normalmente lembramos de uma gripe onde o corpo fica fraco ou febril pois está combatendo uma infecção; ou um dia muito frio em que não estamos agasalhados suficientemente, e o corpo se treme todo para gerar calor e não perder temperatura. 

Mas também há o estresse psicológico, quando estamos preocupados com algo ou sobrecarregados. Nosso corpo tem uma série de respostas frente ao estresse, e cada pessoa reage de uma forma. Tem gente que dorme, tem gente que sente vontade de comer doces, há quem perde o apetite, tem intestino que para de funcionar e tem gente que precisa ir ao banheiro cinco vezes ao dia. Tudo isso é o nosso corpo mostrando que há um desequilíbrio que pode ser emocional. 

As crianças também sofrem de estresse e também podem ter respostas como falta de apetite, desregulação do sono ou irritabilidade. É preciso estar atento e buscar ajuda de pediatras e psicólogos caso identifique algum destes avisos. 

O Truth and Tales, nosso aplicativo de bem-estar infantil, conta com algumas atividades que podem ajudar as crianças a voltarem para a homeostase. Os contos interativos e audiobooks são Teaching Stories, histórias milenares com uma estrutura que permite a flexibilização do cérebro, dando espaço para desenvolvimento de algumas habilidades mais finas e, dentre elas, o foco e atenção. 

Também oferecemos exercícios de integração corpo e mente, onde ajudam a restaurar a homeostase. De forma lúdica e divertida, as crianças dão espaço para perceber seus corpos e seus sentimentos, colocando atenção nelas mesmas. 

As Fábulas Gregas Como Histórias Para Crianças

As fábulas existem em culturas ao redor de todo o mundo e são usadas como instrumento de transmissão de sabedoria. As fábulas gregas são muito famosas, principalmente na cultura ocidental, e estão presentes desde a primeira infância de muitas pessoas. Elas estão em livros infantis, didáticos e paradidáticos, e são transmitidas oralmente em sala de aula e dentro de casa.

Origem das fábulas gregas

Não se sabe exatamente a origem das fábulas gregas, mas a história se refere a Esopo, um contador de histórias nascido supostamente no século VI A.C. ou VII a.C. na Ásia Menor e, posteriormente, levado para a Grécia como escravo. 

Um dos primeiros livros conhecidos impressos na gráfica de Gutenberg, em 1476, foram as fábulas de Esopo. Jean de La Fontaine, um francês que viveu no século XVII, foi um grande divulgador das fábulas de Esopo.

Segundo Teón de Alexandria, um professor de matemática e astronomia e estudioso de obras de autores clássicos que viveu no ano de 335 a 400 d.C, “A Fábula é uma história inventada ilustrativa da verdade”. 

O que são fábulas

As fábulas contam com o uso de personagens animais com características humanas. Segundo a InfoEscola, as fábulas “fazem uma analogia entre a realidade humana e a situação vivida pelos personagens com o objetivo de ensinar algo ou provar alguma verdade estabelecida”, como Teón de Alexandria pontuou. Muitos chamam essa verdade estabelecida de lição de moral. 

A contação de histórias é uma forma universal e antiga de entretenimento, e por isso a fábula tem o propósito de impactar e elucidar valores morais, éticos e sociais de uma forma agradável, gentil, efetiva e não ameaçadora. 

As fábulas gregas são usadas como uma ferramenta didática para mostrar as regras éticas, morais e sociais de uma população, para que as pessoas (geralmente crianças) as aprendam sem a necessidade de vivenciar alguma situação parecida.

Por serem bem antigas e propagadas oralmente ao longo da história, as fábulas gregas sofreram alterações e transformações ao longo do tempo. A “lição de moral” no final das fábulas, por exemplo, não existia e as pessoas ficavam livres para entender e refletir sobre a história. 

A lição de moral nas fábulas gregas

A lição de moral seja, talvez, a parte mais popular das fábulas. A lição de moral é um item que está em todos os artigos publicados sobre fábulas, em sites de pesquisa, em livros de informação, em como construir uma fábula, e por aí vai. Consigo até lembrar de algumas frases que vêm das lições de moral das fábulas: “devagar e sempre”; “todas as ações geram consequências”; “nenhuma gentileza é em vão”.

No livro “A Companion to the Works of Gotthold Ephraim Lessing”, o autor John Pizer traz alguns pontos importantes levantados por Lessing, um poeta, dramaturgo, filósofo e crítico de arte alemão que viveu no século XVIII. Segundo Lessing, os ensinamentos morais das fábulas têm de ser intuitivos. Para ele, descrever uma raposa como astuta, um cão como fiel ou um galo como orgulhoso, é parte de uma semiótica da alegoria, que é quando há uma necessidade de descrição narrativa aberta ao ligar os atributos morais de um animal ao seu caráter. 

Lessing diz que numa fábula simples, onde não há essa semiótica da alegoria, tais associações são diretamente intuídas, ou seja, não há necessidade em rotular o personagem porque o leitor irá perceber suas características. Segundo ele, a semiótica de alegoria bloquearia a cognição intuitiva de uma verdade moral ao não permitir que a imaginação do leitor fizesse seu próprio trabalho. Esse processo de cognição intuitiva está no cerne da famosa definição sumária de fábula de Lessing, que pressupõe a percepção do evento narrado como real, percepção que a descrição detalhada, dada sua qualidade “inanimada”, só pode confundir. 

Diante do posicionamento de Lessing, deixamos aqui o questionamento: será que não é mais rico deixar a criança pensar por ela mesma qual o ensinamento da história? Será que há só uma moral da história numa fábula? E se há mais coisas que não estamos enxergando por achar que a moral da história que nos foi ensinada é a certa?

:: Você também pode se interessar: Histórias que utilizam o humor são benéficas para o cérebro e o desenvolvimento cognitivo ::

O efeito das fábulas na infância:

De acordo com Theda Detlor no livro “Aesop´s Fables – Reproducible Read-Aloud Tales With Instant Activities that Get Kids Discussing, Writing About & Acting on the Important Lessons in The Wise & Classic Stories”, as fábulas ajudam as crianças numa série de pontos:

  • Desenvolver o entendimento das metáforas: crianças são desafiadas a relacionar uma série de ações concretas a uma  determinada moral, conseguir abstrair de algo específico para algo mais geral, e a entender a linguagem figurativa. Isso promove o pensamento de alto nível à medida que as crianças desenvolvem suas habilidades para interpretar significados e metáforas, fazer interferências e julgamentos, e criar soluções alternativas.
  • Levar questões éticas para a vida real: crianças desenvolvem e aplicam pensamentos críticos sobre os eventos das histórias a uma variedade de questões éticas e as usam numa série de eventos do mundo real.
  • Construir uma comunidade na sala de aula: através de discussão e debate, as crianças aprendem a ouvir umas às outras e expressar suas opiniões sobre comportamentos éticos. Elas aprendem a extrair e expandir o significado de histórias e a discutir questões da vida real usando o raciocínio moral. Tais reflexões dão às crianças uma base ética na sala de aula, à medida que exploram temas e valores que irão criar uma comunidade solidária e ética.
  • Ajudar no processo de alfabetização: a estrutura concisa e a linguagem das fábulas têm um efeito incrível em pequenos leitores e escritores. Crianças aprendem a reconhecer a estrutura das narrativas previsíveis e seus padrões, e aplicar isso em suas próprias criações.
  • Construir o desenvolvimento ético e moral: usando o contexto compartilhado das histórias, as crianças sentem-se confortáveis para explorar o domínio moral, desenvolvendo o pensamento crítico sobre questões éticas e refletindo sobre seus próprios valores.

As Fábulas Gregas mais famosas:

A Cigarra e a Formiga:

Uma cigarra gostava de cantar e curtir a vida sem se preocupar com o futuro. Já a formiga trabalhava bastante para guardar alimento, principalmente durante o verão, para ter o que comer no inverno.

Enquanto a formiga trabalhava, a cigarra cantava, e falava para a formiga parar de trabalhar e cantar com ela. Até que o inverno chegou e a cigarra não tinha o que comer. E a formiga, que trabalhou o verão todo, estava preparada com os alimentos que havia guardado.

A Lebre e a Tartaruga:

A lebre e a tartaruga viviam numa floresta. A lebre sempre provocava a tartaruga por causa da sua lentidão e, certo dia, a tartaruga resolveu desafiar a lebre para uma corrida, que aceitou na certeza de que ganharia.

Dada a largada, as duas começaram a correr. A lebre foi bem mais rápida que a tartaruga, e resolveu parar para descansar antes da linha de chegada. Por causa disso, a tartaruga passou a lebre e ganhou a corrida.  

A Raposa e as Uvas:

Uma raposa estava com muita fome e, andando por um pomar, viu um cacho de uvas. A raposa viu que as uvas estavam maduras e perfeitas para serem comidas. Viu que estava sozinha e que o caminho estava livre, e decidiu colher os frutos. As uvas estavam no alto, mas a raposa não poupou esforços para tentar pegá-las, mesmo com as limitações. Tentou alcançar as uvas de diferentes formas.

Depois de várias tentativas frustradas, a raposa estava exausta e desapontada, além de faminta. Sendo assim, ela deu de ombros e, dando-se por vencida, deu meia volta e foi embora. Frustrada por conta das tentativas mal sucedidas, a raposa tentou consolar-se dizendo: “Na verdade, olhando com mais atenção, as uvas estavam estragadas e não maduras como elas aparentavam quando as vi pela primeira vez”.

O Leão e o Ratinho:

Numa floresta vivia um leão temido por todos os animais. Certo dia, ele dormia na sombra de uma árvore depois de caçar e já de barriga cheia. Foi quando o leão foi acordado um ratinho, que passeava por cima dele.

O leão acordou nervoso e prendeu o ratinho debaixo de sua pata. O ratinho também ficou apavorado e implorava para o leão não comê-lo. O ratinho pediu tanto que o leão o deixou ir embora.

Algum tempo depois, o leão estava andando na floresta quando, sem perceber, ficou preso na rede de caçadores. Ele rugia de raiva pois não conseguia se soltar. O ratinho, que estava ali perto, foi ver o que estava acontecendo e viu que o leão estava preso numa armadilha. Ele não perdeu tempo e roeu as cordas que prendiam o leão.

Nota da Editora

Sabendo que as fábulas são ferramentas para o desenvolvimento de várias funções na infância, também as trouxemos para o Truth and Tales, o nosso aplicativo de contos interativos para crianças. 

Leo, o Leão é um dos contos do Truth and Tales disponíveis nos formatos interativo e audiobook. Leo, o Leão, tem semelhanças com os contos de Rumi e com as fábulas de Esopo, com as indianas e com as afegãs. O conto interativo é uma adaptação para a tecnologia onde a criança pode rugir como um leão, fazer música com as flores e até se ver como um leão através da ferramenta de Realidade Aumentada. Também deixamos o conto sem moral da história porque acreditamos que, desta forma, a criança possa ficar livre para perceber os aprendizados e sabedorias do conto, que podem ser infinitos. 

Baixe o app e experimente os contos interativos e audiobooks!

Histórias que utilizam o humor são benéficas para o cérebro e o desenvolvimento cognitivo

A infância é um período repleto de aprendizados e, como já explicamos neste texto, o desenvolvimento cognitivo está sendo estimulado a todo tempo quando somos pequenos. Histórias que utilizam o humor também têm um papel importante nesse desenvolvimento.

A cada novo estímulo que as crianças recebem, elas passam a explorar o mundo, os sentidos e, dessa maneira, aprendem e interagem com o ambiente que as cerca. A leitura de histórias é uma forma de estimular esses aprendizados. 

Neste texto, apresentamos informações de que a leitura estimula o crescimento de matéria branca no cérebro, que é um conjunto de fibras nervosas no cérebro que o ajudam a aprender e funcionar. 

Os benefícios das histórias com humor para as crianças

Os pesquisadores Olufolake Orekoya, Edmund SS Chan e Maria PY Chik, ambos da Universidade Batista de Hong Kong, escreveram o artigoHumor e motivação para leitura em crianças: as cócegas funcionam?” onde explicam como a leitura e, principalmente, a literatura com elementos de humor, pode ser benéfica para o aprendizado das crianças. 

Eles apresentam uma investigação de dois anos sobre aprendizagem e ensino de literatura infantil realizadas por cinco universidades com alunos do ensino fundamental, que revelou que a maioria das crianças prefere ler livros que as façam rir

Os resultados mostraram ainda que o que torna os alunos leitores ativos são livros de histórias engraçadas. O estudo relatou as preferências das crianças sobre a leitura, que vão desde histórias engraçadas, histórias de aventura, fantasia e outros. 

As crianças são facilmente adaptáveis ​​ao vínculo entre humor e criatividade, que auxiliam no desenvolvimento cognitivo. Conforme as crianças vão crescendo, ou seja, quando tornam-se mais maduras cognitivamente, elas podem apreciar diferentes formas de humor presentes nas histórias.

Leitura, humor e desenvolvimento cognitivo

O artigo afirma que a apreciação do humor está intimamente relacionada ao desenvolvimento cognitivo. Quando uma criança está envolvida na apreciação do humor, ela pretende terminar um exercício de resolução de problemas para identificar e desdobrar as incongruências ocultas abaixo dos estímulos de humor (Zigler, Levine, & Gould, 1967).

A literatura acadêmica confirma os benefícios e a importância do humor para a aprendizagem social na escola a nível cognitivo, afetivo e comportamental, uma vez que facilita o ambiente de aprendizagem lúdica, diminui a ansiedade de aprendizagem, estimula a motivação de aprendizagem dos alunos e aprofunda relação professor-aluno (Davies & Apter, 1980). 

Quando as crianças lêem textos humorísticos, elas se envolvem em um “jogo cognitivo”, “onde as palavras e conceitos são usados ​​de maneiras que são surpreendentes, incomuns e incongruentes, ativando esquemas com os quais não estão normalmente associados” (Martin, 2007, p. 109; Shultz & Robillard, 1980). 

Segundo Rod A. Martin, a leitura como atividade cognitiva pode ativar a emoção positiva de alegria (ou seja, prazer), levando ao aprimoramento da criatividade, memória e virtudes sociais que incluem senso de responsabilidade, ajuda e generosidade. 

As teorias do humor

John Morreall que é Doutor em Filosofia e Professor Emérito no College of William and Mary em Williamsburg, avaliou três teorias tradicionais do riso e do humor: a Teoria da Superioridade, a Teoria do Relevo e a Teoria da Incongruência. A partir dessas teorias, ele apresentou uma nova na qual afirma que o humor é um jogo cognitivo.

John vai explicar que nem sempre o riso é sobre pessoas e, portanto, não há necessidade de comparação de pessoas, como o que era afirmado na Teoria da Superioridade do humor. Ele conta que podemos ser divertidos por um comediante de palco tendo uma impressão perfeita de alguma estrela de cinema sem nos comparar com aquele comediante ou estrela de cinema. E mesmo que nos comparemos com pessoas de quem estamos rindo, não precisamos nos julgar superiores a elas. Eles podem nos fazer rir ao nos surpreender com habilidades que nos faltam, por exemplo. 

Durante dois mil anos a Teoria da Superioridade era a explicação mais aceita para explicar o humor. As teorias que surgiram posteriormente, já no século 18, foram a Teoria do Relevo e a Teoria da Incongruidade. Já a Teoria do Alívio, que surgiu também neste mesmo período, dizia que o riso funciona como uma válvula de escape em um tubo de vapor, liberando a energia nervosa acumulada.

Essa teoria, contudo, passou a ser questionada. O ato de falar e, nessa fala, existir elementos de humor, não parece exigir emoções, além de que algumas experiências de diversão também dependem apenas da surpresa. A Teoria da Incongruência foi uma das mais aceitas no século 20, já que afirmava que o humor é uma reação a algo que viola nossos padrões mentais e expectativas

As reflexões acerca das teorias do humor

Diante das teorias do humor apresentadas, o professor John Morreall elencou quatro percepções. Primeiro, o humor é um fenômeno cognitivo – envolve percepções, pensamentos, padrões mentais e expectativas. Em segundo lugar, o humor envolve uma mudança de estado cognitivo. Em terceiro lugar, essa mudança cognitiva é repentina. E em quarto lugar, a diversão é prazerosa

A esses insights ele adicionou outros: 

1) o humor é uma atividade não séria em que suspendemos a preocupação prática e a preocupação com o que é verdade. 

2) o humor é principalmente uma experiência social.

3) o humor é uma forma de jogo em cujo riso serve como um sinal de jogo. Cunhando o termo mudança para uma mudança repentina, podemos dizer que o humor envolve o prazer de mudanças cognitivas.

Juntando todas essas ideias, ele apresentou a seguinte teoria da diversão humorística:

A risada causa nas pessoas uma experiência de mudança cognitiva e que seu desligamento lúdico e seu prazer são expressos em risadas, que sinaliza para os outros que é possível relaxar e aproveitar a mudança cognitiva.

Como o humor afeta o cérebro

Brian David Boyd, professor da Universidade de Auckland da Nova Zelândia, em artigo publicado chamado “Riso e literatura: uma teoria lúdica do humor”, explica que o riso, embora muitas vezes desencadeado por palavras, é em si pré-verbal e não verbal

Segundo trecho do artigo, “risos e soluços são “as duas primeiras vocalizações sociais que as crianças fazem”. Ao contrário da fala, eles são muitas vezes involuntários, socialmente contagiantes e com valência emocional consistente. Eles não requerem uma boa articulação, mas apenas uma alternância da presença e ausência de sons vocais, sobrepostos a posturas bucais relativamente mais estáveis, e seu motor a atividade depende do mesencéfalo e dos circuitos do tronco encefálico, e não do centros superiores da fala”. 

O treinamento para o inesperado

Essa partilha confiante de expectativas que acontece na comunicação verbal é essencial para o jogo social. Isso também ocorre em jogos ou brincadeiras, para que haja espaço possível para o inesperado.

Expectativas compartilhadas em que permitem que surpresas nos peguem desprevenidos, que simulam riscos e estimulam a recuperação, são a chave não só para todos os tipos de jogos, mas também para humor. Nas piadas, muitas vezes somos preparados para a surpresa, mas apesar de buscar antecipar uma resolução inesperada, a piada ainda nos pega desprevenidos, mas de uma forma que permite tropeçar em nossas expectativas para ser seguido por uma rápida recuperação de equilíbrio.

O riso nos une

O artigo também fala que nosso próprio reconhecimento de que compartilhamos tais expectativas nas interações com os outros torna a nossa diversão socialmente vinculativa, da mesma forma que o jogo físico, através de sua dependência do comportamento daqueles que interagem. 

Se uma pretensa piada não nos pega de surpresa, não vamos achar engraçada. Por outro lado, lançar uma piada com preparação insuficiente do seu contexto também pode não causar riso no outro. 

Mas se nossa expectativa diante de uma narrativa de piada foi preparada, se sabemos que uma piada está chegando e nós ainda acharmos que a piada nos pega de surpresa, vai ser ainda mais engraçado: assemelha-se exatamente à relação entre a expectativa geral aguçada de jogo e os animais humanos – que especialmente gostam de brincar. 

Por fim, o professor Brian apresenta em seu artigo um questionamento feito pelo filósofo Daniel C. Dennett: o que homo sapiens ganha com o riso? Por que o riso e o humor teriam evoluído como comportamentos que importam tanto para nós?

E a resposta dele foi a seguinte: “O riso, ao sinalizar nosso prazer no jogo cognitivo, convida e nos encoraja a preparar surpresas divertidas uns para os outros. Jogando socialmente com nossas expectativas, ele reforça nosso senso de solidariedade, nosso reconhecimento do enorme conjunto de expectativas que compartilhamos; nos treina para lidar com e até mesmo buscar o inesperado que nos cerca e pode ampliar ainda mais as nossas expectativas. O riso pode também oferecer uma “advertência lúdica” para aqueles que divergem deles de maneiras que rejeitamos.”

Débora Nazário

NOTA DA EDITORA

Agora que já sabemos que a função do humor nas histórias e da preferência das crianças por contos engraçados, vamos de dicas de leitura!

O Truth and Tales, app que desenvolvemos, tem histórias cheias de humor e reviravoltas! As histórias são Teaching Stories, que você pode saber mais aqui. As Teaching Stories costumam usar bastante o humor para trabalhar o preparo ao inesperado, por exemplo. Além de dar um toque todo especial para a história. 

O conto A Criança e o Dragão do Truth and Tales traz vários personagens engraçados e diálogos cheios de humor, além de reviravoltas que o leitor não espera.

Baixe o app e experimente ler, ouvir e jogar nossas histórias!

Adolescentes, TikTok e redes sociais: como os pais podem ajudar no equilíbrio saudável entre o limite e a diversão

Você provavelmente ouviu falar no TikTok, a rede social que só cresce e se populariza entre todas as faixas etárias, mas principalmente entre adolescentes. Foi lá que começaram as dancinhas que se vê em todo lugar – e parece que vão continuar se popularizando por um bom tempo. 

No começo de julho Fernanda Rocha Kanner postou em suas redes sociais um longo texto falando sobre a experiência que teve com sua filha Nina, de 14 anos, no TikTok. Fernanda decidiu apagar a conta do TikTok de Nina, com cerca de 2 milhões de seguidores, e sua conta no Instagram. No texto de Fernanda, ela explica o motivo: não quer que a filha passe pela adolescência se emocionando com elogios ou com críticas de quem não conhece, além de achar que atrapalha na descoberta e busca pela individualidade da filha. 

O post viralizou e muitos se colocaram tanto contra quanto à favor da decisão e opinião de Fernanda. Achamos esse tema interessante para pensar no uso das redes sociais por adolescentes. Até onde pode? Esse limite é tão óbvio assim? Tirar o adolescente do TikTok vale a pena?

Diálogo, equilíbrio, regras e claridade

Nós achamos que tudo deve ser conversado. No final das contas, os adolescentes são responsabilidade dos pais e estes prezam pela segurança dos filhos. Pensando nisso, achamos que o melhor caminho é sentar com os filhos e discutir sobre até onde pode e quais são as consequências. Os adolescentes podem até ultrapassar esses limites (muito provavelmente vai acontecer), mas eles saberão que passou do combinado e que terão de lidar com as consequências.

Antes de tomar qualquer decisão, vale lembrar que a infância e principalmente a adolescência são fases onde queremos fazer parte de um grupo, queremos ser aceitos, percebidos, mostrar nosso valor e sentir que somos valorizados. Por isso que os adolescentes gostam tanto das redes sociais como o TikTok, com os likes, visualizações e seguidores. O excesso disso pode ser prejudicial, mas acreditamos que em todas as gerações de adolescentes havia um “fator perigoso”, algo que os adultos se preocupavam porque não conheciam direito, que não gostavam, ou não entendiam. 

Por isso, manter o diálogo é importante. Ok, adolescentes não gostam de conversar com os pais. Mas vale a forcinha nesse quesito, fica mais fácil de perceber quando seus filhos podem precisar de ajuda, além de reforçar que sempre têm o apoio dos pais. Veja bem: não é uma questão de convencimento para os filhos pensem como os pais, mas de clareza e entendimento nas regras e no que foi combinado.

Vale lembrar:

A idade permitida para usar o TikTok no Brasil e Estados Unidos é 13 anos. Usuários mais novos do que essa idade podem ter uma conta no app, mas não é permitido postar nenhum tipo de conteúdo. Infelizmente, essa regra não é muito efetiva, já que é possível criar uma conta colocando outra idade. E é claro que as crianças sabem disso e criam contas no TikTok e outras redes com datas de nascimento que permitem que postem conteúdos.

Algumas medidas podem ajudar na segurança online dos adolescentes no TikTok e outras redes

Deixar o perfil dos filhos privado:

Quando criamos uma conta no TikTok ou outra rede social, escolhemos entre dois tipos de perfil: o público ou o privado. O perfil público é quando qualquer pessoa pode visualizar seus conteúdos, onde você não tem controle de quem pode acessá-los. No perfil privado, apenas os seus amigos/seguidores podem ver o que você posta. Se alguém quiser ser seu amigo/seguidor, a pessoa precisa mandar uma solicitação e você precisa aceitar. Ou seja, você tem total controle das pessoas que acessam o seu perfil e seu conteúdo, e você sabe exatamente quem vê o que você posta. Ter um perfil privado impede que qualquer pessoa visualize o que o adolescente posta e que você acorde com 2 milhões de pessoas seguindo seus filhos nas redes sociais.

Apenas pessoas que seus filhos conheçam: 

Perfis privados no TikTok e outras redes sociais permitem que apenas as pessoas aceitas pelo dono do perfil podem visualizar o conteúdo. Por isso, leve como uma regra: só pode adicionar pessoas conhecidas.

Converse sobre exposição no TikTok e Instagram:

A internet ainda é um lugar de muitos julgamentos, inclusive sobre o corpo (seja lá qual for). Oriente que seus filhos não postem fotos íntimas, sensuais, ou que mostrem muito o corpo, por mais que eles não tenham essa intenção. Outros usuários podem interpretar de diversas maneiras e seus filhos podem ser alvos de slut-shaming (em tradução livre, seria um “tachar de vadia” por violar códigos de vestimentas ou socialmente aceitos) ou body shaming (termo usado para “vergonha do corpo” onde, na prática, é quando ridicularizam e fazem chacota do corpo de outras pessoas),  principalmente meninas. 

O slut-shaming é o ato de humilhar, diminuir e menosprezar uma pessoa, geralmente mulher, por sua vida sexual, pela forma que ela se veste, fala ou se expressa. Um exemplo é quando uma mulher usa uma roupa considerada curta e ouve xingamentos e comentários negativos sobre sua aparência, seu corpo e sua postura como mulher na sociedade. 

Já o body shaming é a fiscalização ao corpo alheio: o bullying quando a pessoa está muito gorda; muito magra; tem muita celulite; seios grandes; seios pequenos, etc. É o bullying na forma de pressão estética. O body shaming ocorre mais entre meninas do que entre meninos, mas é preciso ficar atento independente disso. 

Essas duas formas de bullying atingem o corpo dos adolescentes e pode contribuir para distorções perceptivas do próprio corpo e até distúrbios alimentares. 

Também vale orientar a não postar imagens de onde mora, do uniforme escolar, e coisas que podem identificar os lugares e rotinas de seus filhos. Além de informações pessoais como número de identidade, CPF, etc.

Faça uma conta no TikTok e acompanhe o que seus filhos fazem online (lembre-se de avisá-los que você está os seguindo):

Dessa forma, você consegue ver mais de perto o que eles postam e as pessoas que os acompanham. Muito provavelmente eles terão um grupo de “Melhores Amigos” no Instagram sem você, para postar coisas que não querem que você veja. Mas tudo bem, né? Não queremos dividir absolutamente tudo com todos.

Veja o que os adolescentes fazem nas redes:

Mergulhe nesse mundo e tente entender por quê seus filhos gostam tanto das dancinhas, se for importante para eles. Mostre que você tem interesse pelo que eles gostam. Não precisa se obrigar a gostar, mas demonstre que você tem interesse em conhecer o mundo deles e, principalmente, entender que isso tem valor para eles. Muitos adolescentes não querem que seus pais se interessem pelo que eles gostam, mas ficam mais tranquilos quando sabem que os pais entendem que aquilo é importante para eles. 

Não diminua o que eles gostam ou compartilham: 

Falar que as dancinhas (conteúdo bem popular no app) não servem pra nada ou qualquer tipo de julgamento sobre o que eles fazem traz uma carga muito negativa para o adolescente. Pense bem: se eles procuram por aceitação através disso, imagine como eles se sentem quando seus pais falam que isso é ridículo ou qualquer coisa negativa.

Ouvir seus pais falando de forma depreciativa do que eles gostam é muito fácil que adolescentes pensem de forma depreciativa sobre eles mesmos. Exemplo: “dancinhas são péssimas e eu gosto de dancinhas. Logo, sou péssimo.”, que é claro que não é verdade, mas é fácil de cair nisso já que é uma fase que a identidade está muito ligada a comportamentos e interesses. Além de tudo, isso afasta os pais dos filhos. Se seus pais vivem diminuindo as coisas que você gosta, porque você continuaria dividindo seus interesses, o que você faz e etc com eles? 

Com essas medidas, não será necessário tomar atitudes mais drásticas como excluir a conta dos seus filhos.

Caso as redes sociais dos seus filhos tomem proporções maiores do que você gostaria, o que fazer?

Nesse caso, excluir a rede social é uma opção, mas saiba que seus filhos não irão gostar da decisão e podem sentir que você não valoriza o que eles trabalharam tanto. Acreditamos que é possível tentar algumas coisas antes de tomar uma medida mais drástica:

  • Deixar o perfil privado e diminuir as publicações ou até não aparecer por um tempo: sim, a conta ainda terá muitos seguidores, mas impedirá que cheguem novos. E com a diminuição de conteúdo, os seguidores naturalmente também diminuem. 
  • Se tiver conteúdos que você acha perigoso, deixe claro que seus filhos não poderão mais postá-los. Também vale excluir esses conteúdos que você considera perigoso.

Caso você ainda opte por excluir as redes sociais deles, deixe que se despeçam do seu público. Muitos adolescentes consideram seus seguidores como uma rede de apoio e até mesmo como amigos. Ajude-os a fazer um texto e a gravar vídeos se despedindo e informando a seus seguidores o que irá acontecer. 

Sabemos que a adolescência é uma fase em que os filhos não querem os pais por perto, e tudo bem. Mas é importante cuidar e acompanhá-los, sem sufocar ou invadir a privacidade. Esperamos que todos consigam levar tudo isso de forma mais saudável.

:: Leia também: Como os games e jogos eletrônicos ajudam no desenvolvimento da visão espacial ::

Como os games e jogos eletrônicos ajudam no desenvolvimento da visão espacial

Visão espacial é um termo conhecido por aqueles que desenvolvem games e aplicativos ou mesmo entre profissionais da educação, mas pouco discutido por aqueles que não atuam nessas áreas. 

A visão espacial começa a ser desenvolvida desde quando somos bebês. Elizabeth Spelke é psicóloga e pesquisadora de estudos do desenvolvimento em Harvard, e estuda o desenvolvimento cognitivo das crianças desde 1980.  

Num artigo publicado por Spelke no ano passado afirma que os bebês conseguem distinguir mudanças de ângulos e formas em desenhos. Através de gestos, os pequenos também aprendem a desenvolver senso de geometria. 

Conversamos com Vânia Cristina Pires Nogueira Valente para falar sobre como a visão espacial se manifesta e é aprimorada por meio de games.

Vânia Cristina Pires Nogueira Valente é vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia – Mestrado Profissional – FAAC/Unesp, livre docente em Representação Gráfica, docente da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, e autora do livro Desenvolvimento da visão espacial por games digitais, publicado pela Editora Appris

O que é visão espacial? 

Segundo Vânia, visão espacial é uma série de capacidades. É uma habilidade que não é nata, ou seja, você não nasce com isso e desenvolve ao longo da vida.

“A visão espacial não é um dom, é algo que você desenvolve assim como você aprende a escrever ou a andar de bicicleta. A visão espacial é aprimorada e desenvolvida, e pode ser melhorada cada vez mais. Essa habilidade envolve imaginar objetos e coisas tridimensionais, e conceber alguma construção na sua cabeça.

“Por exemplo, o Waze é um mapa bidimensional, mas você consegue imaginar a estrada e a esquina que você vai virar. O processo de conseguir converter esse 2D em 3D significa que você tem a habilidade de visão espacial bem desenvolvida. Ou quando você imagina um dado e consegue imaginar esse dado virando: isso é a visão espacial trabalhando”. 

Como podemos desenvolver a visão espacial? 

A professora conta que é preciso desenvolver habilidades cognitivas antes de desenvolver a visão espacial. “É necessário ter rapidez de raciocínio, noção de distância, rapidez de resposta e reflexo. É por isso também que em esportes de contato, onde é necessário ter um objetivo para atingir e calcular o tempo para se livrar do adversário, como o futebol, existem várias habilidades que são desenvolvidas, e tudo isso ajuda a desenvolver a visão espacial”.

“São várias dessas habilidades juntas, como rapidez de raciocínio e reflexo, que os games também auxiliam nesse desenvolvimento, como por exemplo os jogos de tiros, onde o jogador tem que se desvencilhar de adversários e, para isso, é necessário ter rapidez de raciocínio.”

Vânia cita o jogo Overwatch em seu livro como exemplo de jogos de ação, que também estimulam as habilidades para o desenvolvimento da visão espacial. Jogos em que existe velocidade geralmente pede rapidez de resposta. Muitos deles também contém vários elementos na tela que o jogador precisa prestar atenção. Todos esses elementos desenvolvem habilidades que levam a aprimorar a visão espacial, segundo Vânia. 

“Eu gosto de alguns jogos mais específicos, como o Minecraft, onde você pode olhar objetos de diferentes pontos de vista. Você consegue navegar pelo espaço, pelo ambiente do jogo e você vê o mesmo objeto de várias posições: de cima, de frente e de lado. Isso faz com que o cérebro consiga montar objetos em 3D a partir destas visões. Indico o Minecraft para os meus alunos, para exercitar a habilidade de visão espacial deles”, explica. 

Uma visão espacial desenvolvida pode ser necessária para diversas profissões: 

Os benefícios do desenvolvimento da visão espacial propicia diversas habilidades necessárias para várias profissões, segundo Vânia.

“No meu caso, como dou aula para cursos de engenharia, design, de desenho técnico, os alunos precisam desenhar os objetos, projeções, plantas, desenhos vistos de cima e de frente e, para isso, eles precisam ter a habilidade espacial muito bem desenvolvida”. 

“Eu notava nas minhas aulas que os alunos que jogavam games ou praticavam esportes de ação e contato, como futebol, tinham mais facilidade que outros. Profissionalmente é muito importante ter a visão espacial desenvolvida, e para a vida pessoal também.”

Vânia comenta que a visão espacial também é extremamente importante no ato de dirigir já que, para conduzir o veículo, o motorista deve ter atenção em diversos pontos, assim como calcular o espaço, velocidade etc. 

Nota da editora

Agora que já vimos que muitos jogos eletrônicos ajudam no desenvolvimento da visão espacial, pode surgir a dúvida: mas e a questão das crianças e jogos violentos? Esse assunto é discutido abertamente desde que os videogames se consolidaram como um entretenimento entre os jovens, há pelo menos 20 anos. 

É claro que, quanto mais tarde apresentar jogos violentos para a criança, melhor. Mas jogar esse tipo de jogo no computador ou videogame não necessariamente torna a criança violenta. A mudança comportamental das crianças não tem apenas um motivo, o que também não exclui a possibilidade de jogos violentos serem um gatilho para comportamentos agressivos. Isso depende de quanto tempo essa criança joga por dia, se há um diálogo entre ela e os pais, se irmãos ou irmãs mais velhas jogam esses jogos e até da personalidade da criança.

Opinião do especialistas

Até mesmo a opinião dos especialistas é dividida neste assunto. Há os que defendem que jogos eletrônicos influenciam sim no comportamento das crianças, e os que defendem que não é algo que tenha um único fator, e que há uma série de acontecimentos, e não um isolado, que podem levar a esse tipo de comportamento.

Até hoje é difícil achar um artigo que dê um veredicto sobre isso. Muito provavelmente porque há muitas questões envolvidas: participação dos pais na vida da criança, relacionamento dessa criança com seus responsáveis, questões socioeconômicas, de gênero, de personalidade, e por aí vai.

Um dos únicos consensos é em relação ao tempo de tela de acordo com a idade da criança. Várias Associações e Conselhos de Pediatria ao redor do mundo indicam nenhum tempo de tela para crianças menores de 2 anos. A partir dessa idade, começa com 30 minutos e vai aumentando ao longo da faixa etária. 

Outro consenso é em relação às crianças que se isolam nos jogos eletrônicos, que é um sinal de alerta. Crianças que costumam jogar no computador e videogame mas que fazem outras atividades, têm outros hobbies, vão na casa de amigos, brincam com outros brinquedos e passam tempo com a família têm uma relação diferente com os eletrônicos das crianças que se isolam no computador e videogame. Se seus filhos se isolam, vale dar mais atenção a eles, oferecer outro tipo de atividade, fazer mais passeios, perguntar sobre seus amigos e etc, e ajudá-los no que for necessário.

Análise de Harvard

Uma análise de 2010 da Harvard Health Publishing, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, traz artigos de especialistas de vários lados da moeda. Alguns artigos, mais recentes na época, argumentam que muitos estudos sobre a questão da violência na mídia dependem de medidas para avaliar a agressão que não se correlacionam com a violência do mundo real – e ainda mais importante, muitos trazem abordagens observacionais que não provam causa e efeito. 

Segundo esse documento, “Embora os adultos tendem a ver os videogames como isolantes e antissociais, outros estudos descobriram que a maioria dos jovens entrevistados descreveu os jogos como divertidos, emocionantes, algo para conter o tédio, algo para fazer com os amigos. Para muitos jovens, o conteúdo violento não é a atração principal.

“Os meninos, em particular, são motivados a jogar videogame para competir e vencer. Visto neste contexto, o uso de videogames violentos pode ser semelhante ao tipo de brincadeira violenta em que os meninos se envolvem como parte do desenvolvimento normal. Os videogames oferecem mais uma saída para a competição por status ou para estabelecer uma hierarquia.”

O que pode ser feito em casa

O nosso ponto é: não é o fim do mundo se seus filhos jogam jogos eletrônicos violentos. Se esse for o caso e você tem preocupações, faça o básico: 

  • Mostre interesse por aqui que seu filho tem interesse. 
  • Tente entender porque ele/a gosta tanto. 
  • Jogue com ele/a, converse sobre isso. 
  • Pesquise sobre o jogo e busque informações. 
  • Fique atento às mudanças de comportamento e pergunte para a criança o que ela pensa, ao invés de ter certeza de que sabe da resposta.
  • Incentive a praticar esportes
  • Lembre que é importante que crianças tenham um limite de tempo de telas! Se não tem isso na sua casa, veja se faz sentido para você e sua família. Falamos sobre isso aqui
  • Veja se seus filhos estão jogando jogos que estão de acordo com a faixa geracional deles.*

*Por exemplo: crianças de 7 anos jogando um jogo para 16 anos é, sem dúvidas, inapropriado. Se isso acontecer, pesquise outras opções parecidas e divertidas para oferecer para essa criança, em troca do primeiro. Por exemplo: se está jogando jogo de tiros, pesquise uma opção de jogo de paintball, onde a mecânica é a mesma, mas não há a mesma violência.

Por outro lado, é muito comum adolescentes de 13 ou 14 anos jogarem jogos com idade indicativa para 16 ou 18 anos. É o ideal? Não, mas proibir só causa mais revolta, neste caso. Para fazer essa avaliação, leve em consideração algumas particularidades dos seus filhos como maturidade, sensibilidade a alguns temas e converse com eles sobre os conteúdos que aparecem no jogo (armas, violência ou qualquer outro tema que você ache inapropriado para a idade. Nessa idade, o diálogo é melhor do que tirar o jogo da criança). Mas uma criança de 7 a

Posicionamento Truth and Tales: não recomendamos que crianças menores de 4 anos consumam conteúdos em telas

Jogo “Fato ou Opinião” ajuda crianças a identificarem fake news

As chamadas fake news, que são notícias que contém opiniões passadas como verdade ou informações falsas, são compartilhadas por muitas pessoas centenas de vezes, principalmente por meio das redes sociais. Esses dados e informações, por vezes, são interpretados por aqueles que as veem como um fato inquestionável. Diante dessa grande quantidade de notícias compartilhadas a todo minuto, como podemos identificar quais são verdadeiras e quais são falsas? Vamos te apresentar o jogo Fato ou Opinião, que é bem legal para ajudar as crianças identificarem as fake news!

Samantha Diegoli, diretora da escola Avalon, de Florianópolis, compartilhou um jogo simples e muito útil para as crianças desenvolverem as suas capacidades de observação e discernimento mental para identificar essas fake news, além de auxiliar no manejo emocional. Esse jogo é útil para os adultos também, já que as fake news chegam a todos nós.

No vídeo publicado no YouTube da Avalon, Sami fala do jogo: “nós ensinamos as crianças a não engolirem uma informação só porque alguém importante falou ou porque foi de algum site, ou da Wikipédia. Nós dizemos: vamos buscar as evidências. A é um fato e B é uma opinião. Vamos buscar o A atrás desse B”.

Ela explica também que o jogo é muito interessante para trabalhar a emoção. “Quando estamos falando de interpretações, normalmente o nosso estado emocional fica muito mais ativo. Inclusive, as discussões que temos, sejam no trabalho ou em casa, normalmente é uma opinião querendo convencer a outra pessoa de qual das duas é verdade, mas não é nenhuma das duas. Então envolve muito o emocional, ativa muito o emocional. Quando chegamos em um fato, o emocional acalma. Então nós usamos muito isso para inclusive para trabalhar o emocional”. 

Antes de ensinar sobre o jogo especificamente, vamos apresentar algumas definições. 

O que é um fato? 

O fato é algo que é possível visualizar e que as pessoas junto com conseguem ver a mesma coisa. Ou seja, um fato pode ser visto por todos de forma igual. 

Se eu descrever esse fato ou outra pessoa descrever o fato, teoricamente, se for um fato, a descrição vai ser a mesma. 

O que é uma opinião? 

A opinião é uma interpretação, ou seja, é uma descrição com um “toque pessoal”.

A opinião pode ser uma descrição, mas contém uma opinião pessoal em cima dela. A interpretação ou a opinião dá margem para que outra pessoa diga “Eu não estou de acordo”.

Exemplo: “Hoje está muito quente”. Essa informação é um fato ou interpretação/opinião? 

Se você pode responder “Eu não acho”, é uma interpretação. Então, “Hoje está muito quente” é uma interpretação pessoal, de como alguém está sentindo o dia. 

O que seria um fato se aplicado nesse contexto? 

O fato seria se hoje estivesse marcando 35ºC no termômetro. Dessa forma, podemos concluir que um fato é quando todos podem ver o mesmo. 

Qualquer pessoa que disser “eu não acho que está calor”, nós podemos ver a temperatura e notar que é um fato, já que a temperatura está alta. A descrição desta temperatura, ou seja, se está calor ou não está calor, é uma opinião pessoal, não um fato.  

Podemos dizer então que, diante de uma opinião, podemos discordar daquilo que foi dito. 

:: Leia também: Jogos e brincadeiras de criança: como é bom! ::

Vamos treinar “Fato ou Opinião”? 

Abaixo há algumas frases e você pode dizer se é uma opinião ou interpretação. 

Vamos imaginar juntos um tablado de madeira e uma gata em cima desse tablado. Em volta dela há algumas flores, árvores e um gramado. Essa imagem será útil para ilustrarmos os exemplos a seguir. 

Exemplo 1:

“Olha gente, que gata mais fofinha.” Fato ou opinião? 

A gatinha fofinha é uma opinião. Mesmo que muitos de nós tenham imaginado a gata fofinha, continua sendo várias opiniões. 

Lembre-se: várias opiniões iguais não transformam essa opinião em um fato, elas continuam sendo opiniões. 

Exemplo 2:

“Tem uma gata muito fofa aqui do meu lado.” Fato ou opinião?

Que a gata está do meu lado é fato. Se ela é muito fofa, como já vimos, é uma opinião. 

Exemplo 3:

“Olha só sente, a gata está curtindo a natureza e sentindo o cheiro das flores.” Fato ou opinião? 

A gatinha curtindo a natureza é totalmente uma opinião, pois não sabemos o que ela está fazendo ali, se ela viu um besouro ou algum outro animal. Então é uma opinião. 

Exemplo 4:

“Essa gatinha que se chama Lua subiu aqui em cima do meu tablado.” Fato ou opinião? 

Com essa frase nós podemos pensar: será que essa gata se chama Lua? Se vocês quiserem comprovar que é um fato, é necessário perguntar o nome dela a sua dona ou a alguém que a conheça. Mas sim, a gatinha se chama Lua, então é um fato. 

A segunda parte da frase: “Ela subiu aqui em cima do meu tablado”. Na verdade, parece muito um fato, mas ninguém sabe se ela subiu ou se alguém a colocou ali. Ela realmente subiu, é um fato, mas quem não viu ela subindo não vai saber como ela foi parar nesse local. 

Exemplo 5:

“A gatinha está deitada ali em cima do tablado de madeira.” Fato ou opinião? 

É um fato, já que todos podem ver que a gata está deitada sobre um tablado de madeira. 

Agora vamos para o jogo “Fato ou Opinião”

O jogo pode ser feito em família ou com várias pessoas, e a ideia é que possamos falar frases para o outro analisar e dizer se é um fato ou uma opinião. Ele pode ser praticado em casa ou quando se está no carro, já que ao redor estão acontecendo coisas que poderão ser usadas como elementos do jogo. 

Vão sendo ditas frases e a criança vai adivinhar ou deduzir se isso é um fato ou se é uma opinião. Um exemplo: “Olha, tem uma mulher de camiseta vermelha sentada naquele banco.” Fato ou opinião? Ou pode-se dizer também: “Olha, que mulher magrinha”, isso é fato ou opinião? E assim a brincadeira segue. 

No começo são indicadas frases mais simples. De início pode-se fazer cinco frases que sejam fatos e depois outras cinco frases que sejam opinião. 

Na medida em que pais e crianças vão ficando mais experientes no jogo, nós começamos a falar uma opinião como se fosse um fato para pegar o outro. Cada vez que acertamos ganhamos pontos e quando não acertamos o outro ganha pontos e nisso consiste o jogo. 

Exemplo no nível 1 do Fato ou Opinião:

Estamos andando de carro e vejo uma pessoa passando de bicicleta e digo: “Tem uma mulher andando de bicicleta aqui na rua.” Fato ou opinião? A resposta é um fato, porque não contém nenhuma opinião ou interpretação. 

E como seria um nível 2 do Fato ou Opinião

Exemplo: “Olhem, essa mulher está andando de bicicleta aqui na rua para emagrecer.” Fato ou opinião?

Nesse caso a criança tem que identificar que foi utilizado um fato, já que uma mulher está andando de bicicleta, mas depois disso foi inserida uma opinião. Ou seja, metade é fato e a outra metade é uma opinião e por isso esse é um nível mais avançado. 

Dica importante: existem algumas palavras ou expressões, que quando elas aparecem, podemos ter certeza de que não é um fato. Algumas dessas expressões são: sempre, nunca, tudo, nada, todo mundo, ninguém, tal coisa deveria ser. Sempre que existem essas palavras, podemos dizer que é uma opinião. 

Bom jogo e se divirtam!

:: Você também pode se interessar: O que é Desenvolvimento Cognitivo? ::

Débora Nazário

Fazer o bem faz bem? Como a bondade genuína afeta o cérebro

Quando oferecemos ajuda para alguém, ou quando olhamos para o próximo com compaixão e, a partir disso, tomamos alguma atitude, estamos praticando a bondade. Esses atos que podem passar despercebidos pela nossa rotina fazem muito bem para o outro e também para nós mesmos. Sabe aquela sensação que você sente depois de praticar a bondade? Ela faz parte dos efeitos que a bondade genuína causa no nosso cérebro

A bondade ativa regiões de recompensa de nosso cérebro

Em 2018, um grupo de pesquisadores britânicos da University of Sussex afirmou que atos de generosidade ativam as regiões de recompensa do cérebro.

O estudo analisou 1.150 participantes cujos cérebros foram escaneados através de exames de ressonância magnética (fMRI) ao longo de um período de dez anos com um diferencial nessa análise: a comparação feita entre o verdadeiro altruísmo e a bondade estratégica, ou seja, aquelas atitudes que são feitas esperando algo em troca ou algum tipo de reconhecimento. 

“Este grande estudo levanta questões sobre as pessoas que têm motivações diferentes para dar aos outros: interesse próprio claro versus o sentimento caloroso do altruísmo”, afirmou o líder da pesquisa, Dr. Daniel Campbell-Meiklejohn em um comunicado publicado logo após a divulgação do estudo. 

“A decisão de compartilhar recursos é a pedra angular de qualquer sociedade cooperativa. Sabemos que as pessoas podem escolher ser gentis porque gostam de se sentir uma ‘pessoa boa’, mas também que as pessoas podem escolher ser gentis quando pensam que pode haver algo nisso em benefício delas, como um favor retribuído ou reputação melhorada” afirmou. 

A recompensa é maior quando agimos com uma bondade que não é estratégica

Os pesquisadores descobriram que as decisões estratégicas de bondade mostraram maior atividade nas regiões do corpo estriado do cérebro do que as escolhas altruístas, que são aquelas que não se espera nada em troca. O corpo estriado atua na memória não declarativa ou implícita, que são as memórias subconscientes e algumas habilidades como andar de bicicleta ou patinar no gelo. Ou seja, atividade que fazemos “no automático”.

Já a bondade genuína, mais do que estratégica, ativa o córtex cingulado anterior subgenual (sgACC). O córtex pré-frontal ventromedial (vmPFC) está envolvido durante decisões generosas e o processamento através de um eixo posterior para anterior diferencia esses dois tipos de bondade. O córtex pré-frontal ventromedial posterior foi recrutado preferencialmente durante as decisões altruístas. Dessa forma, os pesquisadores concluíram que é muito mais prazeroso quando  somos bondosos de uma maneira genuína.

A bondade genuína, mais do que a estratégica, ativa uma parte do cérebro chamada córtex cingulado anterior subgenual (sgACC). Estudos mostraram que  o volume médio de matéria cinzenta do sgACC é anormalmente reduzido em indivíduos com transtorno depressivo maior (TDM) e transtorno bipolar, independentemente do estado de humor. 

O córtex pré-frontal ventromedial (vmPFC) está envolvido nas decisões generosas e é responsável por diferenciar esses dois tipos de bondade. O córtex pré-frontal ventromedial participa do processamento de risco e de medo, já que faz um importante papel na regulação da atividade da amígdala. O vmPFC também desempenha um papel importante na inibição de respostas emocionais e no processo de tomada de decisão e autocontrole, além de estar envolvido no senso de moralidade.

Após essas análises, os pesquisadores concluíram que é muito mais prazeroso quando somos bondosos de forma genuína.

A ciência da bondade 

Ao pesquisar sobre os efeitos da bondade em nosso cérebro, encontramos a Random Acts of Kindness Foundation, uma organização sem fins lucrativos que investe recursos para tornar a gentileza amplamente praticada pelas pessoas, seja em casa, na escola ou no ambiente de trabalho. 

Essa iniciativa é baseada em estudos científicos que comprovam que podemos viver melhor ao praticar a bondade. Para embasar essas evidências, o site da fundação apresenta pesquisas sobre o tema que vamos listar abaixo.  

A bondade aumenta o hormônio do amor: 

O hormônio do amor chamado ocitocina é liberado quando realizamos atos de bondade. Essa liberação ajuda a reduzir a pressão arterial e a melhorar a saúde geral do coração. – Natalie Angier, The New York Times

Energia: 

Metade dos participantes de um estudo relatou se sentirem mais fortalecidos e com mais energia depois de ajudar os outros. Alguns relataram também se sentirem mais calmos e menos deprimidos. – Christine Carter, UC Berkeley, Greater Good Science Center

Felicidade: 

Uma pesquisa de felicidade da Harvard Business School de 2010 em 136 países descobriu que as pessoas que praticam a bondade genuína eram mais felizes de modo geral. 

Prazer:

De acordo com uma pesquisa da Emory University, quando você é gentil com outra pessoa, os centros de prazer e recompensa de seu cérebro se iluminam, como se você fosse o destinatário da boa ação – não o doador. Este fenômeno é chamado de “alta do ajudante”.

:: Leia também: O que é Desenvolvimento Cognitivo? ::

Praticar a bondade pode diminuir a ansiedade 

Um estudo realizado pela professora Dr. Lynn Alden da University of British Columbia e pela psicóloga Jennifer Trex indica que a ansiedade social pode diminuir ao praticar a bondade.

Para a pesquisa, os autores recrutaram 115 estudantes de graduação que apresentavam altos níveis de ansiedade social. Esses participantes foram divididos de maneira aleatória em três grupos para uma intervenção que durou quatro semanas. 

Um dos grupos foi incentivado a realizar atos de bondade; outro grupo foi exposto a interações sociais; e o terceiro não recebeu instruções, foi pedido apenas que os participantes fizessem registros de suas rotinas. Os resultados mostraram que a maior diminuição no desejo de evitar interações sociais foi observada entre os indivíduos que foram incentivados a realizar atos de gentileza.

O que a Professora Lynn Alden diz

“O objetivo central do tratamento para o transtorno de ansiedade social é aumentar o envolvimento em situações sociais, que os indivíduos socialmente ansiosos costumam evitar. Os exercícios de exposição social podem ser aprimorados encorajando indivíduos ansiosos a se concentrarem em ações amáveis. Portanto, abrir a porta para um vizinho que está empurrando um carrinho de bebê, agradecer aos balconistas da mercearia pela ajuda ou oferecer um café para um colega de trabalho pode ser uma boa maneira de começar a exposição social”, relatou a professora. 

A professora Lynn Alden explicou também que atos de bondade podem ajudar a combater o medo da pessoa socialmente ansiosa de uma avaliação negativa de terceiros, promovendo percepções e expectativas mais positivas de como as outras pessoas irão reagir.

“Descobrimos que qualquer ato gentil parecia ter o mesmo benefício, mesmo pequenos gestos como abrir a porta para alguém ou dizer “obrigado” ao motorista do ônibus. A gentileza não precisa envolver dinheiro ou esforços demorados, embora alguns de nossos participantes o fizessem. A gentileza nem precisava ser “cara a cara”. Por exemplo, atos de bondade podem incluir doar para uma instituição de caridade ou colocar uma moeda no parquímetro de alguém quando você perceber que ele está piscando. Estudos feitos por outros pesquisadores sugerem que é importante que o ato gentil seja feito por si mesmo, e que não pareça coagido ou seja feito para benefício pessoal. Tirando isso, vale tudo”, explicou. 

Praticar a bondade pode retardar o envelhecimento

A ocitocina, hormônio produzido através do calor emocional, age na redução dos níveis de radicais livres e a inflamação no sistema cardiovascular e, dessa forma, retarda o envelhecimento na origem. Os radicais livres e a inflamação no sistema cardiovascular desempenham um papel relevante e é por isso que podemos dizer que a bondade faz bem também para o coração. 

Algumas revistas científicas já publicaram estudos sobre a forte ligação entre a compaixão e a atividade do nervo vago. O nervo vago, além de regular a frequência cardíaca, também é responsável por controlar os níveis de inflamação no corpo. 

Um estudo analisou a meditação de budistas tibetanos e descobriu que a bondade e a compaixão auxiliam na redução da inflamação no corpo, provavelmente devido aos seus efeitos no nervo vago.

Essas análises estão presentes no livro “The Five Side Effects of Kindness: This Book Will Make You Feel Better, Be Happier & Live Longer” escrito pelo Dr. David R. Hamilton, que é formado em Química Orgânica e trabalhou durante vários anos na indústria farmacêutica desenvolvendo medicamentos para tratar doenças cardiovasculares. 

NOTA DA EDITORA

Todas essas informações falam da bondade genuína. Genuíno significa puro, real, verdadeiro. É importante levar isso em consideração porque ninguém pode cobrar atos de bondade genuína das pessoas. Essas ações vêm de forma espontânea, direto do coração.

Aos papais e mamães: dar o exemplo realmente é uma forma de mostrar para as crianças como fazer o bem faz bem, mas forçar situações não é a solução. Se você não está num dia bom, não force nada que não queira fazer para “ser um bom exemplo aos seus filhos”. Isso não irá fazer bem a você e nem aos pequenos. Também evite cobrar boas ações das crianças. Ninguém vai deixar de ser uma boa pessoa porque não segurou a porta para alguém entrar. 

Deixe que essas qualidades sejam manifestadas por elas mesmas, sem forçar ou incentivar. A beleza e os benefícios da genuinidade é deixar que venha e se manifeste de forma espontânea. Não se preocupe em “ser mais bondoso” ou “ensinar os filhos a ser bons”. A bondade está dentro de todo mundo, basta percebê-la e deixá-la manifestar.

O que é Desenvolvimento Cognitivo?

O termo desenvolvimento cognitivo é bastante citado por terapeutas, médicos e educadores. Nós também já usamos essas duas palavras em diversos conteúdos que publicamos aqui no blog. Mas você sabe o que ele significa? 

Em entrevista realizada em dezembro de 2019 para a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que desde 2007 trabalha pela causa da Primeira Infância e o desenvolvimento de crianças em seus primeiros anos de vida, o médico Drauzio Varella explicou um pouco sobre o desenvolvimento cognitivo

“A gente nasce com todo o equipamento neurológico ‘armado’, mas não pronto. O cérebro é uma miniatura do cérebro adulto, morfologicamente falando, a forma está bem estabelecida. Só o que faz o desenvolvimento das atividades cognitivas não é a forma do cérebro, não são os neurônios. São as ligações entre eles, porque é por ali que vai correr a informação, através dessas conexões que são estabelecidas. Se você estimula essas conexões, com brincadeiras, inventando histórias e lendo para a criança, ela vai desenvolvendo uma capacidade cognitiva baseada no estímulo das formações das sinapses, que são os contatos entre os neurônios”, explicou. 

Três conceitos fundamentais sobre o desenvolvimento cognitivo na primeira infância

Para explicar um pouco mais sobre essas conexões que acontecem no nosso cérebro, vamos apresentar três conceitos fundamentais sobre o desenvolvimento na primeira infância desenvolvidos pelo Conselho Científico Nacional da Criança em Desenvolvimento da universidade de Harvard. 

Esses três conceitos mostram como os avanços na neurociência, biologia molecular e genômica dão uma compreensão muito melhor de como as primeiras experiências são construídas em nossos corpos e cérebros, para melhor ou para pior.

1. As experiências moldam a arquitetura do cérebro

As experiências vividas pelas crianças durante os primeiros anos de vida têm impacto duradouro na arquitetura do cérebro e no desenvolvimento. Os genes representam o diagrama a ser executado, mas as experiências moldam o processo que define se o cérebro formará uma base forte ou fraca para aprendizagem, comportamento e saúde ao longo da vida. 

Durante essa fase importante do desenvolvimento, bilhões de células cerebrais chamadas neurônios enviam sinais elétricos para se comunicarem entre si. Essas conexões formam os circuitos que estabelecem a arquitetura básica do cérebro. Circuitos e conexões se multiplicam rapidamente e se fortalecem por meio do uso frequente. 

Nossas experiências e o ambiente em que vivemos determinam quais circuitos e conexões são mais usados. As conexões mais usadas se fortalecem e se tornam permanentes, enquanto as conexões pouco usadas desaparecem através de um processo normal chamado poda. Os circuitos simples se formam primeiro, constituindo a base sobre a qual os mais complexos serão formados depois. 

É através desse processo que os neurônios formam circuitos e conexões para emoções, habilidades motoras, controle do comportamento, lógica, linguagem e memória. Tudo isso acontece durante os períodos iniciais do desenvolvimento. 

Com o uso repetido, os circuitos se tornam mais eficientes e se conectam mais rapidamente às outras áreas do cérebro. Embora se origine em áreas específicas do cérebro, os circuitos são interligados e não se pode ter um tipo de habilidade sem as demais para complementá-la. É como na construção de uma casa, tudo está conectado, e o que vem primeiro forma a base para o que virá depois.  

2. O jogo de ação e reação modela os circuitos do cérebro

Uma arquitetura sólida do cérebro se forma por meio do jogo de ação e reação entre a criança e os adultos. Nesse jogo de desenvolvimento, os neurônios formam novas conexões no cérebro na medida em que a criança instintivamente faz expressões com o rosto, sons e gestos, e o adulto reage de maneira bem significativa e com o foco na ação da criança.

Isso começa bem cedo na vida, quando um bebê tenta se expressar e o adulto interage chamando a atenção do bebê para o seu rosto ou a sua mão. Essa interação forma as bases da arquitetura cerebral a partir da qual todo desenvolvimento futuro será construído. 

O jogo de ação e reação ajuda a criar conexões por meio dos neurônios em todas as áreas do cérebro, estabelecendo as habilidades emocionais e cognitivas que as crianças precisam para viver. Por exemplo: as habilidades de linguagem e de alfabetização se formam quando um bebê vê um objeto e o adulto pronuncia o nome desse objeto. Isso cria conexões dentro do cérebro do bebê entre sons específicos e objetos correspondentes. 

Mais tarde, os adultos mostram às crianças que tais objetos e sons também podem ser representados por marcas em uma página. Com apoio constante dos adultos, as crianças aprendem a decifrar essa escrita e, então, a escrever. Cada etapa se constrói a partir da anterior. 

Assegurar que as crianças tenham cuidadores envolvidos no jogo de ação e reação desde os primeiros meses é promover a construção de uma base sólida no cérebro para toda aprendizagem, o comportamento e a saúde pelo resto da vida. 

3. O estresse tóxico prejudica o desenvolvimento saudável

Aprender a lidar com o estresse é uma parte importante do desenvolvimento saudável. Quando vivenciamos a experiência do estresse, o sistema de resposta a ele é ativado, o corpo e o cérebro ficam em alerta, a adrenalina toma conta e os batimentos cardíacos aumentam, bem como os níveis de hormônios de estresse.

O estresse é aliviado quando a criança recebe apoio acolhedor de um adulto. O corpo da criança reage à resposta do adulto e, em pouco tempo, desacelera e volta ao normal. Em situações severas como abuso e negligência contínuos ou quando não há um adulto acolhedor para amortecer os impactos do estresse, a resposta ao estresse continua ativada. Mesmo quando não há dano físico aparente, a falta prolongada de atendimento por parte dos adultos pode ativar o sistema de resposta ao estresse.

A ativação constante de resposta ao estresse sobrecarrega os sistemas em desenvolvimento. O resultado disso são consequências sérias e duradouras para a criança, e esse processo é conhecido como estresse tóxico. Ao longo do tempo, ele resulta num sistema de resposta ao estresse permanentemente em alerta

A ciência mostra que a ativação prolongada aos hormônios de estresse na primeira infância pode reduzir o número de conexões neuronais nessas regiões importantes do cérebro num período em que as crianças deveriam estar desenvolvendo conexões novas. O estresse tóxico pode ser evitado se assegurarmos que os ambientes nos quais as crianças crescem e se desenvolvem são acolhedores, estáveis e estimulantes. 

Quando questionado sobre o desenvolvimento na primeira infância e a saúde ao longo da vida no Podcast The Brain Architects Podcast do Center on the Developing Child da Universidade de Harvard, o diretor do Centro, Dr. Jack Shonkoff, explica que uma das mensagens mais importantes que vêm da nova ciência nos obriga a conectar o cérebro ao resto do corpo. “O que acontece no início não é importante apenas para o aprendizado, para o desenvolvimento social e emocional, e para o desempenho escolar, mas é uma influência importante em sua saúde física e mental para o resto de sua vida”.   

Jack também conta que não existem cérebros perfeitos ou sistemas imunológicos perfeitos. “Como crescemos, como aprendemos e como é a nossa saúde está relacionado com a interação entre a nossa programação genética individual ao nascer e sobre o que são as nossas experiências de vida. E a parte mais importante de nossas experiências de vida é o ambiente de relacionamentos em que crescemos. Assim como o ambiente físico também tem a sua importância. Quão seguro ele é? Quão protegidos ou expostos estamos a substâncias tóxicas no meio ambiente? Quanto espaço temos para nos movimentar? Todas essas coisas juntas, interagindo com a ideia de que todos são únicos do ponto de vista genético, resultam em uma ampla gama de desenvolvimento”. 

Como a pedagogia explica o desenvolvimento cognitivo:

Para entendermos como a pedagogia explica o desenvolvimento cognitivo, conversamos com a Carol Mota, que é pedagoga, psicopedagoga clínica e autora da obra Autismo na Educação Infantil: Um Olhar para Interação Social e Inclusão Escolar. Ela explicou que o brincar é a melhor forma de estimular esse desenvolvimento. 

“Na medida em que as crianças brincam, elas estão aprendendo o tempo todo. Quando brincam explorando algum brinquedo específico que envolve a questão espacial ou as questões sensoriais, por exemplo, vai estimular o raciocínio lógico e também a memória”, disse. 

“No momento em que brincam entre si, elas também estão aprendendo uma forma de se relacionar com o outro e isso vai expandindo os processos cognitivos. Precisamos pensar que, embora os processos cognitivos existam, eles não se expandem fora de um contexto cultural e de interação social. É interagindo com os outros, com troca interativa entre os pares, entre crianças ou adultos, que a criança se apropria de novas habilidades”, explicou a pedagoga. 

A interação é fundamental: 

Carol destacou que mais do que jogos que estimulam o raciocínio, o mais importante e fundamental é sempre a interação que acontece nesses momentos.

“A interação social, a troca interativa: é nela que vamos trabalhar essas questões de modo mais significativo. Na medida que interagimos, nos comunicamos e dialogamos com outra pessoa, nós precisamos refletir sobre o nosso comportamento, precisamos pensar em que resposta vamos dar a determinada pergunta. Conforme estamos refletindo e formulando questões, os nossos processos cognitivos estão ativos e nesse diálogo entre eu e o outro, é quando esses processos vão se expandindo, quando o desenvolvimento cognitivo vai emergindo”. 

“É com a brincadeira que as crianças vão aprender a utilizar seus corpos, partindo do contato com diferentes linguagens, que podem envolver música, artes plásticas etc. Assim, a criança vai conhecer o outro e o mundo através de diversas perspectivas diferentes, e isso auxilia nas habilidades cognitivas”, contou a psicopedagoga.

Texto: Débora Nazário

Importância da mentira, da fantasia e da imaginação na infância

Quem já ficou surpreendido com uma história contada por alguma criança? Uma narrativa de fantasia e imaginação cheia de detalhes e um enredo repleto de elementos quase inimagináveis

Provavelmente a sua resposta é sim. É muito comum que as crianças contem histórias com muitos detalhes para aqueles que convivem. 

As histórias e suas perspectivas vão mudando de acordo com a idade, pois elas acompanham o desenvolvimento dos pequenos. A capacidade de criar essas narrativas muda e vai ganhando novas formas e camadas. 

A infância é um universo muito propício para a imaginação, pois é a fase da vida onde aprendemos, observamos tudo e percebemos o mundo e os outros à nossa volta. Quando criança, percebemos e sentimos frustração, alegria, tristeza e vários outros sentimentos que nem sabemos nomear. 

As perguntas que ficam são: esses comportamentos, que são muito comuns na rotina das crianças, devem ser estimulados? Qual é a importância deles na infância? Eles podem contribuir com o processo de aprendizagem e autonomia? Vamos falar sobre esses e outros questionamentos abaixo, acompanhe!

O faz de conta como forma de expressão

É legal ver em quais momentos as narrativas cheias de imaginação são construídas pelas crianças e perceber aquilo que as deixam confortáveis. Dessa forma, será mais fácil entender qual é o “recado” que elas querem dar. Algumas vezes também não vai existir um “recado”, mas sim uma expressão do que elas enxergam e como conseguem externalizar as suas percepções

Segundo Deborah Moss, que é neuropsicóloga, especialista em comportamento infantil e mestre em psicologia do desenvolvimento, em entrevista concedida ao Portal Viver Bem da UOL, afirmou que “as crianças podem usar sua imaginação para criar um ou mais companheiros de brincadeiras e conceber cada um deles de uma maneira particular, para externalizar suas relações, o que sentem, ou aprendem no dia a dia. Essas representações têm a ver com entrar em contato consigo mesmo”. 

:: Veja também: Rimas na alfabetização: conheça os benefícios ::

Inventar diálogos: 

As crianças em diversas situações repetem aquilo que ouvem dos adultos. Muitas vezes elas dão voz a objetos e reproduzem os discursos que escutam. Elas usam a imaginação e criam diálogos entre esses objetos, inventam situações e também acabam encontrando soluções para os conflitos que elas próprias criaram. 

Essas brincadeiras são extremamente positivas pois enriquecem o vocabulário, treinam a fala e estimulam a capacidade de lidar com conflitos, mesmo que sejam todos de brincadeira. 

Amigos imaginários: 

É comum que crianças tenham amigos imaginários que os acompanham nas atividades do dia-a-dia.  

Durante muitos anos, os amigos imaginários foram associados com faltas de habilidades sociais, mas isso é um grande erro segundo a opinião da professora emérita Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon, localizada em Eugene, no estado de Oregon, nos EUA. 

De acordo com Marjorie, esses amigos podem variar em relação à personalidade e nível de conexão com a rotina das crianças. Alguns são personagens de filmes, brinquedos reais, a própria imagem no espelho, partes do corpo, desenhos e outros, que trazem para a própria imaginação. O período de existência deles pode ser variável chegando a durar poucos dias ou até anos. 

Segundo a professora, os amigos imaginários podem ajudar a criança a lidar com problemas emocionais ou medos. Ela também disserta sobre como as crianças que têm amigos imaginários não apresentam desvantagens em cognição social, diferente do que muitos acreditavam há alguns anos. 

A tese de mestrado”A criação de amigos imaginários: um estudo com crianças brasileiras“, de Natália Benincasa Velludo, traz evidências de que “a criação de amigos imaginários não se associa a déficits em desenvolvimento, e pode inclusive ser um preditor de habilidades mais sofisticadas, como por exemplo, um vocabulário mais desenvolvido”. 

Ou seja, diferente do que a nossa cultura prega, crianças com amigos imaginários não têm problemas com atenção ou com atraso de desenvolvimento, e que essas crianças podem apresentar vocabulários mais robustos.

Desenvolvimento da autoconfiança 

Por meio de histórias e criatividade, as crianças podem criar personagens imaginários fortes, valentes e conseguem lidar com diversas situações. Quando os pequenos entram em contato com esses personagens, eles podem se “espelhar” nessas histórias e superar os seus medos e angústias com a ajuda desse incentivo. 

A psicóloga Sally Goddard Blythe, que é autora do livro The Genius of Natural Childhood: Secrets of Thriving Children, afirma que “a imaginação é a capacidade de criar imagens visuais no olho da mente, o que nos permite explorar todos os tipos de imagens e ideias sem ser restringidos pelos limites do mundo físico. É assim que as crianças começam a desenvolver habilidades de resolução de problemas, surgindo com novas possibilidades, novas maneiras de ver e ser, que desenvolvem importantes percepções de pensamento crítico que ajudarão a criança por toda a vida.”

As crianças e as mentiras

Crianças mentem, independentemente da criação ou dos exemplos dos pais. Muitos defendem que crianças mentem para se defender, para fugir de uma situação que não querem enfrentar ou para conseguir o que desejam. E sim, isso acontece, mas não somente por isso. Os motivos pelos quais crianças mentem vão muito além e fazem parte do desenvolvimento cognitivo, da linguagem e da noção de realidade das crianças. 

Existem evidências de que o comportamento de contar mentiras na infância tem relação com o funcionamento executivo. Segundo o estudo Social and Cognitive Correlates of Children’s Lying Behavior publicado em 2008, as habilidades do funcionamento executivo surgem no final da primeira infância e vão se desenvolvendo ao longo de toda a infância, uma época em que os pesquisadores notaram aumento na habilidade de contar mentiras. 

Foi sugerido que o controle inibitório (capacidade de suprimir processos de pensamento ou ações interferentes) e a memória de trabalho (sistema para reter e processar temporariamente informações na mente) podem estar diretamente relacionados às mentiras das crianças. Ao mentir, a criança deve suprimir o relato da transgressão que deseja esconder, e representar e proferir a informação falsa que difere da realidade.

Para manter suas mentiras, as crianças devem inibir aqueles pensamentos e afirmações que são contrárias à sua mentira e que revelariam sua transgressão, mantendo na memória o conteúdo da mentira. Assim, para contar mentiras e mentir com sucesso, as crianças devem ser capazes de manter alternativas conflitantes em sua mente (ou seja, o que elas realmente fizeram / pensaram e o que disseram que fizeram / pensaram). 

Muitas mentiras contadas pelas crianças não têm um motivo aparente. Ou seja: não é para conseguir algo, para fugir de uma situação ou para chamar atenção. Elas mentem porque isso faz parte do processo de crescer. Crianças não sabem o conceito de moral e é durante a infância que experienciam algumas coisas relacionadas a isso. E mentir é um dos caminhos que as crianças naturalmente encontram para vivenciar esses conceitos sociais. A mentira têm um aspecto diferente para cada idade das crianças:

Crianças de 2 a 4 anos

Nessa idade, as habilidades de linguagem estão surgindo e as crianças ainda não sabem exatamente onde a verdade começa e termina. Nesse período, elas não conseguem manter as mentiras que contam.

As crianças menores também têm uma compreensão bem instável da diferença entre realidade, devaneio, desejos e vontades, fantasias e medos.

Ou seja, quando a criança é confrontada com algo que ela pegou sem permissão e ela nega, ela pode expressar o desejo de que não gostaria de ter pegado ao dizer que não pegou, muito por uma limitação de linguagem. 

Crianças de 5 a 8 anos

Entre as idades de 5 a 8 anos, as crianças contam mais mentiras para testar o que conseguem fazer, especialmente mentiras relacionadas à escolas – aula, deveres de casa, professores e amigos. Manter as mentiras ainda pode ser difícil, embora elas estejam se tornando cada vez melhores em escondê-las.

Segundo a psiquiatra pediátrica Elizabeth Berger, “os regulamentos e responsabilidades desta idade costumam ser demais para as crianças. Como resultado, as crianças muitas vezes mentem para apaziguar as forças que parecem exigir mais desempenho do que podem reunir”.

Crianças de 9 a 12 anos

A maioria das crianças dessa idade está no caminho certo para estabelecer uma identidade de esforçada, confiável e consciente. Mas elas também estão se tornando mais hábeis em manter mentiras e mais sensíveis às repercussões de suas ações, e podem ter fortes sentimentos de culpa depois de mentir.

Conversas diretas e mais longas sobre honestidade são definitivamente necessárias, pois haverá raros momentos de “mentirinha” em que alguma desonestidade é aceitável para ser educado ou poupar os sentimentos de outra pessoa.

Como lidar com as mentiras dos pequenos?

Enquanto mentir faz parte do desenvolvimento normal de uma criança, pais e educadores podem dar suporte para as crianças em três sentidos, segundo um artigo do Neuroscience:

Primeiro, evite punições. Um estudo comparou uma escola que usava correções punitivas (como bater com um pedaço de pau, estapear e beliscar) e uma escola que usava correções não punitivas, alunos da escola com punições punitivas eram mais prováveis de serem mentirosos eficazes. Ou seja, quanto mais você punir, mais a criança vai mentir para ficar fora dessa situação. Crianças inseridas em famílias que dão grande ênfase ao cumprimento das regras e não ao diálogo também relatam mentir com mais frequência. 

Em segundo lugar, discuta cenários emocionais e morais com as crianças. Este “treinamento emocional” apoia a compreensão das crianças e quando as mentiras são mais prejudiciais, como elas afetam os outros e como elas mesmas podem se sentir quando mentem. 

E por último, certifique-se de que a mentira é realmente uma mentira. Como já mencionamos, as crianças muito pequenas tendem a misturar a vida real e a imaginação, enquanto as crianças mais velhas e os adultos frequentemente se lembram dos argumentos de maneira diferente.

Por Débora Nazário e Luisa Scherer

Rimas na alfabetização: conheça os benefícios

A infância é marcada por grandes descobertas e uma delas é a alfabetização. Por meio da escrita e da leitura, as crianças passam a explorar um mundo até então desconhecido por elas.   

Esse processo pode acontecer com o apoio de métodos lúdicos que envolvem músicas, poemas e as rimas. Para estimular a fase de alfabetização, esses métodos são utilizados por muitos terapeutas e profissionais da educação, e apresentam resultados positivos na aprendizagem e desenvolvimento cognitivo

Este artigo publicado em 2014 pela Frontiers in Psychology, um periódico que publica pesquisas rigorosamente revisadas por pares nas ciências psicológicas e da pesquisa clínica, afirma que as rimas podem ser especialmente facilitadoras para a aprendizagem do vocabulário por causa da maneira como elas podem apoiar previsões ativas sobre as palavras que se seguem.

Em dois experimentos, foram testadas se as rimas, quando usadas para ajudar as crianças a antecipar novas palavras, tornaria essas palavras mais fáceis de aprender. As crianças as quais foram expostas as rimas mostraram maior aprendizado de novos nomes na condição de rima preditiva nas comparações entre as crianças que não o foram. 

A hipótese dos pesquisadores é que o desenvolvimento dessas palavras novas e sua previsibilidade incentiva um maior envolvimento com elas por parte da criança. Uma criança pode não ser capaz de prever o nome exato de um nova palavra na primeira leitura de uma história, mas quando o novo nome vier no final da estrofe, a criança pode ser mais capaz de antecipar que algo está chegando, que vai soar como as terminações das linhas anteriores da história ou música. Essa antecipação pode encorajar a atenção, estimulando o aprendizado. 

:: Leia também: Por que a leitura é tão importante? ::

Tudo no seu tempo e no seu jeito 

O processo de aprendizagem que envolve a alfabetização é muito subjetivo e cada criança tem o seu próprio ritmo nesse percurso.  

Conversamos com a fonoaudióloga Manuella Barcelos, que atua no Núcleo Desenvolver do Hospital Universitário da UFSC desde 2010 e trabalha com uma equipe interdisciplinar de atendimento a crianças com queixas de dificuldade de aprendizagem sobre estes processos. 

Segundo ela, alfabetizar, ou seja, aprender a ler e a escrever, envolve dois processamentos cerebrais que a criança já tem bem desenvolvido antes mesmo de entrar na escola. Uma delas é a parte da linguagem, em que a criança já traz recursos e bagagem de casa; e o outro é o processamento visual.

A escola faz uma conexão entre essas duas áreas, apresentando esse novo universo das letras. Quando a criança aprende com base nessa questão, é essencial pensar que existe uma forma de ensinar que é a mais adequada para ela, que promove a alfabetização de uma maneira mais fácil e, nesse sentido, as rimas são ótimas aliadas

A consciência fonológica na alfabetização

“Consciência fonológica acontece quando a criança passa a manipular os sons da fala de forma consciente. Ela vai saber que a nossa fala pode ser dividida em unidades menores que são as palavras, em unidades ainda menores que são as sílabas, e unidades bem pequenas, que são os fonemas. Para a alfabetização acontecer, é importante que a criança aprenda esses pré-requisitos, e por meio de um método fônico é possível que ela alcance a alfabetização com mais facilidade”, relata a fonoaudióloga. 

Manuella utiliza as rimas no processo de alfabetização com as crianças que ela trabalha.  “O processo de alfabetização envolve a consciência fonológica. Dentro da consciência fonológica existe a rima, um dos primeiros sinais dessa consciência, que é quando a criança começa a perceber o final igual das palavras de mesma tonicidade. Além da rima existe a aliteração e, por meio dela, a criança percebe que o começo também pode ser igual, por exemplo: cobra e copo”, conta.

A rima é um dos primeiros sinais de consciência fonológica e vemos isso desde a educação infantil. O seu uso é muito importante. Eu utilizo no meu trabalho, principalmente com crianças que possuem dificuldade de aprendizagem e transtornos de aprendizagem como dislexia, ortografia ou crianças que tenham transtorno do processamento auditivo. Ela é fantástica no processo de alfabetização. É preciso estimularmos a consciência fonológica, mas é mais importante ainda estimularmos isso na educação infantil, antes mesmo de começar a alfabetização propriamente dita”, explica.  

As rimas como instrumento do desenvolvimento de habilidades

A pesquisadora canadense Ginger Muller, que possui mestrado pela University of British Columbia, desenvolveu trabalhos durante 20 anos usando rimas e canções em diversos programas de educação infantil em Vancouver, no Canadá. 

No seu trabalho, ela contextualiza rimas específicas dentro de domínios definidos pelo Instrumento de Desenvolvimento Inicial: saúde física e bem-estar, linguagem e desenvolvimento cognitivo, habilidades de comunicação e conhecimentos gerais, competência social e maturidade emocional. Dessa maneira, ela mostra como as rimas podem ser praticadas de forma eficaz com crianças de diferentes idades e os seus benefícios para essas habilidades

Neste artigo escrito pela pesquisadora, ela mostra que as crianças aprendem bem em ambientes ricos em linguagem, alegria e diversão. Ginger apresenta canções que podem auxiliar no desenvolvimento dessas habilidades, “rimas e canções infantis centenárias, testadas e comprovadas, apoiam o desenvolvimento geral das crianças em termos de significado e formas envolventes”, escreve. 

Utilizar as rimas com as crianças, além de auxiliar no processo da alfabetização, também as aproximam da cultura nacional. Há diversas rimas que contam com elementos da cultura dos estados brasileiros, regiões e também histórias sobre o folclore. Esse contato vai ser enriquecedor para as crianças em diversos sentidos!

Por Débora Nazário

Nota da Editora: Truth and Tales e as rimas

Uma dica muito legal para crianças em fase de alfabetização é o Truth and Tales, o nosso aplicativo original!

Truth and Tales é um app para crianças de 5 a 11 anos com histórias interativas e audiobooks. Todos os contos são rimados, tanto na versão interativa quanto só para ouvir as histórias. Sabendo desse benefício, fizemos questão de adotar as rimas nas histórias do app.

Foram feitos testes com crianças mostrando a mesma história rimada e sem rimas. E foi comprovado: além dos benefícios, as crianças se interessaram mais pela versão rimada da história.

Além das rimas, o Truth and Tales também conta com fontes otimizadas para pessoas com dislexia, e com a ferramenta de read along, que funciona como um karaokê, onde as palavras ficam destacadas à medida que o narrador lê. Isso ajuda bastante na alfabetização. Experimente com as crianças!